RESUMO
Este artigo pretende
fazer uma analogia entre a cultura judaica e a cultura romana sobre
o pensamento e as práticas de adivinhação. Essas culturas, tão
diferentes em suas crenças e origens étnicas, formam a base cultural
da civilização ocidental, e no âmbito religioso, contribuíram para
que o cristianismo seja a religião dominante no Ocidente.
Palavras- chave: Cultura; Religião;
Adivinhação; Ritual.
ABSTRACT
This article intends to make an
analogy between culture Jewish and the culture Roman and to think
about practices guessed. These cultures, so different in their
beliefs and ethnic origins, form the cultural bedrock of Western
civilization, and in the religious sphere, have contributed to what
Christianity is currently the dominant religion in the West.
Keywords: Culture, Religion;
Divination; Ritual.
INTRODUÇÃO
A complexidade do pensar humano, ao
longo da história, tem revelado um desejo atemporal e universal do
homem: o desejo de prever o futuro. Filosofias, mitos, crenças e
dogmas cercam o imaginário cultural acerca da capacidade de ter
ciência a respeito do que ainda está por vir.
Provavelmente desde a época do Homo
neanderthalensis, possivelmente o primeiro exemplar do gênero Homo a
desenvolver sentimento religioso-ritual, a humanidade tem buscado
encontrar modos de alterar o presente em virtude de um conhecimento
prévio dos acontecimentos. Ainda hoje, muitos cultos e rituais
oriundos principalmente de religiões tidas como pagãs e primitivas
desenvolvem técnicas de aproximação com os mistérios em tempos
vindouros.
O contexto cultural pode e é diferente
em cada cultura, no tempo e espaço, mas independentemente da época,
sempre existiram métodos de adivinhações. Até mesmo nas mais
tradicionais culturas ocidentais, sendo elas importantes pela sua
contribuição histórica e base teológica para as religiões mais
populares em nossa civilização. Em Roma e Israel respectivamente, a
adivinhação foi uma constante no cotidiano das pessoas dessas
culturas, apesar de que em muitos casos, tais manifestações de fé
fossem brutalmente repreendidas pelos princípios teológicos da
religião institucional.
A ADIVINHAÇÃO ROMANA: HERANÇA
MULTICULTURAL
Roma, a antiga cidade e capital do
Império Romano, também é termo usado para designar a própria
civilização da qual herdamos a maior parte dos princípios de
convivência social e estruturação ontológica de nossos costumes
ocidentais. Historicamente marcada pela presença de vários povos ao
longo dos séculos, a cultura romana se formou indubitavelmente com a
marca do pluriculturalismo. Gregos, Etruscos, Latinos, Celtas, todos
estes povos encontraram na Península Itálica uma ótima localização
geográfica para o desenvolvimento de suas expansões culturais e
comerciais.
Entretanto, é impossível ao homem
abdicar do fator crença, por menor que seja a manifestação em sua
cultura. Todas essas etnias que formaram o povo romano, não deixaram
somente segmentos em seus DNAs, mas muito além da cultura material
em arquitetura e objetos, influenciaram também com elementos da
cultura imaterial, os quais fariam parte da identidade do povo
romano, sobretudo as suas crenças e ritos.
Segundo o historiador Jesus Garcia
Tolsa, a adivinhação romana não se apoiava na consulta a oráculos
como era realizada na Grécia Antiga, os quais acreditavam que era um
canal de ligação com o mundo espiritual, que permitia a predição do
futuro, e cujo destino era imutável e pragmático, como no mito de
Édipo Rei.
Para os romanos, o dom da adivinhação
fora concedido por um gigante descendente do deus Tin,
correspondente a Júpiter, ou por uma ninfa lunar ou da terra,
provavelmente uma herança cultural celta-etrusca. O principal
objetivo da análise de eventos futuros para os romanos era poder se
conformar com o futuro, ou então alterá-lo para o que fosse melhor
ou mais conveniente para o autor da prática.
Dentre as inúmeras formas de
adivinhação, a mais primitiva que se tem registro era a adivinhação
por meio dos raios. Essa técnica é uma influencia essencialmente
etrusca entre os romanos. Os antigos sacerdotes etruscos
sistematizavam os raios com três tipos de sinais: os primeiros se
baseavam na vontade e conselho do deus Tin, o segundo se referia a
uma reação do deus em relação a um acontecimento e por fim, o último
grupo de raios era interpretado como uma forma de castigo
avassalador sobre alguém.
A hepatomancia, uma técnica de leitura
do futuro no fígado de animais, era tida como um ritual de
adivinhação muito eficiente e era bem mais elaborada que as técnicas
utilizadas por povos mesopotâmicos e do Oriente Médio, em geral.
Somente sacerdotes poderiam executar esta “arte”. Os Arúspices, os
sacerdotes hepatológicos, tendo como base a tradição oral, livros
sagrados e a coincidências de resultados na prática, examinavam o
fígado de animais sacrificados, dividindo-o em partes e em pontos,
sempre pronunciando augúrios de acordo com a divindade que regia
cada porção.
Fenômenos não explicados, mutações em
animais, má formações fetais, terremotos, epidemias, eclipses,
enfim, acontecimentos de algum modo extraordinários eram comumente
interpretados com a finalidade de se obter informações a respeito do
futuro. Eram tidos como sinais dos deuses afim de preparar as
pessoas para tragédias ou momentos de grande júbilo.
Em virtude de Roma ter sido um grande
entreposto comercial e cultural, elementos de crenças que não fossem
necessariamente oriundas de seus povos fundadores, foram aceitas e
aplicadas aos cultos e ritos de adivinhações.
Assim, a astronomia, que não teve
muito êxito entre os etruscos e os romanos primitivos, ganhou força
devido às trocas culturais com o oriente médio, principalmente no
final do império, com a ascensão de Constantinopla. Todavia, a
utilização de amuletos, ídolos, fetiches e outros objetos mágicos se
tornaram bem popular e comercialmente rentável para a população
romana.
ADIVINHAÇÃO JUDAICA: UM PARADOXO NA
CRENÇA DO DEUS DE ABRAHÃO?
“Brechit bará Elohim ha Chamai ha
Arets”. É nessa transliteração para a pronúncia em Português que foi
escrita e pronunciada a primeira frase do livro sagrado para os
cristãos: a Bíblia. “No princípio criou Deus os céus e a terra”,
também é o primeiro versículo do livro de Gênesis, agrupado ao
Pentateuco, sendo este, o último grupo de livros que compõe o livro
sagrado dos judeus, a Torá.
As religiões cristãs têm em comum,
muitos elementos culturais com a tradição religiosa judia, e juntas
essas crenças fazem parte do tronco judaico-cristão, o mais populoso
grupo de tradição religiosa do ocidente.
A maior compatibilidade na crença
dessas religiões não é a aceitação de Jesus como messias prometido,
pois os judeus não crêem em um messias tão somente religioso, mas
também esperam um chefe político-militar. O ponto de convergência é
o que está escrito nos pilares de ambas as fé; a crença em um único
Deus, em decorrência fica proibida qualquer outra forma de
manifestação místico-religiosa, entre elas, as práticas de
adivinhação.
Durante a existência do estado de
Israel pré-diáspora, os líderes político-religiosos, tanto do
período teocrático quanto do monárquico, lutavam veementemente
contra a influência cultural de povos vizinhos em meio à congregação
israelita. A crença na existência de um mundo espiritual que
interagia com o mundo dos vivos era uma constante no modo de vida
israelense, e tal consciência gerava neles um forte anseio de
recorrer à magia e principalmente à adivinhação.
De origem semita, o antigo povo judeu
também “herdou” influências de seus povos irmãos e dominadores, além
de um processo normal de interação sócio-cultural em virtude de a
Judéia ser um corredor de caravanas comerciais entre o Egito e a
África e o Oriente médio e Ásia Menor.
Tradicionalmente, se atribuía a Deus o
dom da adivinhação, que era reconhecido sob a forma de sonhos e
visões, porém quando era exercido somente por apóstolos e profetas,
como no caso de José “do Egito” (Gn, 45.5,15). Qualquer pessoa que
exercesse a prática de adivinhação que não fosse mediada pela crença
de que a mesma era instruída pelo Espírito de Deus seria acusada de
adivinhação e feitiçaria, e logo, sofreria as punições determinadas
pelo livro de Deuteronômio ou livro das leis.
Assim como muitas pessoas atualmente,
os judeus se proclamavam crentes de uma única divindade,
oficialmente, e que somente neste Ser deveria ser depositada a fé e
confiança. Criam na prática, contudo, que era necessário tomar
certas medidas para aplacar as forças sobrenaturais e prever
acontecimentos ruins futuros, a fim de se esquivarem deles.
A água é tida até hoje entre os
povos do Oriente médio, como o elemento primário da vida,
pois historicamente sabe se que esses povos, mais do que os
ocidentais, sofrem grandes dificuldades devido a pouca
disponibilidade de recursos hídricos na superfície ou em subsolo.
Daí a hidromancia ser uma prática
extremamente popular na cultura judia antiga assim como entre os
povos semitas, no Egito Antigo e no Mundo Clássico. Essa técnica
consistia em misturar à água dois ou mais líquidos de origem vegetal
ou animal; se a mistura desses produtos não fosse homogênea ou
resultasse em coloração escura, era tida como um mau presságio.
A observação da coloração da água
retirada de um poço também podia indicar um acontecimento futuro bom
ou ruim, valendo-se mais uma vez da coloração normal ou interpretada
como anormal da água procedente de determinada
fonte. Credita-se a introdução desta adivinhação nos rituais
populares de Israel a José, o judeu que segundo as tradições
ascendeu ao cargo de Governador do Egito, segundo o livro do Genesis
(45.5,15).
De origem babilônica, o sortilégio por
meio das flechas era uma forma de fetiche e adivinhação muito comum
entre os semitas. Essa forma de adivinhação era realizada de um modo
simples, mas que para os seus crentes, só devia ser feita caso
houvesse um nível espiritual bem desenvolvido por parte do
praticante. O mago ou a feiticeira, dispondo de algumas flechas as
sacudia e depois as atirava ao chão, de modo que, dependendo da
forma como elas caíssem, indicassem um rumo a ser tomado para
evitar uma possível derrota em uma guerra ou tomada de importante
decisão, por exemplo. Tais atos podem ser observados no livro
bíblico de Ezequiel 21.21.
A hepatologia também era praticada e
assim condenada com muita freqüência pelos judeus, que semelhantes
aos povos romanos, dividiam o fígado em partes e em pontos
estratégicos, porém, eram analisados e contabilizados sobre o
parecer da cabala, por sua vez uma forma de adivinhação, numerologia
e aplicação de segredos místicos,
estritamente judeus.
A astrologia tinha um amplo campo de
aplicações e pertencia às práticas de adivinhações dos exércitos
celestiais, as quais foram duramente combatidas pelos antigos
escritores dos livros sagrados dos judeus, e para focalizar as
crenças judias exclusivamente no monoteísmo, os profetas buscavam
constantemente mostrar como era inútil e falsa essa prática
ocultista, talvez por temerem uma não comunhão com o Deus Único ou
por medo de dissipação da identidade cultural judia do monoteísmo.
A necromancia, foi uma forma de
adivinhação que durante muitos séculos,
foi uma das mais populares formas de se buscar informações do
futuro. Existem muitos esquemas bem elaborados de subdivisões
ritualísticas da necromancia, entre elas a de se fazer um sacrifício
humano voluntário ou não, e durante o sacrifício o feiticeiro,
sacerdote ou mago teria como auxiliar o espírito da vitima,baseando-
se na crença de que o espírito humano recebe a plenitude dos
conhecimentos no momento de sua morte.
O mais desconcertante
é que justamente um rei judeu, apregoador do extermínio de
práticas adivinhativas em Israel, tido como “Eleito” de Deus foi
consultar uma feiticeira durante um momento de desespero. Saul, o
primeiro rei do Estado de Israel, durante a sua deposição e
desesperado em recuperar o trono que fora outorgado a Davi, buscou o
auxilio da Feiticeira de En-Dor para invocar o espírito do líder
teocrático Samuel, num ato, para muitos,
tido como uma ação de declínio espiritual, (1 Samuel 28.7).
CONCLUSÃO
A necessidade intrínseca de
conhecimento que alimenta a essência humana permite-nos a acreditar
em formas de ir além do presente, em ir além do passado, sempre
criando expectativas, sempre pensando no futuro.
Muitas vezes por questões de crença,
ou simplesmente por preconceito e ignorância, o ato de pensar em
prever o futuro é duramente repreendido, assim como foi repreendido
ao longo dos séculos pelo moralismo ideológico de grupos religiosos;
que não entendiam que tal curiosidade é pertinente somente ao Gênero
humano: a preocupação com o amanhã, com o
porvir.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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DAVIS, D. John. Trad: BRAGA, Carvalho.
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BIBLIA, V. T. Gênesis. Português.
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BIBLIA, V. T. I Samuel. Português.
Bíblia de estudo Vida. Reed. Versão de João Ferreira de Almeida. São
Paulo: Ed. Vida, Rua Júlio de Castilhos, 280. Cap. 28, vers. 7.
Terrin, Natale Aldo; [tradução
Euclides Luiz Calloni]. Antropologia do sagrado: culturas e
religiões. São Paulo: Paulus, 2004.