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É difícil argumentar
contra a idéia de que a tecnologia irá mudar mais nos próximos dez anos
do que já mudou nos últimos cem. A velocidade dos avanços tecnológicos
tende a dobrar a cada dez anos, o que significa que até o final deste
século a tecnologia estará mil vezes mais avançada que nos dias atuais.
A base para essas
estimativas é parecida com a dos juros compostos: os avanços já
alcançados aceleram novas descobertas, que por sua vez servem de
ferramenta para novos avanços, num ciclo virtuoso que cresce em
progressão geométrica. Para se ter uma idéia, foram necessários 14 anos
para sequenciar o vírus do HIV, mas apenas 31 dias para se chegar ao
genoma da gripe asiática - um esforço semelhante feito apenas alguns
anos depois.
Não precisamos ir
muito longe. Há poucos meses eu congelei células-tronco da minha filha
recém-nascida, procedimento que hoje serve para curar meia centena de
doenças (inclusive leucemia), mas que há poucos anos não passava de
ficção científica. Igualmente pertenciam ao terreno da fantasia coisas
que hoje são reais como nano-robôs que entram no organismo para limpar
artérias, em vez das antigas cirurgias de alto risco. Também já são
realidade organismos geneticamente modificados para coisas tão fúteis
como peixinhos fosforescentes ou tão úteis como limpar os vazamentos de
óleo nos oceanos, só para citar alguns exemplos.
Nesse contexto, não
dá para saber, ao certo, onde o mundo estará daqui a cinquenta ou cem
anos. Pode-se prever carros elétricos que se auto-dirigirão a destinos
programados usando rotas controladas por computador para obter a melhor
performance, ou aparelhos de telefone integrados com TV, rádio, Internet
e demais canais de comunicação implantados diretamente em nossos órgãos
sensoriais. E certamente ainda surgirá muita coisa que não está sequer
em nosso imaginário. Se aceitarmos o fato de que nos próximos cem anos a
tecnologia irá avançar mil vezes mais do que já avançou em toda a nossa
história, é simplesmente impossível prever o futuro.
Por outro lado, há
coisas que evoluem tão lentamente que permitem, sim, imaginar como serão
no próximo século. Coisas que fazem parte da nossa constituição humana,
das nossas tradições e cujas mudanças ocorrem com velocidades
infinitamente mais lentas do que as da tecnologia. Refiro-me a questões
como preconceito, avareza, egoísmo. A cada minuto, morrem, por causa da
fome ou de doenças curáveis, cerca de dez crianças.
No mesmo mundo em
que os recursos naturais de uma nação, como o petróleo ou a soja,
respondem por boa parte da sua riqueza, as mesmíssimas pessoas que
participam da sua extração e produção pertencem às camadas mais pobres,
mais miseráveis, deixando essa riqueza na mão de uns poucos
privilegiados. Nossa tecnologia é capaz de ajudar uma mãe a dar à luz
uma criança em condições que outrora seriam impossíveis. No entanto,
morrem ou são mutilados milhões de seres humanos, simplesmente por terem
nascido do lado errado das fronteiras, ou por terem determinada cor de
pele ou crença religiosa.
As nações se unem na
busca da paz e o organismo máximo que as coordena, a ONU, é controlada
pelos cinco países que têm poder de veto, e não por acaso, são os cinco
maiores fabricantes de armas do planeta, onde se gasta em campanhas
militares, a cada minuto, mais de três milhões de dólares.
A boa notícia é que
há luz no fim do túnel. A mesma perenidade das nossas atitudes mais vis
também se aplica às nossas emoções mais nobres. Posso prever, com alguma
dose de certeza, que daqui a vinte, quarenta ou cem anos, ainda
valorizaremos a ética, a integridade e o respeito ao próximo. Posso
antever que os netos dos meus netos ainda cultuarão o amor e buscarão a
paz de espírito. Posso garantir, até onde pode um mortal oferecer
garantias, que serão as nossas escolhas do presente que determinarão o
futuro das próximas gerações.
Então, se por um
lado é certo que a tecnologia pode ser usada para o mal, também o é que
ela pode ser aplicada para o bem e que sempre haverá pessoas de boa
índole que talvez, em algum momento de nossa história futura, aprendam a
não ficar omissas, a não aceitar o mal de forma pacífica, a assumir a
responsabilidade de agir para defender aquilo em que acreditam. E quem
sabe, nesses tempos, a humanidade possa começar a se tornar mais justa,
distribuindo melhor a riqueza, eliminando as fronteiras que nunca
existiram de verdade e fazendo deste mundo, finalmente, um lugar onde
impere a paz, a justiça e a felicidade não só de alguns, mas de todos os
seus habitantes.
*Claudio
Nasajon é escritor, professor de empreendedorismo na PUC-Rio e diretor
da Nasajon Sistemas (www.nasajon.com.br)
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