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Os símbolos falam mais que muitas palavras. Carregada de peso simbólico,
a cruz é
utilizada por diferentes religiões desde os tempos mais antigos. Aos
cristãos, lembra sofrimento e morte. Por outro lado, aponta para a
ressurreição. A espada é uma arma de guerra que também se
transformou
em
símbolo. Os judeus costumavam usar a cruz como recurso de pena máxima.
Jesus sofreu essa condenação. Os romanos, por sua vez, privilegiavam a
espada. Paulo, o discípulo do crucificado, foi assim decapitado.
Na
história do cristianismo, cruz e espada estiveram juntas em diversas
ocasiões, produzindo resultados trágicos. As Cruzadas Medievais, por
exemplo, ocorridas entre 1096 e 1271, foram expedições militarizadas
organizadas pelo papado com o objetivo de combater os inimigos do
cristianismo e libertar a Terra Santa do domínio muçulmano. Os adeptos
das Cruzadas eram identificados com uma cruz vermelha estampada em suas
vestes. Na Guerra Santa, muito
sangue foi derramado.
No
período da colonização do Brasil, o Império trouxe os jesuítas, que se
encarregaram de apresentar a cruz cristã aos povos indígenas. Os
colonizadores subjugaram os nativos, utilizando o poder político
(coroa), o poder religioso (cruz) e o poder militar
(espada). O extermínio de indígenas, a exploração e a expropriação
de recursos naturais foram incontáveis. Nesse contexto de conquista
nasceu a cidade de São Paulo em 1554, juntamente com a implantação da
Igreja católica. Em junho de 1908 foi instaurada a Arquidiocese.
Para registrar um
século de história, a Arquidiocese realizou diversas atividades. O
encerramento das comemorações deu-se com uma celebração solene dia 08 de
junho no estádio do Pacaembu. Cerca de 30 mil pessoas compareceram ao
evento. A Igreja na metrópole é constituída por múltiplas comunidades,
pastorais, organismos, movimentos, grupos, etc. Contudo, isso
praticamente não foi considerado.
O grande destaque da
celebração ficou por conta dos Arautos do Evangelho, numa
clássica demonstração das tendências conservadoras que emergem cada vez
mais fortes. Cerca de 8 mil Arautos (homens e mulheres de todas as
idades) armaram trincheira em volta do campo, no altar e nas
arquibancadas. Posicionaram-se estrategicamente em todo o estádio, de
modo que não era possível fotografar o povo durante toda a cerimônia sem
que aparecessem.
Os
Arautos do Evangelho são uma associação religiosa privada,
dissidente da TFP (Tradição, Família e Propriedade), autorizada pelo
papa João Paulo II em 2002. Estão espalhados em mais de 60 países. Tendo
na cintura uma corrente de ferro, identificam-se como "escravos de Jesus
através de Maria". Pendente desta corrente está o rosário. Seu hábito é
uma túnica branca guarnecida de um escapulário marrom que ostenta uma
cruz em forma de espada.
Não por
acaso, com esta marca emblemática foram convidados a carregar de forma
olímpica a imagem de São Paulo. Com pompa e incenso, o santo – tendo a
espada do seu martírio na mão – foi entronizado como patrono da
Arquidiocese. Ao mesmo tempo, Santa Ana, mulher quase invisível do
Antigo Testamento, até agora patrona da Arquidiocese foi,
automaticamente “destronada”. Nem lhe foi concedido ficar ao lado do
homem São Paulo para a honra dos altares.
Aquilo que era para
ser uma celebração da vida da Igreja – que sempre evangelizou entre
luzes e sombras – tornou-se um evento de holofote único, típico da
sociedade do espetáculo. A ordem, a disciplina e o formalismo foram
ressaltados sob a força do poder simbólico. É lamentável que um ato
religioso com o objetivo de fazer memória do centenário tenha acabado
por dar tanta visibilidade a um único grupo surgido há apenas 6 anos.
A forte carga
triunfalista e ritualista praticamente ignorou todo o trabalho pastoral
realizado nas comunidades e paróquias da cidade. As Comunidades
Eclesiais de Base, os mártires da caminhada, os grupos de Direitos
Humanos, os povos indígenas e afro-descendentes sequer foram
mencionados. Muito se exaltou a hierarquia e as autoridades civis e
militares. Associando o triunfalismo eclesial com o “militarismo da fé”,
reforçou-se um modelo de Igreja piramidal, distante do conceito de
Igreja Povo de Deus tão caro ao Concílio Vaticano II. A menção aos
pobres, tratados como “pobrezinhos” ficou restrita à coleta para a
construção de um templo religioso na Favela de Heliópolis.
Esperávamos uma
celebração que contemplasse todas as forças vivas da Igreja; que
comemorasse de maneira ampla a histórica caminhada do povo católico; que
retratasse as contraditórias realidades desta cidade, onde, mesmo assim,
Deus habita. Que revelasse a Igreja inserida na sociedade plural, com
vocação e missão profética. Uma Igreja com opção preferencial pelos
pobres. Uma Igreja discípula missionária comprometida com a construção
de um mundo justo e solidário, sinal do Reino de Deus.
Em última
análise, o ato dá sustentação à lógica neoliberal.
Como
afirmava Marx, hoje vivemos uma "guerra de todos contra todos",
caracterizada pelo modo capitalista de produção e pelo individualismo
crescente. Do mesmo modo que o sistema assume novas formas e adota novas
estratégias, a espada se moderniza e reconfigura. Porém, o saldo é
sempre danoso: dominação, exclusão, violência e morte. É preciso
reafirmar: nosso inimigo maior são os totalitarismos e fundamentalismos.
Esse pensamento único atinge as estruturas sociais, econômicas,
culturais, religiosas etc. É perverso, muitas vezes fazendo questão de
se legitimar pela via do sagrado.
E os
fiéis presentes
no Pacaembu? Em geral, rezaram, festejaram, ouviram tudo e comungaram o
Corpo e Sangue de Cristo. Foram motivados a vivenciar com renovada
esperança o início do segundo centenário. Muitos também saíram
frustrados com o modelo eclesial apresentado, uma vez que nem mesmo
esteve sintonizado com a mensagem enviada pelo
Papa: “Possa
esta significativa celebração animar todas as forças vivas desta Igreja
local para um marcante protagonismo evangelizador”. Ocorre que a
militarização da fé e a privatização religiosa não condizem com o
verdadeiro sentido do cristianismo, nem com uma Igreja que deseja viver
a comunhão e participação.
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