Linguiça e voo. É assim que essas palavras podem passar a ser
escritas, a partir de janeiro do próximo ano, com a implantação da
nova reforma ortográfica que propõe a eliminação do trema (que já
estava no corredor da morte há algum tempo), além de outras
alterações na Língua Portuguesa. O acordo, formatado em 1991,
inicialmente contava apenas com a ratificação de Brasil e Cabo Verde
e necessitava da ratificação de três países da CPLP (Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa). Em dezembro de 2006, São Tomé e
Príncipe deu a sua assinatura ao tratado. O “x” da questão é que
Portugal, nação “mãe” da língua, não ratificou o acordo e, segundo o
conselheiro cultural da embaixada de Portugal em Brasília, Adriano
Jordão, Portugal ainda não “cedeu por questões jurídicas” e contesta
que o acordo possa entrar em vigor com apenas a assinatura de três
países em oito.
O
presidente da ABL (Academia Brasileira de Letras), Marcos Vinicius
Vilaça, pediu ao governo português que promova ações concretas, e
com brevidade, no sentido de ratificar definitivamente o acordo.
Além disso, lamenta que os portugueses mantenham a atual resistência
depois de dezesseis anos de formatação do acordo. Segundo ele, a
recusa contribui para um possível isolamento de Portugal. Vilaça
também lembrou que o português de Moçambique já vem se aproximando
crescentemente do inglês, por força de interesses de ordem
econômica, e ressalta que os países de língua espanhola utilizam
apenas um dicionário, resultado do trabalho da Real Academia da
Espanha e de outras dezessete academias de países hispânicos.
Segundo Evanildo Bechara, que ocupa a cadeira 33 da ABL (Academia
Brasileira de Letras) desde 2000, a unificação da escrita é boa para
o português, pois livros poderiam ser editados igualmente em todos
os países de língua portuguesa e, além disso, o português precisa se
impor como terceira língua mais falada no ocidente. Por outro lado,
tanto Vilaça, quanto Bechara concordam que a mudança traria gastos
enormes ao país e a todo mundo que compra livros. Seria ruim para
quem compra e, obviamente, bom para quem vende.
Segundo a CPLP, apenas 0,5% das regras da Língua Portuguesa no
Brasil seriam alteradas. No caso de Portugal, a modificação seria
1,5%. Em minha opinião, como professora da Língua Portuguesa, essa
reforma deveria ser melhor discutida; afinal as mudanças são poucas
e insuficientes para unificar a língua. Se implantada, em pouco
tempo seria necessário fazer uma nova reforma, o que acarretaria um
enorme prejuízo em função do desperdício de livros editados, visto
que os exemplares mais vendidos são os escolares. Portanto, os que
já foram publicados seriam inutilizados.
O que muda com
a reforma
HÍFEN
- Não se usará mais:
1. quando o segundo elemento começar com s ou r, devendo estas
consoantes ser duplicadas, como em "antirreligioso", "antissemita",
"contrarregra", "infrassom". Exceção: será mantido o hífen quando os
prefixos terminarem em r -ou seja, "hiper-", "inter-" e "super-"-
como em "hiper-requintado", "inter-resistente" e "super-revista"
2. quando o prefixo terminar em vogal e o segundo elemento começar
com uma vogal diferente. Exemplos: "extraescolar", "aeroespacial", "autoestrada"
TREMA -
Deixará de existir,
a não ser em nomes próprios e seus derivados
ACENTO DIFERENCIAL -
Não se usará mais
para diferenciar:
1. "pára" (flexão do verbo parar) de "para" (preposição)
2. "péla" (flexão do verbo pelar) de "pela" (combinação da
preposição com o artigo)
3. "pólo" (substantivo) de "polo" (combinação antiga e popular de
"por" e "lo")
4. "pélo" (flexão do verbo pelar), "pêlo" (substantivo) e "pelo"
(combinação da preposição com o artigo)
5. "pêra" (substantivo - fruta), "péra" (substantivo arcaico -
pedra) e "pera" (preposição arcaica)
ALFABETO -
Passará a ter 26
letras, ao incorporar as letras "k", "w" e "y"
ACENTO CIRCUNFLEXO -
Não se usará mais:
1. nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do
subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados.
A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem” ·2. em
palavras terminadas em hiato "oo", como "enjôo" ou "vôo" -que se
tornam "enjoo" e "voo"
ACENTO AGUDO -
Não se usará mais:
1. nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas, como
"assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia"
2. nas palavras paroxítonas, com "i" e "u" tônicos, quando
precedidos de ditongo. Exemplos: "feiúra" e "baiúca" passam a ser
grafadas "feiura" e "baiuca” ·3. nas formas verbais que têm o acento
tônico na raiz, com "u" tônico precedido de "g" ou "q" e seguido de
"e" ou "i". Com isso, algumas poucas formas de verbos, como averigúe
(averiguar), apazigúe (apaziguar) e argúem (arg(ü/u)ir), passam a
ser grafadas averigue, apazigue, arguem
GRAFIA -
No português
lusitano:
1. desaparecerão o "c" e o "p" de palavras em que essas letras não
são pronunciadas, como "acção", "acto", "adopção", "óptimo" -que se
tornam "ação", "ato", "adoção" e "ótimo” ·2. será eliminado o "h" de
palavras como "herva" e "húmido", que serão grafadas como no Brasil
- “erva" e "úmido" .