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A bebida e o cigarro tiram o dinheiro do leite e
do pão das famílias mais pobres e ajudam a
aumentar a miséria. Isso não é nenhuma novidade,
mas o fato é que muito se fez nos últimos anos
para combater o cigarro. Já a bebida continua
com moral elevada no Brasil, país das
desigualdades e das hipocrisias: aqueles que
criticam a inércia do governo em relação à fome,
na mesa de um bar, são os primeiros a atender os
apelos (e que apelos!) da propaganda de cerveja.
Não sou contra a liberdade de beber, assim como
todos têm liberdade para fumar. Recriar a Lei
Seca seria bom para os traficantes, e só. Mas
está na hora de começar uma campanha que mostre
os efeitos nefastos do álcool, exatamente como
se fez com o cigarro. Estampar cidadãos com
cirrose terminal nas garrafas de pinga poderia
ser um bom começo. Melhor do que escrever "beba
com moderação", frase que já virou motivo de
piada nos comerciais de TV. Tem marca de cerveja
que aconselha a "degustar com
parcimônia!" O importante é degustar, com ou sem
parcimônia, sob as benesses da lei.
Não é preciso fazer muitas contas para chegar à
conclusão de que a bebida não é ruim apenas para
os mais pobres. O conhecido "rombo" da
Previdência seria menor, se não houvesse tantos
pagamentos de pensão por morte e invalidez no
trânsito, motivados por motoristas embriagados.
Também não haveria tantos acidentes de trabalho
na construção civil e em outras atividades de
risco, envolvendo alcoólicos. Da mesma forma, o
número de homicídios por motivos fúteis (a
popular "briga de bar") cairia. Espancamentos
domésticos também poderiam diminuir.
Mas no país que criou a "Lei de Gérson", parece
ser muito mais fácil criticar ou fazer piada na
beira do balcão: afinal de contas, o que é que
nós temos com isso, não é verdade? Muita gente
só lembra da tragédia que representa a bebida
quando vê um filho morrer inocente no trânsito.
Ou quando sabe que aquele parente ou amigo está
com os dias contados por causa do alcoolismo. Ou
vê uma pessoa querida numa cadeira de rodas ou
na cama de um hospital, sem esperanças, por
causa daquele bêbado que continua
dirigindo por aí, impune!
Chegou a hora das pessoas de bem fazerem alguma
coisa. Aqui dou a minha sugestão: criar um
movimento nacional, com assinaturas por todo o
país, exigindo o fim da propaganda impune das
bebidas alcoólicas. Os veículos de comunicação
não vão deixar de existir se cortarem a verba
publicitária da cerveja, da vodka ou da
aguardente. O caso é que cortaram a propaganda
do cigarro, quebrando os interesses de
multinacionais bilionárias, e milhões de pessoas
deixaram de morrer de câncer!
Entendo que o primeiro passo deve ser a
proibição da propaganda de bebidas alcoólicas em
espaços públicos e nos meios de comunicação,
assim como acontece com o cigarro. Junto a isso,
a proibição da venda de bebidas em postos de
gasolina e locais frequentados por menores de 18
anos, como shows destinados a adolescentes. As
bebidas continuariam sendo vendidas nos bares,
mas sem propaganda. Os rótulos das garrafas, por
sua vez, estampariam fotos com mensagens de
alerta, exatamente como acontece com o cigarro.
Quem trabalha no dia-a-dia com dependentes
químicos sabe muito bem que a bebida é uma droga
bastante poderosa, e que se torna ainda mais
forte por ser socialmente aceita, sem
contestação. Falta informação para a população
em geral sobre o que é o alcoolismo e muitos
duvidam que se trate de uma doença, dado o
preconceito arraigado na mente das pessoas.
A equação é simples: a bebida gera empregos e
impostos, mas cobra em troca uma fatura
impagável, representada por milhões de mortes
anônimas e bilhões de reais em prejuízos para a
sociedade brasileira. Alguns grupos de empresas,
como seguradoras de automóveis e administradoras
de planos de saúde, só para citar dois exemplos,
já deveriam ter-se dado conta disso, pois pagam
a conta da bebida. Mas quem paga mais caro
continuam sendo aqueles que não têm como se
defender: as famílias envolvidas nas tragédias e
as crianças pobres e miseráveis, filhas de pais
dependentes do álcool.
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