As primeiras relações comportamentais na vida de uma criança se
estabelecem com sua família, principalmente com os pais. Por isso,
apenas à medida em que ela cresce e toma consciência de suas
atitudes é que será possível julgar o que é essencial manter ou não
em sua vida. Nessa etapa da vida, o determinismo da convivência
familiar passará a ter um caráter menos importante. Mas, como isso
demora alguns anos para acontecer, é importante ter em mente que
devemos nos preocupar com os comportamentos que a criança herdará de
seus pais, para não receberem um legado indesejado.
Uma recente pesquisa internacional, realizada pela Unicamp em
parceria com a Universidade de Madrid, comprovou que o comportamento
dos pais influenciam diretamente o de seus descendentes. Fumar e
beber na frente dos filhos, por exemplo, pode levá-los facilmente ao
vício, da mesma forma que ações positivas podem contagiar a criança.
Ela entenderá as atitudes que se mostrarem naturais aos seus
genitores como corretas. No decorrer do desenvolvimento, os mais
novos adotam ou repudiam esses exemplos herdados dos pais, ou seja,
assumem um perfil parecido ao deles, ou se rebelam e adquirem uma
representação totalmente contrária. Esse sentimento de negação nada
mais é do que uma forma de manifestar o desejo de mudança por algum
modelo de comportamento.
A repetição de determinados atos que identificam nosso
comportamento, desempenhados de forma inconsciente, é mais comum do
que imaginamos e pode se tornar prejudicial a ponto de interferir no
ambiente social, até mesmo na carreira do indivíduo, gerando sérias
conseqüências. A influência que exercemos em nossos filhos não se
restringe aos vícios, o modo como reagimos a determinadas situações,
mas também desempenha um importante estímulo para a definição de
seus próprios perfis quando chegarem à fase adulta. Como você
reagiria, por exemplo, se estivesse parado no trânsito, acompanhado
de seu filho, e outro motorista batesse em seu carro? Em casa, nas
conversas por telefone, você presta atenção se os pequenos estão por
perto e se o assunto é adequado para eles? Para eliminar esses
comportamentos instintivos, é necessário que haja primeiro uma
conscientização do problema, pois, o que geralmente acontece, é o
não entendimento dos problemas que os aspectos adotados por você
podem causar. Por isso, pense sempre em como tem resolvidos os
problemas em sua vida, tendo em vista que seus filhos podem escolher
os mesmos caminhos quando chegar a vez deles de decidir sobre o que
é melhor ou pior frente à determinada situação.
Há ainda outras probabilidades de comportamento que a criança pode
herdar como a atual preocupação excessiva dos pais com suas
carreiras. Para compensar a ausência gerada por essa alta
expectativa em serem bem sucedidos, os pais tentam suprir as
necessidades dos infantes com brinquedos ou presentes modernos, e
esquecem que o principal não se compra. As crianças, por sua vez,
ficam em creches e escolas, com parentes ou sozinhas dentro de casa
à mercê da programação televisa e da internet. Esse é um padrão cada
vez mais comum na vida das pessoas. Mas não podemos esquecer que,
como o sobrenome, algumas atitudes também são passadas de pai para
filho.
Por isso, é importante refletir sobre o legado que pretendemos
deixar para nossos filhos e, mais do que isso, sobre o que temos
comunicado a eles sem nem mesmo perceber. Quais serão os valores e
princípios transmitidos para as crianças que serão carregados até
sua vida adulta? A herança que deixaremos para nossos descendentes
não é exatamente o que pretendemos passar para eles, e sim o que
absorverão dos nossos padrões comportamentais.
Eduardo Shinyashiki
é consultor, palestrante e diretor da Sociedade Cre Ser
Treinamentos. Autor do livro Viva Como Você quer Viver, da
Editora Gente. Para mais informações, acesse
www.edushin.com.br.