Criado para realizar pesquisas de
opinião pública e eleitorais com o
máximo rigor técnico e agilidade, o
Datafolha firmou sólida reputação a
partir de 1989, com a volta das eleições
diretas, para as quais a própria Folha
de São Paulo teve um papel crucial e
digno de constar como capítulo da
História do Brasil.
Desviando-se dessa trajetória memorável,
os belos limões do Datafolha ajudaram o
jornal a fazer uma laranjada no último
domingo (16/12/2007), para parafrasear
uma expressão em voga atualmente.
Como chamada na primeira página, saiu
uma relevante e oportuna pesquisa do
instituto com um ranking de avaliação de
governadores. O resultado mostrou a
seguinte classificação e suas
respectivas notas e porcentagem de
aprovação:
1º
- Aécio Neves (PSDB) – Minas Gerais –
7,7
2º
- Cid Gomes (PSB) – Ceará – 6,6
3º
- José Serra (PSDB) – São Paulo – 6,5
4º
- Eduardo Campos (PSB) – Pernambuco –
6,4
5º
- Roberto Requião (PMDB) – Paraná – 6,3
6º
- Luiz Henrique da Silveira (PMDB) –
Santa Catarina – 6,1
7º
- Jacques Wagner (PT) – Bahia – 6,0
8º
- Sérgio Cabral (PMDB) – Rio de Janeiro
– 5,9
9º
- José Roberto Arruda (DEM) – Distrito
Federal – 5,3
10º
- Yeda Crusius (PSDB) - Rio Grande do
Sul - 4,2
Nas
páginas internas, o assunto se desdobra
ao longo de seis merecidas páginas, com
matérias específicas dedicadas a vários
dos governadores ranqueados. Veja se um
leitor atento da edição de domingo
consegue descobrir o que está destoando
na série de títulos escolhidos pela
Folha para suas matérias internas:
-
Aécio sofre poucas resistências para
administrar Minas
-
Tucana (Yeda Crusius) se tornou alvo no
RS da classe média, do funcionalismo e
do Judiciário
-
Aprovação a Serra aumenta 10 pontos
percentuais em 7 meses
-
Avaliação positiva de Cabral cai 25%
-
Governo do DF é rejeitado por 30% do
eleitorado
-
Só 2 dos 45 deputados do Ceará fazem
oposição aberta a Cid Gomes
-
Wagner ainda tem problemas essenciais
Não
precisa ser catedrático em semiótica
para se constatar que todas as matérias
são críticas aos respectivos
governadores que lhes servem de tema,
exceto aquela dedicada a José Serra, o
governador de São Paulo. Senão, vejamos.
Aécio e Cid não têm oposição em seus
estados. Yeda Crusius enfrenta o ataque
da classe média e dos servidores. Cabral
cai, Arruda é rejeitado e Wagner "ainda
tem problemas essenciais". Mas José
Serra, qual foguete, "aumenta 10 pontos
percentuais em 7 meses"...
De
acordo com o Datafolha, as três maiores
notas foram as seguintes: Aécio (7,7),
Cid Gomes (6,6) e Serra (6,5). Nas
matérias específicas sobre os
governadores, o jornal Folha de São
Paulo procura mostrar que Aécio e Cid
Gomes só têm um elevado grau de
aceitação porque não são fustigados pela
oposição no plano regional. De 77
deputados estaduais em Minas, apenas dez
fazem oposição a Aécio. De 45 deputados
estaduais do Ceará, só dois enfrentam
Cid Gomes, mesmo assim para fazer
"críticas pontuais" na área de segurança
pública. Cid Gomes passeia "com um
governo quase sem oposição, formado por
um leque de aliados que vai do PT ao
PSDB"- e "até deputados de partidos
excluídos da base aliada, como o DEM, poupam
Cid de críticas mais incisivas".
Por
que a Folha não concedeu a Aécio e Cid
Gomes o direito de serem bem avaliados
pela população por méritos de suas
administrações públicas, como fez com
José Serra?
Além do festivo título, encontro na
matéria de Serra que ele enfrentou
crises com o meio acadêmico e com o
acidente nas obras do Metrô, ameaças de
greve e manifestações. A Folha me
informa que o governador concedeu
reajustes para os funcionários na área
de segurança, antecipou bônus na
Educação e adiantou o décimo terceiro.
Apesar dos escândalos de corrupção que
enfrentou, não houve ataques do PCC nem
rebeliões na Fundação Casa. Melhor:
conseguiu redução de 21,76% nos
homicídios, vendeu a folha de pagamento
para a Nossa Caixa, parcelou a dívida,
aumentou o limite de endividamento do
Estado, garantiu recursos para
investimentos como recuperação de
vicinais, faculdades de tecnologia e o
Rodoanel. Uau!
O
texto esmiuça o levantamento,
identificando os melhores desempenhos
alcançados de acordo com os extratos
sociais definidos pela pesquisa. E quem
desaprova o governo Serra, por que o
faz?
Neste quesito vale observar que no caso
dos governadores mais bem avaliados
que Serra, não se tem informação sobre
nenhum recorte da pesquisa (renda,
escolaridade, etc.)
Ao
interpretar os números do Datafolha, o
jornal destilou o preconceito segundo o
qual mineiros e cearenses - ao contrário
dos paulistas - não conhecem a realidade
e, por isso, apóiam Aécio e Cid Gomes.
Ou está dizendo que, se houvesse uma
oposição vigorosa na Assembléia, o povo
certamente deixaria de apoiá-los. Mas,
em que pilar da ciência política está
assentada a ligação de causa e efeito
entre baixa oposição parlamentar e
elevada popularidade de um governante?
Ou o seu contrário, de elevada oposição
e baixa popularidade do governante? Por
acaso José Serra também tem boa nota
(6,5) e pouco abaixo de Cid Gomes) pelo
fato de se beneficiar de uma oposição
complacente em São Paulo?
A
edição de seis páginas é um primor de
descumprimento do Manual de Redação no
célebre capítulo sobre "ouvir o outro
lado". No Ceará a Folha ouviu o
oposicionista Heitor Férrer (PDT) e usou
uma declaração do Secretário da Fazenda
apenas para confirmar a crítica da
oposição. Em Minas, todas as fontes
ouvidas são de oposição - foram
entrevistados a deputada do PT Elisa
Costa e um sindicalista. No Rio Grande
do Sul a mesma coisa: deu-se voz apenas
ao deputado Raul Pont ( PT) e ao
Presidente da Federação Sindical dos
Servidores Públicos. Já em São Paulo,
sabem quem foi entrevistado da oposição
para falar da avaliação positiva de
Serra? Ninguém... A matéria é olímpica e
não traz entrevistas, fazendo um oba-oba
para o governador paulista.
Um dos nomes mais
em evidência para disputar o cargo de
presidente da República, José Serra é um
político de grande capacidade e méritos
reconhecidos e respeitados até mesmo por
seus adversários. Se a Folha escolher o
nome dele como seu preferido para a
disputa de 2010, essa pode ser uma boa
opção eleitoral e um direito do jornal
em fazê-lo. A cada eleição, dois
expoentes das rotativas no planeta, o
The New York Times e o Le Monde,
comunicam a seus leitores quais os
candidatos da sua preferência, mas
procuram evitar que essa escolha
política contamine o noticiário. Caso a
Folha adote um caminho semelhante, seria
pelo menos de bom tom informar isso a
seu vasto público. Com transparência, de
um limão é possível sempre fazer uma boa
limonada.