RESUMO
É importante se considerar as
influências da família nos processos psíquicos de uma cliente, a
forma como atuam no comportamento e a necessidade de investigação de
observações feitas pela cliente durante sua infância, sem
preocupação com traumas, mas sim com a posterior repetição de
comportamentos e pensamentos efetivados pela mesma. O mecanismo
neurótico da Confluência é discutido como forma de explicar a
interação com o meio de uma mulher de 29 anos cujas características
apresentam similaridade com a sua avó.
Palavras-chave: Mecanismo
neurótico. Confluência. Padrão de repetição familiar.
1 INTRODUÇÃO
Gestalt-Terapia é uma abordagem
psicoterapêutica com caráter experiencial que visa o desenvolvimento
do contato e da awareness, dando especial atenção à relação
terapêutica e às formas de interrupção do fluxo de contato do
cliente. Segundo Casarin
(2007), awareness é uma função semelhante à função do
pensamento, que veicula informação à inteligência.
Stevens (1977) relatou que a ênfase da
Gestalt-terapia está na totalidade da experiência, no que ela é e no
que poderá ser. Visa explorar novas possibilidades de comportamento.
Embora o foco do processo terapêutico seja o presente, a experiência
passada tem sua importância a partir da forma como afeta o "agora",
surgindo como situações inacabadas, estrutura de caráter e formas de
ser no mundo.
No que diz respeito à atuação
profissional, Yontef (1998), expôs que o gestalt-terapeuta trabalha
com estes elementos no aqui-agora criando condições para o cliente
"dar-se conta" dos mesmos, experimentando novas possibilidades,
reconfigurando sua existência. Aprendendo a acompanhar o seu próprio
processo, o cliente poderá apropriar-se e apreciar a totalidade do
seu ser, permitindo-se assim escolher e desenvolver seus próprios
caminhos. Essa possibilidade de escolha é uma condição humana básica
defendida pelo existencialismo e pela fenomenologia
O autor supracitado definiu a
fenomenologia como “busca de entendimento, baseada no que é óbvio ou
revelado pela situação e não na interpretação do observador.” Ou
seja, não leva em conta o cabedal de percepções estereotipadas do
observador, mas, as maneiras como as coisas estão dispostas diante
dele e nas possibilidades que essa disposição lhe oferece.
O princípio da fenomenologia
influencia a Gestalt-terapia, pois esta tem como principal foco
aquilo que aparece (o fenômeno), ou seja, o aqui-agora e as
possibilidades de intervenção que esse momento permite. Com destaque
àqueles terapeutas que possuam o maior número de técnicas e métodos
conhecidos, além de boa criatividade para aproveitar de forma mais
otimizada as próprias coisas que se mostram diante dele.
Juliano (1999) definiu a
Gestalt-terapia como uma metodologia que valoriza principalmente as
posturas tomadas diante da vida, os contatos com o mundo e com a
pessoa do outro, na sua singularidade, sem pré-concepções de
qualquer ordem.
O homem necessita de contato com
outras pessoas, a probabilidade de um ser humano sobreviver por
conta própria sem interação com outras pessoas é praticamente nula.
A escola Gestáltica considera o comportamento como um reflexo da
ligação campo/meio onde se encontra inserido o indivíduo. Nesse
senti, a neurose surge quando o indivíduo torna-se incapaz de
alterar suas técnicas de manipulação e interação com o meio. A saúde
está na fluidez, na homeostase em ação, assim, no contato com o
mundo (objetos do mundo), o ser pode se fazer crescer.
Segundo Perls (1988), quando o
indivíduo não sente nenhuma barreira entre ele e seu meio, quando
sente que ele e o meio são um, então ele está em confluência com
esse meio, não há como distinguir as partes do todo nesses casos.
“O confluente não consegue diferenciar
aquilo que ele próprio é daquilo que os outros são, não consegue se
relacionar bem e ao mesmo tempo não suporta se ver sozinho em
contato social. O indivíduo amarra suas necessidades e emoções num
amontoado de completa confusão até que não mais se dá conta do que
quer fazer e de como está se impedindo de fazê-lo, exigindo que os
outros sejam como ele, não tolerando diferenças.” (PERLS, 1988).
Koffka (1975) exemplificou a
confluência como aquela situação em que uma determinada pessoa
sentir-se-á deslocada quando está em traje de gala, enquanto outros
estão vestindo roupas de passeio. Ainda que o contraste social
permita, a pessoa se sente deslocada.
A hipótese deste artigo é a de que
existe confluência neurótica entre o indivíduo e sua família. A
confluência neurótica poderá ser entre irmãos-irmãos, pais-filhos, e
avós-netos, entre outros. Diante deste mecanismo a repetição de
padrões familiares se torna possível, mesmo entre gerações
distantes.
Na abordagem sistêmica o processo de
lealdade parental ajuda a explicar a repetição intergeracional, (BOSZORMENYI-NAG
& SPARK,1983). Se isto fosse transposto para a abordagem gestáltica
a manifestação do padrão de repetição se daria pelo mecanismo da
confluência. Por ser este um raciocínio de comparação ousado, não se
pretende com um simples relato de caso formar uma base para
confirmar ou desconfirmar essa hipótese ou essa comparação. A
intenção é mais no sentido de fomentar um debate, uma discussão por
meio de exemplos de trechos retirados de um caso clínico atendido
por um psicoterapeuta gestáltico em início de treinamento.
A intenção primordial é contribuir da
melhor forma possível para que o estudo do caso sirva como exemplo
para análises posteriores a respeito da veracidade da comparação.
Bert Hellinger & Hovël (2007), ao
proporem um modelo chamado “constelações familiares” citam que de
forma inconsciente um membro da família pode repetir o destino de
outro, seja por lealdade ou para evitar que outro membro tenha que
passar por isso. Em suas palavras,
“Nas famílias existe a possibilidade
de que a criança queira repetir o destino de um irmão ou irmã
falecida, ou da mãe falecida ou do pai falecido. A criança diz em
seu íntimo: “Eu irei com você”." (HELLINGER & HÖVEL, 2007 p.22).
O mecanismo de confluência é debatido
neste artigo por meio do exemplo da confluência parental entre neta
e avó paterna. É apontada a dificuldade da neta em discriminar suas
ações e emoções das de sua avó. Também são consideradas as vivências
da infância da cliente, trazidas ao aqui-agora por meio de técnicas
e experimentos da Gestalt-terapia.
1.1 Objetivo
Esse trabalho teve como objetivo
apresentar um relato de caso atendido na abordagem gestáltica que
analisou a dificuldade de uma cliente em se desvencilhar dos padrões
emocionais e comportamentais de sua avó paterna, tendo como
explicação o mecanismo neurótico da confluência.
2 MÉTODO
2.1 Descrição sócio-demográfica do
caso
Trata-se do caso de uma cliente (J.M.)
do sexo feminino, com 29 anos de idade, solteira, com o segundo grau
completo, que reside com a mãe e tem como vizinhos o irmão e a
cunhada, em uma cidade de médio porte do interior do Estado de São
Paulo. Trabalha em um restaurante universitário. Os pais se
separaram há 18 anos e a mãe tem um namorado.
2.2 Descrição da queixa
Procurou espontaneamente o atendimento
psicológico na clínica-escola. Referiu sofrer de depressão devido ao
rompimento do último namoro. Não tem bom relacionamento com seus
familiares. Foram realizadas 14 sessões individuais.
2.3 Técnicas e estratégias
aplicadas
- Curtigrama; (MAHL, SOARES &
OLIVEIRA NETO, 2005): Consiste me pedir ao cliente que responda a
quatro tópicos com cinco respostas para cada um. Os tópicos são:
Curto e faço; Curto e não faço; Não curto e faço e Não curto e não
faço. O objetivo é analisar o nível de satisfação do cliente com sua
vida. Fazê-lo pensar sobre suas atitudes e por si próprio iniciar um
processo de autoconhecimento.
- Viagem ao bosque; (YOZO,
1996): Relaxamento indutivo que visa fazer o cliente imaginar ou
tentar visualizar o que o terapeuta vai comandando.
- Relaxamento; (LIPP, 2005):
exercício para acalmar e tranqüilizar em momentos de tensão como o
processo terapêutico. Consiste em fazer com que o individuo aprenda
a respirar profundamente com o diafragma, não mais pelos pulmões
somente, movimentando o abdômen não o tórax. Expirar e inspirar o ar
com tempos de 5 a 7 segundos
- Feedback; (MOSCOVICI apud
ARAÚJO, 2002): O feedback ajuda na mudança de comportamento,
fornecendo a uma pessoa ou grupo, informando sobre suas ações que
estão interferindo nas ações de outras pessoas. Sendo eficaz, o
feedback ajuda a quem o recebe a melhorar o seu desempenho a fim de
alcançar seus objetivos.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
1ª Sessão
A cliente alegou estar sofrendo de
depressão há cerca de quatro anos e apontou como causa as
eventualidades ocorridas em seu último namoro que durou três anos.
Nesse período (2002 a 2005) ocorreram várias separações e
reconciliações sendo que no momento da primeira sessão ela estava
separada dele há dois anos, sendo que há um ano e meio excluiu todo
o tipo de contato com o ex-namorado.
J.M. contou que ele a reprimia muito,
não permitia que ela externalizasse seus pensamentos e emoções e
sempre a criticava, “ele me chamava de fofoqueira”. Além de
possivelmente tê-la traído, fato que ela não chegou a presenciar,
mas que foi contado por amigos após o fim da relação.
A cliente disse que não se expressa
por medo do que vai ouvir e por esse motivo prefere se expressar de
forma não-verbal através de gestos, sons e caretas.
J.M. disse que seu humor varia de
quinze em quinze dias, em média. Nunca pensou em suicídio, mas já
teve uma crise existencial: “eu queria saber quem eu era, porque
estava aqui”.
Atualmente, J.M. vive com a mãe e seu
irmão mora com a esposa nos fundos da casa. Ela não se dá bem com
ambos, e não conversa com a cunhada há um ano devido
desentendimentos.
J.M. disse que anda irritada com o
namorado da mãe, pois o mesmo liga para ela “umas dez vezes por dia”
e a leva para sair. Questionada pelo terapeuta sobre isso J.M.
acabou por refazer sua fala dizendo que não era raiva e nem ciúme da
mãe, mas que poderia ser inveja dela, pois ela não está namorando,
está solteira.
Os pais de J.M. se separaram quando
ela tinha onze anos e ela disse que o pai não era bom, “ele era
bruto e chegou a dizer que se pudesse me matava e me jogava no rio”.
Atualmente ela não vê o pai há cinco anos, e não aceitou bem a
separação dos pais na época em que ocorreu.
Segundo Piaget (1976), o
desenvolvimento de mecanismos mentais na criança é o que melhor
explica o funcionamento desses mecanismos presentes na vida adulta.
Baseando-se nesse fundamento, durante o processo terapêutico, foram
elaboradas diversas perguntas que pudessem trazer dados vividos pela
cliente para o momento da sessão.
J.M. disse ainda que repete alguns
comportamentos do pai e que não tem paciência de explicar duas vezes
a mesma coisa, se irrita quando não conseguem realizar tarefas que
ela já sabe e acaba sendo grosseira.
Durante a primeira sessão as
tendências a repetir alguns comportamentos do pai apareceram na fala
da cliente. O desejo de viver um relacionamento como o da mãe também
enaltece o tema da repetição. Pode-se notar que inicialmente a
cliente culpou o ex-namorado pela impossibilidade em expressar suas
emoções, mas posteriormente, ao dizer que não se expressa por medo
do que vai ouvir evidenciou uma dificuldade sua em estabelecer os
limites de fronteira entre e diferenciar-se do meio.
Mira y López (1974), referiu que a
fronteira entre a percepção e a afeição, a sensação e o sentimento,
o saber e o sentir, é a mesma que aparece entre o eu e o não-eu.
Esses dados sustentam que desde o início deste processo terapêutico
houve necessidade de se realizar um trabalho focado sobre o limite
de contato desta cliente.
Perls (1988) escreveu que todo
indivíduo só pode existir num campo circundante. Nem todo contato é
saudável e nem toda fuga doentia. O neurótico não consegue fazer um
contato saudável com o campo, tendo dificuldades também em organizar
fugas. A mente do neurótico está distante do contato com seu meio
impedindo com isso a concentração dele nas questões de maior
relevância no aspecto emocional. Esse indivíduo perdeu a liberdade
de escolha, pois não tem a capacidade de ver as opções que se abrem
diante dele.
Outro dado importante refere-se à fala
da cliente no que diz respeito à não tolerar pessoas que não
conseguem realizar tarefas facilmente realizáveis por ela. Essa fala
passará a ter relevância muito importante nas sessões que virão a
seguir, pois indica o frágil limite que a separa do meio, ou seja, o
funcionamento do mecanismo neurótico da confluência.
2ª Sessão A sessão teve início com a
cliente reclamando dos conflitos interpessoais em seu emprego, pois
acredita que tem trabalhado mais que os outros funcionários, “eu
trabalho por três, porque sempre tem aqueles lerdos”.
J.M. relatou que seu pai nunca teve
paciência com ela. Quando criança era tratada por ele como adulta.
Ele dava ordens sem explicar as razões e cobrava muito dela. Relatou
que os pais eram infiéis, “eu ouvia gemidos quando meu pai viajava”
e, relatou também, já ter presenciado seu pai agredindo sua mãe
fisicamente quando criança.
A cliente demonstrou necessidade em
manter-se no controle das situações, tem dificuldade em lidar com o
silêncio em situações sociais e sempre toma a iniciativa em tais
momentos. Novamente, isso merece atenção especial, pois é um dado
que será de extrema importância no entendimento das sessões futuras.
Nota-se a inclinação da cliente em
repetir os comportamentos do pai, deixando claro uma maior tendência
à vinculação com lado paterno da família no que diz respeito a ser
impaciente com alguém que não possui as mesmas condições psíquicas
ou intelectuais que ela, aparentes nas relações com as pessoas que
convivem com ela em seu ambiente de trabalho.
J.M. acaba por manter uma postura de
isolamento com relação às outras pessoas, acreditando que a presença
do outro não é essencial, pois para suportá-la ela teria que aceitar
as dificuldades do outro na realização de algumas tarefas. Esse
isolamento causa desequilíbrio e conflitos emocionais na cliente,
que ao mesmo tempo sente solidão e irritação com as pessoas próximas
a ela. Wertheimer (2002) referiu argumentos que podem dar respaldo a
essa hipótese,
“Apenas em circunstâncias muito
particulares um “Eu” se destaca sozinho. Então, o equilíbrio obtido
no decorrer de uma harmoniosa e sistemática ocupação pode ser
perturbado e dar lugar a um novo equilíbrio substituto, (em certas
condições, patológico)” (WERTHEIMER, 2002 p. 308).
3ª Sessão
J.M. contou que suas colegas de
trabalho começaram “por brincadeira”, a lhe chamar de “gerente” e,
após algumas falas, a própria cliente aceitou a idéia de que talvez
não seja brincadeira e que sua imagem é forte dentro o restaurante.
Tal fato incomodou J.M. que se percebeu como uma gerente, mas que
recebe como funcionária comum.
Mediante esse relato, o terapeuta
forneceu um feedback à cliente, mostrando a ela a
irrelevância de se preocupar com problemas de ordem administrativa,
já que essa não era função dela, pois, agindo dessa forma, ela
acabava sendo sobrecarregada de funções pelos patrões e discriminada
pelos outros funcionários sem receber nenhum benefício a mais por
isso.
A cliente relatou que tentaria não
cuidar das funções dos outros, por mais que fosse difícil ver algo
não realizado ela faria o possível para não mudar a situação,
deixando para cada um a responsabilidade por elogios ou reclamações.
Novamente é necessário prestar a
atenção na necessidade de controlar a situação por parte da cliente,
uma característica que começou a ficar muito forte em sua
verbalização e passou a tornar-se figura do processo terapêutico. O
fato de realizar tarefas que não eram suas a deixava sempre
preocupada em vigiar e tomar conta das atitudes dos outros
funcionários, desgastando com isso sua mente e seu corpo.
Dispensar energia em coisas que não
era de sua alçada estava sendo prejudicial para J.M. uma vez que
todo o esforço em manter o ambiente de trabalho organizado não era
compartilhado pelos outros funcionários e nem reconhecido pelos
patrões. A necessidade em estar no controle da situação tirava as
energias de L.M. impedindo que ela conseguisse realizar projetos
pessoais, e diante dessa postura o terapeuta propôs a ela que
tentasse manter uma atitude voltada para as suas necessidades
pessoais, realizando em sua profissão apenas as tarefas referentes à
sua função,
“Mas, depois de ter jogado com todas
as possibilidades, quanta energia me resta para poder agir? Se, pelo
contrário, procedo fenomenologicamente e, de repente, vejo e
identifico o essencial, tenho força e espaço para agir. Dentro desse
espaço eu me sinto livre.” (HELLINGER & HÖVEL, 2007 p. 35).
4ª Sessão
Sobre seu trabalho, J.M. disse que “a
carga de trabalho diminuiu, não tenho mais realizado o trabalho dos
outros”, e isso “tirou um peso das minhas costas”.
Perguntada pelo terapeuta sobre os
motivos de sua separação no último namoro, J.M. contou que seu
namorado a chamava de “mandona” e, que o namorado anterior a ele a
chamava de “grossa e sem educação”. Esses dados foram aproveitados
por ela própria em sua percepção de intolerância com as outras
pessoas. Ou seja, um experimento de ampliação da consciência.
J.M. relatou que havia muito conflito
em seus relacionamentos, e que dificilmente ela agia de forma
sincera, pois sempre pensava qual seria a melhor forma de agir em
cada situação, abrindo mão de sua espontaneidade em função do medo
de ser rejeitada. Perls (1997) mostrou como um passado conflitivo
contribui para uma atuação livre de espontaneidade,
[...] "Já perdemos de maneira
importante e fomos humilhados, e não assimilamos a derrota, [...]
assim, toda relação interpessoal, e na verdade, toda experiência, é
transformada numa pequena batalha, com a possibilidade de vencer e
mostrar bravura." (PERLS, 1997 p. 160).
L. citou a separação dos pais como
fato marcante em seu “fechamento para o mundo” (sic), pois tem medo
de ser traída, de ser deixada, enfim, de seguir o mesmo caminho que
seus pais seguiram, “tenho medo de repetir a história da minha mãe”
(sic).
Novamente o medo e a tendência em
vincular a sua história com a dos pais fica evidente, dessa vez
tendo sido citada a mãe, mas sem muita relevância uma vez que
segundo a própria cliente em relato anterior a mãe também traía o
pai quando esse viajava. Sendo assim, o que se deve ressaltar é o
medo da traição no casamento, fato marcante na relação dos pais.
6ª Sessão
L.M. reclamou de seu atual emprego,
salientando vários aspectos como: carga horária, remuneração,
relacionamento com outros funcionários e descaso dos patrões. Diante
dessa insatisfação demonstrada, foi perguntado a J.M. se sua vida
estava como ela gostaria, como ela planejou no passado e, após
refutar e ficar com os olhos marejados ela disse que não. Disse que
deveria ter estudado mais quando era mais nova e que não fez isso
por ser muito preguiçosa.
Pimentel (2003) ressaltou que a pessoa
que não estabelece escolhas pessoais, não influencia o próprio meio,
e acaba por permitir que o medo do novo e do diferente reduza o
limite entre o "eu" e o outro criando com isso um modo defensivo
confluente. Sendo assim, J.M. mostrava dificuldades em definir o seu
limite de contato já que a fala dela demonstrava impossibilidade de
mudanças como se ela não tivesse mais chances de refazer sua vida,
fato que não se confirmava, pois a cliente possuía todas as
ferramentas viáveis para voltar a planejar seus caminhos.
Foi proposto a J.M. que ela se
imaginasse com 40 anos e que a partir disso pudesse fazer novos
planos e dessa vez levá-los a cabo uma vez que começar uma nova
atividade exige treino e dedicação.
J.M. se animou, disse que “nunca tinha
pensado assim antes”, e que tentaria voltar aos estudos, aos poucos
com pequenas leituras, de maneira que pudesse se acostumar novamente
e com isso dar a si mesma uma nova chance, a chance de se enxergar
em um espaço novo em sua vida, um espaço onde ela realmente gostaria
de estar.
O dado importante trazido por J.M.
nessa sessão foi a sua insatisfação pessoal, sua dúvida a respeito
do caminho que está seguindo, a sensação de não estar no lugar que
gostaria, de não estar cumprindo a sua história e sim uma outra
estranha a ela.
Ao se imaginar com 40 anos, J.M.
entrou em contato com sua insatisfação, percebendo seu “comodismo”,
sua zona de conforto. Lewin (1992) postulou um estado de equilíbrio
entre a pessoa e o ambiente, denotando que, quando esse equilíbrio é
perturbado, há o surgimento de uma tensão que leva a um movimento
numa tentativa de restaurar o equilíbrio perdido. Esse dado foi
observado na verbalização da cliente ao dizer que gostaria de mudar
sua vida de alguma forma.
7ª Sessão
Com respeito ao seu trabalho, J.M.
disse que foi grosseira com uma colega porque estava nervosa e após
perceber que estava errada foi pedir desculpas para ela: “não sou de
pedir desculpas, o orgulho não deixa”. Ficou dez minutos se sentindo
mal após ter feito esse pedido devido ao arrependimento por ter
agido com grosseria.
Contou que no sábado sentiu angústia e
vontade de chorar por cinco minutos devido a uma “crise existencial”
que não pode ser mais bem explicada: “tá muito cedo ainda pra eu te
falar”.
Relatou que depois que começou a
terapia tem se sentido mais feliz e tem conseguido administrar
melhor os seus conflitos e suas dores, além de conseguir em algumas
situações controlar sua agressividade.
Fica evidente novamente a dificuldade
da cliente em relatar processos internos seus, no entanto há grande
facilidade em conversar sobre os pais e os outros, quanto a si
mesma, mostrou incapacidade em manifestar de forma verbal e
compreensível suas emoções. Uma indicação de mecanismo neurótico
confluente em processo.
9ª Sessão
Baseado nas dificuldades de
relacionamento e no fato de que J.M. aos 29 anos já teria condições
econômicas de morar sozinha e sair da casa da mãe, foi realizada a
aplicação da técnica “viagem ao bosque” (YOZO, 1996) com algumas
modificações. Foi escolhida com o intuito de visualizar as razões
pelas quais J.M. ainda não consegue sair de casa.
Foi proposto que J.M. deitasse na
poltrona de relaxamento e foi realizado um relaxamento inicial de
cinco minutos. Foi proposto que ela se imaginasse em uma floresta,
observasse a flora e a fauna. Foi pedido que ela adicionasse um rio
às margens dessa floresta e que caminhasse até ele, e que ao chegar
à margem observasse como era essa rio, a cor e transparência da
água, o clima do local, a luz, sons, todos os detalhes que pudesse
captar. Em seguida, foi requisitado que ela visualizasse uma
cachoeira e posteriormente transpassasse essa queda D’água,
adentrando assim em uma gruta que até então estava escondida. Dentro
da gruta ela deveria procurar uma pessoa que provavelmente estaria
ali, e em seguida perceber que sentimentos surgiriam e como estava o
ambiente. Após o contato com essa pessoa, foi proposto que ela
voltasse à margem do rio e que em seguida voltasse lentamente a
prestar atenção ao seu corpo e voltasse sua consciência para a sala
de atendimento.
A técnica evidenciou o medo de J.M.
com relação ao desconhecido, além de carência afetiva no que diz
respeito a um relacionamento homem-mulher. Perls (1977) referiu que
quando uma pessoa não quer assumir a responsabilidade pela pessoa
adulta, ela racionaliza e se apega às memórias da infância porque
crescer significa estar só, e isso é pré-requisito para maturidade e
contato.
J.M. se conscientizou que antes
acreditava não sair de casa por medo de deixar a mãe sozinha, mas,
sua mãe não vê problemas nisso segundo ela. Supõe-se então que quem
realmente sente incômodo em ficar sozinha é J.M. que por esse motivo
não sente que tem vida própria, não encontra seu lugar na vida, e
tal vazio faz com que, às vezes, ela sinta “vontade de pegar um
ônibus e sair sem rumo, sem lugar para descer”.
J.M. considerou que se tivesse um
emprego fixo sairia de casa. Quando questionada sobre como foi sua
situação nos últimos cinco anos, respondeu que ficou apenas três
meses desempregada, percebendo por si mesma que esse tal emprego
fixo já existe e que a insegurança em sair não é financeira e sim de
suas fantasias.
Perls (1977) relatou que o indivíduo
tortura a si mesmo e a seu ambiente ficando parado e que, essa
tortura torna-se uma experiência positiva quando aceita pelo
indivíduo. J.M. percebeu que aceitava sua condição e não procurava
mudar. Conscientizou-se do quanto estava sofrendo com essa postura,
pois de alguma forma, estava esperando que as mudanças na sua vida
viessem naturalmente, criando uma esperança fantasiosa que embasava
seu “comodismo”.
12ª Sessão
Neste encontro J.M. começou a falar de
sua angústia que aparecia sempre próximo às 18h, ou mais
especificamente durante o crepúsculo.
Reclamou a respeito de sua mãe ainda
tratá-la como adolescente dizendo que ela sempre “pegou no seu pé”,
desde criança.
Foi iniciada a técnica "Curtograma" (MAHL,
SOARES e NETO, 2005) com a cliente e durante a aplicação ficou
evidente a dificuldade da mesma em relatar coisas que não gosta e
não faz, ou seja, mostrou dificuldade em perceber as fronteiras e um
baixo autoconhecimento.
O terapeuta lhe deu um feedback
relativo às suas respostas e ao final disso a cliente pode perceber
que tem grande dificuldade em olhar para suas vontades, pensar sobre
coisas que realmente gosta e realizar aquilo que colocou como
desejável, mas não era praticado, fosse por preguiça ou por falta de
condições financeiras.
J.M. foi solicitada a pensar sobre uma
possível mudança em sua vida profissional, buscar informações a
respeito de cursos que possam lhe abrir novas possibilidades de
trabalhar em algo que realmente a deixe satisfeita.
Essa sessão teve caráter marcante,
pois a partir desse encontro a cliente passou a direcionar seus
pensamentos e intuições para sua condição atual, deixando mais a
fundo as razões do passado, as atuações dos pais e fazendo de figura
o seu futuro. No que diz respeito às expressões físicas, ficou
evidente um “acordar” por parte da cliente, que saiu da sala com o
queixo erguido e um sorriso que até então não havia aparecido no
processo terapêutico.
13ª Sessão
J.M. entrou para a sessão manifestando
insatisfação com seu emprego e com sua vida de forma geral dizendo
que a angústia que antes se resumia ao crepúsculo agora está
presente quando falta menos de duas horas para ela ir trabalhar e só
termina quando vai dormir.
Foi realizada pelo terapeuta uma
técnica de relaxamento com visualizações dirigidas (LEONE, 2007),
visando entender a sua relação com seus antepassados.
Inicialmente foi pedido que J.M. se
imaginasse à frente de um auditório. Foi requisitado que ela
imaginasse seus pais sentados na primeira fileira, atrás deles seus
avôs e assim sucessivamente com todos os antepassados que surgissem
na hora. Foi proposto que ela desfizesse a imagem dos parentes e em
seguida sentasse na cadeira que mais lhe chamasse a atenção. Depois,
foi requisitado que ela olhasse a frente do auditório e observasse a
si própria pela visão da pessoa que ocupara anteriormente aquele
assento. Foi pedido então que ela fundisse as duas pessoas e
percebesse as sensações.
J.M. relatou ter sentado no lugar de
sua avó paterna. Disse também que não conseguiu enxergar a si
própria, pois, “estava tudo escuro e não dava pra ver nada”. Contou
ter sentido muita relação com os sentimentos da avó. L.M. disse
também que percebeu a presença de uma “pomba branca e de um leão”
durante a fusão das duas pessoas.
Ao final da vivência, a cliente
relatou que as relações que se mostraram mais fortes foram as com
sua mãe e sua avó paterna, uma vez que segundo ela, seu avô paterno
era um homem sem atitudes, “ele não tinha boca pra nada, minha avó
brigava com ele e ele ficava quieto”.
Após se aprofundar no assunto, J.M.
começou a ter percepções relativas à similaridade de suas atitudes
com as de sua avó, notando que assim como ela, J.M. sente
necessidade em mandar nos outros, controlar os ambientes em que está
e sempre maltrata seus namorados mesmo quando não tem razão: “já me
peguei pensando em arrumar um homem que não tenha boca pra nada”.
A cliente foi solicitada a pensar a
respeito disso durante a semana, sempre imaginando se está agindo
como gostaria ou como agiria a sua avó. Expressou então que, “às
vezes quero rir de coisas com os outros, mas tem algo que não deixa
e então eu fico de cara fechada rindo por dentro”.
Após essa sessão a figura do processo
terapêutico tornou-se a avó paterna, esclarecendo que a maior
vinculação da cliente é com ela. Padrões de repetição como
comportamentos de controle, intolerância, rigidez e desvalorização
da figura masculina ficaram evidentes.
A confluência que antes se mostrava
dispersa em vários membros da família direcionou-se para a avó, e
até mesmo os comportamentos que ela dizia repetir do pai, na verdade
eram da mãe dele. “Eu amava minha avó, mas não conseguir ficar muito
perto dela, sempre dava um jeitinho de sair da casa dela e ir
passear”, esse relato foi seguido de outro confirmativo: “meus
namorados não conseguiam ficar muito tempo comigo, diziam me amar,
mas sempre tinham algo para fazer com os amigos ou para o trabalho”.
A sessão mexeu de forma significativa
com a cliente. Pela primeira vez disse sentir-se compreendida:
“agora começo a entender o meu lugar aqui, tenho feito coisas que
minha avó gosta e não as minhas”. Tobin (1997) ressalta a forma
significativa como os sentimentos não-expressos podem causar
dificuldades quando uma das pessoas não está mais presente. Segundo
ele, os indivíduos ainda carregam muitas emoções não-expressas
acumuladas, antigos ressentimentos, dores, culpas e até amores
não-expressos que impedem o fim de um relacionamento quando uma das
pessoas não está mais presente para ouvir tais sentimentos. A morte
da avó impediu que J.M. pudesse expressar suas emoções por ela, seu
carinho, sua admiração e até mesmo a dificuldade em compartilhar o
mesmo ambiente. Essas emoções não-expressas certamente colaboraram
para a instalação da confluência neurótica na cliente. Reviver a
história da avó e seguir seus passos era a maneira que J.M.
encontrou para manifestar tais conteúdos.
Diante do aparecimento de dados tão
relevantes, o processo terapêutico será mantido. O material deste
artigo reflete as circunstâncias pontuais de um longo processo, mas
que ainda assim pode ter algum valor no sentido de instigar
pesquisas sobre mecanismos neuróticos e padrões de repetição
familiar.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A queixa inicial da cliente foi uma
depressão iniciada durante um relacionamento amoroso e, ao longo do
processo terapêutico, tal “diagnóstico” foi descartado. O que ficou
mais evidente foi uma dificuldade da cliente com relação ao
autoconhecimento, com o limite de contato percebido.
A depressão citada, provavelmente
tinha um caráter de crise existencial, dificuldade em encontrar o
seu lugar na sociedade, no âmbito familiar e com isso incapacidade
em estimular o ser que havia se perdido em meio a essa confusão de
sentimentos, à confluência.
A tendência à confluência com membros
familiares se tornou figura no processo, mas inicialmente tinha um
caráter muito generalizado, uma vez que a cliente focava muito sua
relação nos pais e não citava em momento algum a história de seus
avós ou até mesmo parentes mais distantes.
A ausência ou apatia dos personagens
masculinos observados durante a infância da cliente parece ter
deslocado sua atenção para as mulheres e na maneira como as mesmas
reagiam diante das dificuldades cotidianas, o que teria trazido a
atual dificuldade da mesma em se relacionar, uma vez que não
consegue respeitar e compreender as manifestações individuais do
parceiro.
Após uma técnica de visualização
dirigida, a cliente trouxe pela primeira vez a figura da avó paterna
que se revelou variável notável na maneira de agir da cliente. Essa
técnica permitiu delimitar uma interação terapeuta-cliente nos
motivos essenciais e nas ações oriundas da avó que possam ter
eliciado essa confluência por parte da cliente.
A partir daí a cliente mostrou
iniciativa em tentar diferenciar quais seriam os seus desejos e
quais eram os desejos da avó que ela vinha repetindo, trazendo para
si a sensação de deslocamento em sua vida.
Esse estudo ilustra a importância de
se considerar os eventos que ocorrem na infância de um indivíduo, os
modelos recebidos nos quais sobrepõe uma confluência.
A contribuição principal desse estudo
é a de alertar os psicoterapeutas acerca da importância de se
respeitar à história de vida e a individualidade de cada cliente. Ao
psicoterapeuta cabe se despir de seus julgamentos e expectativas a
cada vez que se deparar com um novo cliente. Permitindo que o
próprio cliente feche suas gestalten da maneira que for
possível para ele no momento.
REFERÊNCIAS
CASARIN, D. Awareness. In:
Revista IGT Na Rede vol. 2 nº 2, 2005.
BOSZORMENYI-NAGY,
I. & SPARK, G. M., Lealtades Invisibles. Buenos Aires:
Amrrortu Editores, 1983.
HELLINGER, B., HÖVEL, G. Constelações
familiares - O reconhecimento das ordens do amor - conversas sobre
emaranhamentos e soluções. 6ª ed. São Paulo: Cultrix, 2007.
JULIANO, J.C. A Arte de Restaurar
Histórias. São Paulo: Summus, 1999.
KOFFKA, K. Princípios da psicologia da
Gestalt. São Paulo: Cultrix, 1975.
LEONE, G. (No prelo); Instituto
Gestalt de São Paulo, em processo de edição.
LIPP, M. E. N. Relaxamento para todos
(exercícios Ilustrados). In: ______________. Relaxamento para todos.
6. ed., Campinas: Editora papirus, 2005 p. 17-18.
MAHL, A.C., SOARES, D.H.P., & OLIVEIRA
NETO, E. (orgs.) POPI: programa de orientação profissional
intensivo: outra forma de fazer orientação profissional. 1ª ed. São
Paulo: Vetor, 2005. Cap. 5 Gosto e faço ou Curtigrama. p. 100-102.
MIRA Y LÓPEZ, E. Psicologia Geral. São
Paulo: Melhoramentos, 1974.
MOSCOVICI, F., apud ARAÚJO, E.L.P.
Feedback na Qualidade de Vida no Trabalho em Organizações de Saúde
In: ENCONTRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS, 2., 2002, Recife. Anais...
Recife: Observatório da Realidade Organizacional: PROPAD/UFPE: ANPAD,
2002. 1 CD.
PERLS, F. S.,
HEFFERLINE, R., GOODMAN, P. Gestalt-terapia. Trad. Fernando
Rosa Ribeiro, São Paulo, Summus, 1997.
PERLS, F.S. Gestalt-terapia explicada.
2ª ed. São Paulo: Summus, 1977.
PERLS, F.S.; A abordagem gestáltica e
testemunha ocular da terapia. Rio de janeiro: LTC, 1988.
PIAGET, J. Seis estudos de Psicologia.
8ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1976.
PIMENTEL, A. Psicodiagnóstico em
Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2003.
STEVENS, J. (1977). Isto é Gestalt. 6
ed. São Paulo: Summus.
TOBIN, S.A. Totalidade e
auto-sustentação. In: PERLS, F.S. Isto é Gestalt. São Paulo: Summus,
1977.
WHERTHEIMER, M. Gestalt Theory. In:
Shultz, D.P., Schultz S.E. História da Psicologia Moderna 16ª ed.
São Paulo: Cultrix, 2002.
YONTEF, G. (1998). Processo, diálogo e
awareness: Ensaios em Gestalt-Terapia. (E. Stern, Trad.) São Paulo:
Summus. (Trabalho original publicado em 1993).
YOZO, R. Y. K. 100 jogos dramáticos
In: _____________. 100 Jogos para grupos: uma abordagem
psicodramática para empresas, escolas e clinicas. 16 Ed. São Paulo:
Editora Agora, 1996. Cap. 4 p. 69
ABSTRACT
It is important to
consider the influences of the family in the psychic processes of a
client, the form as the behavior and the necessity of inquiry of
comments made for the client act in its infancy, without concern
with traumas, but, with the posterior repetition of behaviors and
thoughts accomplished for the same one. The mechanism neurotic of
the Confluence is argued as form to explain the interaction with the
field of a woman of 29 years old whose characteristics present
similarity with its grandmother.
Key-words:
Neurotic mechanism. Confluence. Standard of familiar
repetition.