Como o “garotinho” da música de sucesso “Bolinha de Sabão”, de
Orlann Divo e Adilson Azevedo, no período de lançamento da Bossa
Nova, os governos petistas nos chamam para uma brincadeira:
“...quando ele me chamou e pediu pra com ele brincar. Foi então que
eu vi como era bom brincar, ser criança é bom, agora vou passar a
fazer bolinhas de ilusão.”
Apesar da alta aceitação popular desses governos, que tem como
principal explicação uma fragilíssima melhoria das condições de vida
de camadas pobres da população, a situação dos serviços públicos nas
áreas da saúde, habitação, transporte, segurança, educação,
saneamento básico e meio ambiente, continuam tão precários quanto
antes.
Mesmo assim, a ostentação de uma aparência de estabilidade
econômica é permitida pela combinação de uma economia externa
momentaneamente favorável, apesar do baixo valor do dólar estar
acelerando a mudança desse quadro, com jogos contábeis, que mudaram
a denominação de dívida externa para dívida interna – sem deixar de
permitir que o superávit primário (para pagar dívidas) absorvesse os
recursos sociais, somando-se a uma estabilidade financeira calcada
em transferência de fundos públicos para bancos privados (Proer, no
governo FHC, etc.). Não é sem razão que os banqueiros e os
representantes do grande capital estão muito satisfeitos e
confiantes no que vem sendo demonstrado, desde o primeiro governo
Lula até o de sua sucessora.
Mas, não é só a mobilização das trabalhadoras e dos trabalhadores
de diversos países, que não aceitam pagar pela crise internacional
do capitalismo, que devem servir de alerta a quem vive de salários
no Brasil. Por trás das aparências de quem se dispõe a ajudar na
superação dos problemas dos países capitalistas dominantes (Europa e
USA), o que revela o profundo compromisso do governo brasileiro com
a conservação desse sistema econômico, está a divulgação de um falso
entendimento das condições vividas pela maioria da população
brasileira.
A matéria do economista Paulo Passarinho, reproduzida abaixo,
mostra que a popularidade emanada por uma economia, que, de fato,
não tem por objetivo fazer uma distribuição mais equitativa da
renda, tem “telhado de vidro” e, mais cedo ou mais tarde, o público
vai ver o que ela esconde. Se for verdade que a situação política
está baseada no bom andamento da economia, este país não está imune
ao que acontece com o resto do mundo, como querem nos fazer
acreditar.
Abração do
William.
09/11/2011.
Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br
correiocidadania@correiocidadania.com.br
Melhor distribuição de renda no Brasil é uma
construção ideológica, planejada e articulada’
Escrito por Paulo Passarinho
Qui, 03 de Novembro de 2011
O Brasil é - e continua sendo - um dos países mais desiguais do
mundo. Uma vexaminosa vergonha, caso os ricos do nosso país tivessem
um mínimo de respeito pelo nosso povo, pela verdade e por um mínimo
senso de justiça. Ao contrário, não somente os ricos, seus políticos
e seus acadêmicos não possuem esses predicados, como fazem escola
agora, junto a segmentos da vida nacional que outrora se colocavam
contra o espírito predador e egoísta das classes dominantes nativas.
Nos últimos anos, por exemplo, com o amplo apoio da mídia
dominante, generalizou-se a informação sobre uma suposta melhor
distribuição de renda no Brasil. Com base em dados obtidos pelas
PNAD’s – Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios, do IBGE –,
difunde-se, sem maiores cuidados, que a distribuição de renda, desde
1995, vem melhorando no país, ano após ano, em particular de 2005
para cá.
Tecnicamente, através do cálculo do coeficiente de Gini, a partir
desses dados das PNAD’s, de fato é constatável uma melhor
distribuição da renda. Contudo, esse tipo de resultado não
corresponde inteiramente à realidade. Esta ponderação é importante,
pelo fato, de amplo conhecimento de pesquisadores e estudiosos da
matéria, de os números das PNAD’s não captarem adequadamente os
dados de renda relativos aos ganhos dos capitalistas, rendimentos
vinculados à geração e pagamento de lucros, juros e aluguéis. Essas
pesquisas do IBGE registram de forma adequada os rendimentos típicos
do mundo do trabalho – salários, diárias, pagamento de autônomos,
trabalho por conta própria, entre outros.
Portanto, estudos sobre a distribuição de renda, com base nos
resultados das PNAD’s, não revelam uma parte importantíssima da
repartição de rendas no país, justamente aquela apropriada pelos
capitalistas.
Em um país com uma estrutura tributária regressiva, onde a maior
parte da arrecadação advém de tributos sobre o consumo e a produção
(o que faz com que, proporcionalmente aos ricos, os pobres paguem
mais); onde a estrutura fiscal, de gastos públicos do Estado,
privilegia as despesas financeiras, com o pagamento de uma carga de
juros alta e crescente, ano após ano; e onde os serviços públicos
voltados à população são péssimos, desconsiderar a parcela da renda
que fica com os capitalistas, em estudos sobre distribuição de renda
no Brasil, é no mínimo curioso.
Contudo, passou-se a considerar absolutamente trivial a
informação sobre uma suposta melhoria na distribuição de renda no
Brasil, nos últimos anos. Chegamos ao ponto de passar como algo dado
o “surgimento” de uma nova classe média, apenas existente nas
planilhas de economistas do mainstream, nas editorias de economia da
mídia dominante e nas visões mercadológicas de publicitários.
Brasileiros fazendo parte de famílias com rendimentos acima de R$
1.300,00 se viram, da noite para o dia, “promovidos” à almejada
classe média.
O que objetivamente temos experimentado é que, com os aumentos
reais do valor do salário mínimo, o impacto desse reajuste na maior
parte dos benefícios da Previdência – que hoje correspondente ao
valor do salário mínimo – e com a ampliação dos programas de
transferência de renda aos miseráveis, de fato, tivemos uma elevação
dos rendimentos dos mais pobres, da base da pirâmide populacional
brasileira, diminuindo o espaço de diferença entre esses e os
brasileiros de maior renda assalariada, ou dependentes de
rendimentos do trabalho. Porém, podemos destacar, os ricos e
super-ricos ficam de fora dessa conta.
Outra informação relevante para esclarecer essa realidade pode
ser obtida junto ao Dieese – Departamento Intersindical de
Estatística e Estudos Socioeconômicos. Esse órgão calcula
mensalmente o valor que deveria corresponder ao salário mínimo, caso
a cesta de consumo prevista para o seu atendimento fosse respeitada
– incluindo as despesas não somente com alimentação, mas com
habitação, transporte, saúde, lazer, entre outras, para uma família
com dois adultos e duas crianças, de acordo com o decreto original
de sua criação, em 1940.
Por esse cálculo do salário mínimo necessário, o valor
correspondente deveria ser (agora, em outubro desse ano de 2011) de
R$ 2.329,94. Este seria o valor – mínimo – para se assegurar a
subsistência de uma família de quatro pessoas, o que implicaria uma
renda média familiar por pessoa de R$ 582,49. Valor, portanto,
superior ao atual salário mínimo em vigor, de R$ 545,00. Esses
valores nos dão a dimensão da distorção produzida para nos convencer
sobre o suposto surgimento do que se chama de “nova classe média”.
Na verdade, boa parte dos contemplados com esta nova designação
possivelmente sequer poderia estar sendo considerada como pobre, ao
menos sob os critérios do que poderíamos considerar como o justo
valor de um salário mínimo, digno desse nome.
Reinaldo Gonçalves, professor de economia da UFRJ, em recente
estudo – Redução da Desigualdade da Renda no Governo Lula – Análise
Comparativa (junho/2011) –, coloca essa discussão em termos mais
racionais e com o grau de seriedade que o assunto merece. Entre as
principais conclusões de seu trabalho, o professor assinala que há
tendência de queda da desigualdade da renda no Brasil no Governo
Lula. Entretanto, a redução da desigualdade da renda é fenômeno
praticamente generalizado na América Latina, no período 2003-08.
Reinaldo lembra que, apesar desse avanço, Brasil., Honduras, Bolívia
e Colômbia têm os mais elevados coeficientes de desigualdade na
América Latina, que tem, na média, elevados coeficientes de
desigualdade pelos padrões internacionais. Além disso, o Brasil
experimenta melhora apenas marginal na sua posição no ranking
mundial dos países com maior grau de desigualdade, entre meados da
última década do século XX e meados da primeira década do século
XXI, saindo da 4ª posição da lista mundial dos países mais desiguais
para a 5ª posição.
Por fim, por tudo isso, não é de se estranhar a informação
divulgada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud),
com relação ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2011. Por
esse cálculo, baseado em quatro critérios – esperança de vida, média
de anos de escolaridade, anos de escolaridade esperados e renda
nacional per capita –, o Brasil está em 84º lugar em uma lista de
187 países. No ano passado, estávamos na 73ª posição, entre 169
países.
No âmbito da América Latina, o Brasil ocupa apenas o 20º lugar.
Contudo, quando se incorpora a esse cálculo do IDH justamente o grau
de desigualdade de renda, nosso país passa a ocupar apenas o 97º
lugar, perdendo 13 posições.
Fica clara, assim, mais uma vez, a construção ideológica,
planejada e articulada, em curso no Brasil, por parte de governos,
mídia dominante, círculos acadêmicos e os partidos da ordem. O
objetivo é nos convencer sobre o suposto caminho exitoso do modelo
econômico dos bancos e das transnacionais. As reiteradas notícias e
informações sobre a melhor distribuição de renda do Brasil têm a
rigor apenas uma meta: legitimar o modelo em curso, as políticas
econômicas adotadas para a sua viabilização e a demonização de
qualquer alternativa que venha a ameaçar os grandes beneficiários da
ordem atual.
Paulo Passarinho é economista
Última atualização em Segunda, 07 de Novembro de 2011