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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 11 de abril de 2008 22:57:23                                               

 
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As mulheres Africanas também fizeram Ciência

   

Roberto G. Barbosa[*]

publicado em 22/03/2008

 

 

Historicamente poucos são os relatos da participação de mulheres na ciência. Madame Curie[†] (1867 - 1934) é um dos poucos exemplos de pesquisadoras que encontramos facilmente na literatura. Tanto é verdade que se perguntarmos às pessoas sobre ícones da ciência, logo surgirão nomes como de Einstein, Newton, Darwin, Lavoisier, Freud, isto é, notaremos uma presença predominante do gênero masculino na área científica. Chassott em seu livro “A ciência é masculina?” afirma que grande parte desse desprezo se deve a três razões centrais, a primeira trata dos mitos e narrações religiosas herdadas dos antigos gregos, onde as mulheres são tratadas como objeto e têm seus desejos negados – As explicações aristotélicas a respeito da participação da mulher no processo da geração de uma nova vida, em que esta apenas teria o ventre fecundo para receber o esperma do homem, talvez pudessem ser apontadas como um dos pontos de partida para muitas discriminações em nossas heranças culturais gregas. A segunda herança é a judaica. A idéia de um Deus criador masculino e da mulher produzida a partir de uma costela do homem, ainda que presente em outras culturas foi amplamente difundida pelo judaísmo. E por último aponta a ancestralidade cristã como a última influência na exclusão da mulher na ciência. O corpo, o sexo e a natureza da mulher são objeto de uma redução, principalmente pelo apóstolo Paulo: "que as mulheres fiquem caladas nas assembléias, como se faz em todas as igrejas dos cristãos, pois não lhes é permitido tomar a palavra (BARCELLOS). Em resumo, na ciência ocidental particularmente, há uma hegemonia masculina que é sexista, racista e patriarcal. Somente o homem branco de origem greco-romana é que detém o modelo ou o padrão de homem inteligente e altivo.

Com o objetivo de trazer um novo olhar sobre a ciência e seus personagens, damos destaque no presente artigo a pensadoras africanas, que duplamente foram esmagadas pela história européia. Primeiro, por pertencer a um continente considerado selvagem e, segundo por ser do gênero feminino. Nesta direção se faz mister trazer à tona as personagens que contribuíram decisivamente na elaboração de saberes científicos, que, no entanto foram eclipsadas pela história da ciência ocidental. Damos particular atenção ao continente africano, por ser marcado historicamente por inúmeras injustiças e pré-conceitos, até mesmo por pessoas renomadas como o filósofo alemão Friderich Hegel que afirmou que “por mais que retrocedamos na história, acharemos que a África está sempre fechada no contato com o resto do mundo, é um eldorado recolhido em si mesmo, é o país-criança, envolvido na escuridão da noite, aquém da luz da história consciente. (HERNANDEZ, p.8). Essa visão ingênua e ao mesmo tempo perniciosa revela as bases sobre qual a ciência ocidental foi construída.

Cunha (2007) rebate este sectarismo assinalando que;

Se considerarmos que a ciência e a tecnologia são campos do conhecimento utilizados, em essência, na compreensão e manejo do ambiente que nos cerca, podemos depreender que todos os povos, em seus mais remotos momentos históricos, foram dotados de conhecimento científico e tecnológico (apresentando entre si peculiaridades quanto a conceitos, objetivos e métodos empregados) para atender aos níveis de complexidade de suas sociedades. O desenvolvimento das nações nessas áreas do conhecimento deve-se, principalmente, às particularidades dos seus processos históricos e culturais. Isso não está relacionado com maior ou menor grau de inteligência ou aptidão de certos agrupamentos humanos. É interessante enfatizar essa questão para dissiparmos teorias racistas a respeito da suposta inferioridade de determinados grupos humanos em relação a outros no que se refere à capacidade cognitiva para empreender o desenvolvimento em suas sociedades (CUNHA, 2007, p.3).

 

Logo a negação do passado científico e tecnológico dos povos africanos e a exacerbação do seu “caráter lúdico” foi uma das principais façanhas do eurocentrismo[‡] e que ainda hoje abala fortemente a auto-estima da população africana e da diáspora, pois os “métodos”, “conceitos” de muitos cientistas europeus deram a impressão ao restante do mundo, de que as populações africanas não tiveram uma contribuição relevante para a construção do conhecimento universal (Cunha, 2007) Portanto é urgente trazer à luz ao que antes estava oculto para que os Africanos e afro-descendentes resgatem a confiança em si mesmos para reconquistar sua efetiva libertação.   

 

A Ciência por mulheres africanas

Murfin aponta que no livro de Margaret Alic (1986) “Hypatia’a Heritage” (Herança de Hipácia) discute-se as mulheres na ciência. Alic afirma que as mulheres foram às primeiras botânicas. A elas geralmente são creditadas a invenção da máquina de fiar (fiação) e da tecelagem. Alic funda suas afirmações na suposição de que há "... evidências do trabalho científico prematuro de mulheres e que podem ser localizadas...” nas "tradições orais." Ela também salienta que no período neolítico as mulheres eram vistas com poderes mágicos, não só por causa da habilidade delas para dar à luz, mas também por causa das habilidades nas ciências domésticas – no fabrico de cerâmica, na domesticação de animais e curando.

 

De acordo com textos antigos a mulher era capaz de “... diagnosticar gravidez, adivinhar o sexo da criança por nascer, verificar a esterilidade e tratar da menstruação irregular. As mulheres cirurgiãs executaram seções cesáreas, remoção de peitos cancerosos e uso de talas."

 

È atribuída às mulheres da pré-história, muitas de quem eram indubitavelmente africanas, a: 

 

 “construção de dispositivos para transportar comida e crianças;  

“fabrico de varas, alavancas, machados de mão por cavar e processar plantas,  

“inventou o almofariz.

 

Alic declara que "As ferramentas desenvolvidas por mulheres da pré-história ainda está em evidência em laboratórios de química dos dias atuais”:

  

 “produção de agulhas e uso de tinturas;  

“secar e armazenar ervas para uso medicinal;

“descoberta dos usos de plantas por tentativa e erro e experimentação  

“produção de cerâmica de barro e uso de fornos a altas temperaturas;  

“domesticação de aves;  

“procriação seletiva de plantas;

 

 

 

 

Três mulheres africanas que se destacaram na ciência

 

Neste momento faremos referencia a três mulheres do continente africano que se destacaram nas ciências. Por ordem cronológica iniciamos pela filósofa Aganike, depois pela astrônoma Hipácia e finalmente falaremos de Cleópatra, talvez a mais “conhecida” popularmente, mas não como sinônimo de sábia.

 

Aganike

 

Segundo o astrônomo Ronaldo Mourão (2007), a primeira mulher africana de que se tem noticia na ciência é uma egípcia chamada Aganike (cerca de 1878 a.C.), reconhecida pelo seus talentos como filósofa  e astrônoma durante o reinado de seu pai Sésostris (século XIX a.C.).

 

Hipácia

Considerada a última grande cabeça a freqüentar a biblioteca de Alexandria. Hipácia que nasceu no Egito por volta de 470 a.C., no continente Africano. Estudou astronomia, matemática e filosofia; provavelmente influenciada por seu pai o astrônomo egípcio Theon.

“Beatrice Lumpkin (1988) e Margaret Alic (1986) ambas descreveram a vida de Hipácia, e afirmam que por quinze séculos Hipácia foi considerada freqüentemente como a única cientista do sexo feminino na história. Hipácia escreveu comentários no Arithmetica de Diophantus, no Conics de Apollonius e nos trabalhos astronômicos de Ptolomeu. (Lumpkin 1988 e Alic apud Murfin, 1992).

Hipácia é considerada a primeira cientista a ter sua vida documentada. Ela escreveu tratados importantes em Álgebra e seções Cônicas. A ela é creditado às idéias de como construir o astrolábio, um medidor do nível de água e um hidrômetro

A última grande cabeça científica a trabalhar na biblioteca não foi um homem, e sim uma mulher, Hipácia, que era astrônoma, como seu pai Theon, e também física, matemática e filósofa. Nasceu em alexandria em 370, era bela e nunca se casou. O cristianismo estava em plena expansão e todo saber que não coincidisse com seus dogmas era considerado suspeito de paganismo. Como Plotino, Hipácia era discípula da escola neoplatônica fundada em Alexandria por Amônios Sacas, no século III. Ela não escapou das suspeitas de Cirilo, patriarca de Alexandria. Apesar da oposição do bispo, continuou a escrever e a ensinar. Em 415 foi atacada por cristãos fanáticos, seguidores de Cirilo, que arrancaram de sua charrete, rasgaram suas vestes e, armados de conchas, esfolaram-na. Depois, queimaram toda a sua obra e seu nome foi esquecido (BETO, p.51, 1995).

 

Cleopatra

Cleópatra VII nasceu em 69 a.C. na cidade de Alexandria. Pertencente a dinastia dos Ptolomeus, Cleópatra se destacou em ginecologia, obstetrícia, cosmética e doenças de pele (ALIC,p.33, 1986 apud MURFIN, 1992).

Algumas Considerações

Trazer à tona informações “verdadeiras” sobre a áfrica e seus autores, é fundamental para que os africanos e os povos descentes possam se reafirmar como cidadãos capazes de construir conhecimento, isto é, calar o branco para então o negro contar a sua própria história. “[...] De entre todos os povos da Terra, os negros da África são os únicos que podem demonstrar de maneira exaustiva a identidade de sua cultura com a cultura do Egito [...], portanto os únicos que legitimamente podem sentir-se em casa. (DIOP apud FRACCALVIERI, p. 57, 2007).  

Referencias

BETO, Frei. A OBRA DO ARTISTA: Uma visão holística do Universo. Ed. Ática, 2ª ed. São Paulo – 1995.

Barcellos, Jorge. Mulheres Cientistas. Disponível em: http://oencosto.rv.cnt.br/mucien.html. Acesso: 20 de janeiro de 2008.

CUNHA, Lázaro. Contribuição dos Povos Africanos para o conhecimento cientifico e tecnológico universal. Disponível em: w.w.w.smec.salvador.ba.gov.br/documentos/contribuicao-povos-africanos.pdfAcesso em: 10 de fevereiro de 2008.

FERNANDEZ, Leila Leite. A Invenção da África. Revs. História Viva: Temas Brasileiros, Duetto editorial.

FRACCALVIERI, Bianca. Libertar-se é preciso. Revs. Filosofia Ciência e Vida. Nº 14, Ed. Escala – 2007.

MOURÃO, Ronaldo. R. de Freitas. As mulheres na Astronomia. Site: Jornal  O Povo.com.br. Disponível em: http://www.opovo.com.br/opovo/cienciaesaude/732984.html. Acesso em: 16 de fevereiro de 2008.  

Murfin, Brian. African Science in School Curriculum, Paper Presented at the NSTA National Convention, Boston, Massachusetts, March 26-29, 1992. Disponível em: http://www.africa.upenn.edu/K-12/African_Science.html


 

[*] Professor licenciado em Física, Mestre em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Estadual de Maringá-PR. betofisica@yahoo.com.br.

[†] Física polonesa nascida em Varsóvia e naturalizada francesa, famosa pesquisadora e criadora do termo radiatividade.

[‡] Refere-se a um centro ideológico europeu específico, das civilizações grega e romana, que generalizaram a ótica universal sob seu ponto de vista.

 

 

 

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