Secretário da Cultura do Sr. Kassab, o Sr. Calil, não se
cansa de tentar fazer a política de minimizar despesas,
mesmo que em prejuízo dos já fracos canais para o acesso à
cultura da população, passar como modernização e
revitalização. O que seu artigo na Folha de São Paulo
(abaixo) demonstra é que, a ninguém, está conseguindo
enganar.
Na
verdade, só está sendo coerente com a política do PSDB (de
Serra) e a postura antipopular do Dem (de Kassab) de encarar
o Estado, que deve buscar a melhoria da qualidade de vida da
população, como uma empresa privada, cujo objetivo é
maximizar os lucros. Os defensores dessa visão não medem as
conseqüências nefastas, que as suas atitudes podem causar a
parcelas ou, mesmo, a toda a população.
Mas,
um “lobo em pele de cordeiro” sempre esquece de cobrir
alguma parte, que o delata. Três aspectos desse seu artigo
cumprem tal papel.
1º) O
título da matéria é “Bibliotecas para quem?”. Estaria o Sr.
Calil tentando favorecer algum setor social? Seria aos
pobres? Teríamos uma nova versão de Robin Wood, de tirar dos
ricos para dar aos pobres? Se, como num conto de fadas, isso
estivesse acontecendo, mesmo assim, não seria melhor fazer a
manutenção das bibliotecas generalistas, já existentes, que
são referencias como ele mesmo diz, iniciando a criação de
outras temáticas, móveis etc.?
2º)
Sintomaticamente, só ano final da gestão Kassab, nos vem o
Sr. Calil anunciar a renovação da frota dos ônibus
bibliotecas, que ficaram sem manutenção adequada e sem
reforços por mais de 13 anos. Será que o “favorecimento aos
pobres” só pode acontecer com a proximidade das eleições?
3º)
Novamente, o tempo atrapalha os argumentos do Sr. Calil.
Faltando oito meses para o final do presente mandato
municipal é que se resolve “Desativar uma biblioteca
enquanto se constroem outras”. Não seria mais sincero, para
quem quer reforçar o acesso da população à cultura, primeiro
construir as novas bibliotecas e, só depois de confirmar que
as novas substituem com folga as antigas, desativar essas
últimas? Bom, mas pelo menos, agora (nesse parágrafo), o
Secretário, admite que desativou bibliotecas.
Quem
quer, de fato, melhorar o atendimento à população faz um
esforço para ouvi-la antes de tomar medidas drásticas. Ao
desconsiderar esse procedimento, o Secretário Calil do
Prefeito Kassab deixou aparecer o rabo do lobo, que estava
sob a pele de carneiro. O melhor mecanismo para atender a
amplos setores da população é a democracia. Não a
implementando, caiu no descrédito.
Coisas
semelhantes acontecem na relação, que o Sr. Calil mantêm com
o funcionalismo municipal. Acena com o concurso para
Bibliotecários, mas age de forma autoritária, não conversa
com os técnicos da área em que pretende mexer, mesmo sabendo
que eles acompanham o cotidiano dessa área e podem
contribuir. Chega a perseguir categorias profissionais, que
eventualmente poderiam ser críticas à sua ação pública,
manifestando antipatia pessoal por elas e não isenção
administrativa ou visão estratégica para a cultura no
município.
De
fato, quem está promovendo a “apocalipse” na Secretaria
Municipal da Cultura é o Sr. Calil, mas quem terá que tocar
as “trombetas” é a população paulistana, visando defender-se
dos ataques aos seus mais legítimos interesses.
Um
abraço,
William.
06/03/2008.
FOLHA DE S. PAULO -
06/03/2008
QUINTA-FEIRA
CIDADES
Tendências Debates
Bibliotecas para quem?
Desativar
uma biblioteca enquanto se constroem outras não é o
apocalipse; é prioridade recuperar o papel estratégico das
bibliotecas
CARLOS AUGUSTO CALIL
RECENTES MEDIDAS da
Secretaria Municipal de Cultura, amparadas em estudos e
decisões técnicas do Sistema Municipal de Bibliotecas,
causaram polêmica na imprensa. A notícia que circulou é que
a prefeitura iria fechar quatro de suas bibliotecas, o que
não corresponde exatamente à verdade.
A reação,
desproporcional ao fato, foi alimentada por questões de
natureza emocional e, certamente, simbólica. Quem seria
favorável ao fechamento de bibliotecas? Na tábula rasa que
se tenta produzir como conseqüência, apareceu maliciosamente
a insinuação de que a prefeitura não possui uma política
para as suas bibliotecas. Nada mais injusto. Um dos
principais objetivos desta gestão na área cultural é
justamente revigorar e ampliar a rede de bibliotecas
municipais, uma das maiores do mundo.
Constituída a
partir do decênio de 1940, sua expansão se consolidou nos
anos 1960, a partir do conceito de descentralização,
defendido por Mário de Andrade, o primeiro secretário de
Cultura de São Paulo. Nos bairros, a vocação iluminista das
bibliotecas era apoiada na complementaridade com a função
educativa. Escola pública e biblioteca eram sinônimos de
excelência na oferta de serviços pelos governos. A
decadência da escola levou ao abandono da biblioteca de seu
público privilegiado, o estudante.
Bibliotecas de
referência, como a Mário de Andrade e a Monteiro Lobato, com
a debandada da população do centro, viram-se subitamente
esvaziadas de seu papel de irradiadoras da alta cultura e de
pólos aglutinadores da vida inteligente da cidade.
A rede de
bibliotecas públicas se deteriorou. No início de 2005, as
bibliotecas eram administradas pelas subprefeituras, poucas
delas em condições de mantê-las. De telhados avariados a
livros mutilados, equipamentos obsoletos e catalogação
suspensa, o quadro era desesperador.
Sem espaço para
receber novos exemplares, com problemas de infiltração,
coleções de periódicos abandonadas etc., há tempos a
biblioteca Mário de Andrade, segunda mais importante do
país, aguardava ação de revitalização, que veio com o
projeto de reforma e expansão ora em curso, com investimento
de R$ 25 milhões.
O descrédito na
atuação do poder público era tal que se tornou indispensável
elaborar um amplo leque de medidas que visasse a reverter
tal situação. Essa política de revitalização incluía
necessariamente a criação do Sistema Municipal de
Bibliotecas, com o objetivo de dotar a prefeitura de
instrumento de racionalização e modernização da rede.
A recuperação do
papel estratégico das bibliotecas na cultura da cidade
tornou-se prioridade. Antes de tudo, a coleção precisava ser
radicalmente renovada, e, por este motivo, investimos R$ 3,6
milhões na compra de 150 mil exemplares de livros e na
assinatura de 97 títulos de periódicos.
Reformas em 23
bibliotecas restituíram as condições mínimas de conforto
dessas edificações e receberam investimento de cerca de R$
2,5 milhões. Em 2008, 15 novas obras deverão ser iniciadas,
atendendo à necessidade de metade da rede. Novas bibliotecas
serão construídas em Cidade Tiradentes e Itaquera, com
início das obras previsto para este ano, e a rede dos CEUs
se expande rapidamente na periferia.
O projeto
Bibliotecas Temáticas indicou que investir em acervos
especializados nas unidades é um caminho promissor. Já estão
em operação quatro unidades temáticas em poesia, cultura
popular, música popular brasileira e contos de fadas, e mais
seis serão implantadas ainda neste ano.
Outras medidas vêm
sendo adotadas: renovação da frota dos ônibus-biblioteca,
que operava com os mesmos veículos desde 1991; implantação
de pontos de leitura (minibibliotecas em regiões carentes);
ampliação dos bosques de leitura nos parques municipais;
instalação de telecentros nas bibliotecas em condições de
acessibilidade, que já abrangem um terço da rede; e, claro,
a retomada da catalogação do acervo. Nada disso será
consolidado se não pudermos contratar novos bibliotecários:
um concurso para preencher 180 vagas já está aberto, com
prova prevista para 27 de abril.
Esse esforço ainda
não é suficiente, mas sinaliza a via de superação do atraso
acumulado. Essas ações são possíveis graças à duplicação do
orçamento da Secretaria Municipal de Cultura ocorrida na
gestão Serra/ Kassab, de R$ 150 milhões em 2005 para R$ 300
milhões em 2008.
Na racionalização
dos recursos, é preciso agir com coragem para romper o
imobilismo instaurado há anos.
Desativar uma
biblioteca enquanto se constroem outras não é o apocalipse
anunciado com trombetas. Mas a mobilização da comunidade em
torno das medidas de revitalização pode significar o fim da
indiferença pelo destino de nossas bibliotecas. E então todo
esse barulho terá valido a pena.
CARLOS AUGUSTO
CALIL, 56, é secretário de Cultura da Prefeitura de São
Paulo. Documentarista e escritor, é professor da Escola de
Comunicações e Artes da USP. Foi diretor do Centro Cultural
São Paulo (20001-2005).
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