Que
desculpem os jornalistas que são contra a obrigatoriedade do diploma
profissional, mas vim para somar, com aqueles que entendem ser a
regulamentação da profissão de jornalista e a exigência de diploma
específico de curso superior de jornalismo instrumentos de
fortalecimento sindical. Lutar por uma categoria unida, coesa, mas
rica de opiniões diferentes profissionalmente dá credibilidade ao
profissional, alimenta e fortalece a liberdade de imprensa contra os
interesses de grupos econômicos.
Mas entendo que a
discussão vai além do simples embate, entre ser contra ou a favor do
diploma de jornalista, o que devemos clarificar é quais os
fundamentos teórico-filosóficos que sustenta a idéia irracionalista,
que pretende forçar no Brasil por meio da mão do Supremo Tribunal
Federal em adotar um processo de desregulamentação de todas as
categorias profissionais.
O pressuposto que permite
compreender o processo de regulamentação da profissão de jornalista
é histórico e produto de lutas pelas liberdades democráticas e de
expressão. Localiza-se no interior da luta de classes, espaço no
qual estão concentrados os interesses das elites preocupadas em
prevenir e até reprimir qualquer projeto político que contribua para
ampliação da estabilidade legal da força de trabalho, como é o caso
da não obrigatoriedade do diploma para jornalista.
O Estado neoliberal atua na defesa
inconteste do movimento de desregulamentação em todos os níveis das
atividades de trabalho, como também faz uso da ação privativista,
que contribui para o aparecimento de posições contrárias à
obrigatoriedade do diploma. O neoliberalismo busca incessantemente
destruir, limitar ou impor mudanças cada vez mais restritivas aos
princípios legais trabalhistas, exigindo a abertura da economia
nacional ao capital multinacional, privatizando as empresas de
serviços públicos, cortando gastos, terceirizando serviços,
demitindo a força de trabalho, eliminando subsídios e impondo a
desregulamentação das relações de trabalho, na qual a não exigência
do diploma de jornalista é uma delas.
Um
excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de
culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer
refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de
curso superior nessa área. O Poder Público não pode restringir,
dessa forma, a liberdade profissional no âmbito da culinária. Disso
ninguém tem dúvida, o que não afasta a possibilidade do exercício
abusivo e antiético dessa profissão, com riscos eventualmente até a
saúde e à vida dos consumidores.
Os neoliberais consideram
que os processos reguladores que juridicamente formam o corpo legal
do mundo do trabalho são constituídos de instrumentos
disciplinadores da força de trabalho e necessitam ser constantemente
mudados. Pois devem ser flexibilizados (em favor do Capital) no
campo da empregabilidade, pois alegam que as mesmas dificultam que o
Capital ganhe agilidade necessária para acelerar o processo de
mais-valia. Por isso, entende que toda e qualquer tentativa legal
existente devam ser consideradas desnecessárias e ultrapassada para
isso utiliza o discurso despolitizante, infantil e re-argumenta sua
fala com base na "qualidade total" como resposta imediata assume a
postura da ideologia do pragmatismo.
A defesa
intransigente pela desregulamentação refere-se à implementação de um
Estado que se planifique amparado por um conjunto mínimo e restrito
de leis que garantam os direitos de submissão entre Capital e
trabalho, o que ocasiona o fim dos direitos sociais garantidos no
chamado Estado de Bem-Estar. É o fim das garantias trabalhistas, da
estabilidade no emprego e dos ganhos de produtividade da
representação sindical no interior das fábricas, como bem argumenta
o pesquisador José Paulo Netto, ao se referir ao modelo econômico
capitalista neoliberal em que as características:
[...] que está
concentrada a essência do arsenal do neoliberalismo: uma
argumentação teórica que restaura o mercado como instância mediadora
societal elementar e insuperável e uma proposição política que repõe
o Estado mínimo como única alternativa e forma para a democracia
(PAULO NETTO, 1993: 77).
Os neoliberais
argumentam aos brados que outras profissões não são regulamentadas e
o profissional está inserido no mercado por sua competência,
portanto não há necessidade de nenhuma formatação jurídica (por isso
nega a necessidade do diploma), mas, sim, de pessoal qualificado
capaz de garantir seu mercado de trabalho.
Há ainda os mais
obedientes aos ensinamentos do neoliberalismo, aqueles que afirmam
que a regulamentação da profissão limitaria o nosso campo de
trabalho, deixando de lado atividades que poderão surgir e que
necessariamente fugirão a nossa amplitude regulamentada. Conclusão
sem nexo lógico e simplesmente força de uma construção gramatical de
base no senso comum.
Enquanto essas
questões vão ocorrendo, as lutas sindicais vão sendo retardadas; os
profissionais fortalecem a visão equivocada de que conteúdo
pedagógico e política são questões que devem ser tratadas
separadamente e fora do âmbito das salas de aula. Essa cultura de
separação entre o acadêmico e o político, foi sendo reforçada
durante os vinte e cinco anos de Ditadura Militar. Amigos morreram
por pensar diferente. Jornalistas foram caçados, exilados,
torturados e mortos, pois sempre lutaram pela liberdade de poder
aprofundar o senso crítico dos alunos, contra a Ditadura, a opressão
e pela eterna liberdade de pensamento.
Por isso,
jornalista, não se deixe levar pelas falas sedutoras daqueles que se
dizem nossos amigos, mas, na verdade, lutam para que o jornalismo
não amplie seu mercado de trabalho e não se reconheça como elemento
transformador da realidade. Lutam para que nossa categoria não
cresça e, sim, desapareça, pois na lógica dessas pessoas todos podem
vir a contribuir, não necessitando de nenhum estatuto corporativo.
Diploma não é sinônimo de
competência, mas sim de segurança para a sociedade que deve garantir
a liberdade de expressão dentro de um código de ética pensado pela
categoria diplomada e não pelas empresas jornalísticas. Portanto
lutar pelo respeito ao piso salarial, contra a terceirização de
nossa função e a pressão ideológica de grupos econômicos é declarar
luta ao neoliberalismo, que deseja fabricar o “novo” jornalista
informante e não formador de opinião.
BIBLIOGRAFIA
PAULO NETTO, José.
Crise do socialismo e ofensiva neoliberal. São Paulo: Cortez,
1993.