No final da década de 1990, a diferença de escolaridade média entre
um homem negro e um branco, ambos com 25 anos de idade, era de 2,3
anos de estudo para este, o que correspondia a uma elevada
desigualdade, na medida em que o período médio de escolaridade dos
adultos, no Brasil, em geral, não ultrapassava 06 anos.
Em torno deste problema, surgiram movimentos voluntários da
sociedade civil, no âmbito das lutas sociais e do movimento negro,
voltados à sensibilização da opinião pública com relação ao estado
da situação sócio-econômica da população afrodescendente. Uma das
reivindicações era a implantação de cursos pré-vestibulares voltados
para a população negra e pobre.
A par desta situação nacional, a Universidade Federal do Amapá –
UNIFAP, fazendo jus ao seu papel de instituição formadora de
profissionais da educação, criou um projeto social que visava
proporcionar maior proximidade com a população afrodescendente e
economicamente carente. Tratava-se do CPV-Negros, um cursinho
preparatório para o vestibular, gratuito, para alunos negros e
carentes, a fim de que tivessem melhores condições de disputar uma
vaga nos cursos de graduação ofertados na instituição.
Tal projeto foi fruto da extensão universitária, tendo como
principal objetivo chamar a atenção da sociedade para a necessidade
de propor ações de inclusão social aos praticantes de cultos
afro-brasileiros, que vivenciam um histórico de exclusão das
oportunidades de trabalho e de ocupação dos cargos políticos
relevantes, em função do passado escravista brasileiro.
Os professores-monitores do CPV-Negros são bolsistas da instituição
ou voluntários, o que gera questionamento acerca do assistencialismo
ou solidarismo praticado, haja vista que um enquadramento da UNIFAP
como instituição assistencialista pode dar-lhe imunidade tributária
e previdenciária, previstos no artigo 150, IV, “c” e 195, § 7º da
Constituição Federal de 1988.
Contudo, o que caracterizaria a UNIFAP como entidade
assistencialista, neste entrave jurídico, não seria o serviço
proporcionado, mas o seu desvínculo com o poder público e
oferecimento total gratuito de todos os serviços prestados, e neste
item a instituição não se encaixa, pois é um órgão público, e como
tal suas atividades são regidas devidamente por diplomas legais que
lhe conferem o status de contribuinte social do tipo previdenciária.
Desta forma, a existência do CPV-Negros assinala à UNIFAP a alcunha
de instituição solidária às necessidades da população carente e
consciente de sua importante função social na oferta da educação
pública.