Hélio Gaspari,
em seu artigo “Lula é o mesmo mas o cenário é outro” (a seguir), no
Jornal Folha de SP, de 19 de março de 2008, discorre sobre um
discurso de Lula (Araraquara, 14/03/08), no qual o Presidente
expressa o que considera avanços para o país, propiciados pelas suas
gestões naquele cargo. Com certo grau de ironia, o jornalista o
chama, no texto de “Nosso Guia”. Com ironia ou sem ela, já que os
partidários da atual gestão presidencial, participando ou não do
governo, sustentam esse tipo de discurso no dia a dia, o que é dito
não pode ficar sem contestação, pois envolve as condições de vida de
milhões de pessoas. Por isso, respondi (abaixo) ao velho amigo, que
me repassou as mencionadas matérias (artigo e discurso).
Somos velhos
amigos. Imagino que sejamos desses amigos “pau para toda obra”: é só
um precisar que o outro se dispõe a ajudar. Mas, na maior parte do
tempo, em que pudemos conversar, conversamos sobre política. Como,
pelo menos durante a nossa adolescência e início da fase adulta,
tínhamos, nós e as pessoas com quem nos identificávamos, uma visão
classista da sociedade brasileira. Compartilhávamos a compreensão de
que a maioria das pessoas só viveria bem quando os bens de produção
fossem socializados (fim da propriedade privada dos bens, que
produzem bens), as elites econômicas não mais pudessem comprar
privilégios e a justiça, assim como a boa qualidade de vida, seriam
iguais para todos.
Agora, porém,
frente às grandes dificuldades vivenciadas pela maioria da população
(que é pobre), em todo o país, há dentre nós quem se deixe encantar
pelo “pagamento das dívidas”, enquanto falta saúde adequada para
essa população (Dengue no Rio de Janeiro e falta de atendimento em
todo lugar), à qual falta, também, escola (se houve melhora no
acesso, o grau de aproveitamento é péssimo), está longe de ter o
saneamento básico necessário, as estradas –principalmente as
federais – estão no completo abandono, o nível de desemprego
continua elevado e a qualidade dos empregos existentes está em
declínio (desregulamentações, terceirizações), os serviços públicos
estão cada vez mais deteriorados, com equipamentos em franca
deterioração e o funcionalismo super desvalorizado (impulsionando as
terceirizações e privatizações). Poderíamos ir listando as diversas
áreas da administração pública e apontando graves problemas, em
dinâmica de degradação crescente.
É, realmente,
impressionante que gente pensante, de quem se espera que preserve
pelo menos os valores humanistas, aprecie o aumento do crédito aos
pobres, aposentados em particular (o que já está preocupando o
próprio Ministro da Fazenda do Governo Lula, por outras razões, é
claro), que terão que deixar de comer e comprar os remédios, porque
a dívida que têm com os banqueiros é prioritária (já é descontada
nas suas folhas de pagamento). Não seria o certo buscar os caminhos
para que os pobres fossem cada vez menos pobres?
O mais grave é
que se toma como indicador da melhoria de vida dos pobres o aumento
da produção das fábricas de automóveis. Isso é dito, ironicamente,
quando fica evidente que os recursos naturais (como o ar, que
respiramos, a água, que bebemos e nos fornece energia, a degradação
e impermeabilização do solo) são frágeis e finitos e, portanto,
temos que tomar muito cuidado com eles e não degradá-los
enormemente, como faz a cultura do automóvel, que, comprovadamente,
já não pode garantir sequer o espaço físico para a presença do seu
“objeto do desejo” nas ruas e estradas.
É possível se
ver como uma maravilha algo que, além de degradar o meio ambiente, é
uma das razões maiores de uma das epidemias que mais atinge a
população, principalmente a juventude, com mutilações e mortes,
trazendo tristeza e terror a todos e agravando, terrivelmente, as
despesas com saúde da sociedade?
Mas, a
economia vai bem, os ventos têm soprado a favor da política
econômica iniciada por FHC. Os grandes capitais Internacionais e,
até os nacionais, que ainda restam, particularmente os dos
banqueiros, prometem aumentar os investimentos e aumentar, ainda
mais, o seu domínio sobre toda a sociedade. Infelizmente, o que nos
espera é muito mais do mesmo, que sempre espoliou e oprimiu a
maioria das pessoas em nosso país. Mas isso, também, pode ser
chamado de “impressionante” e o Presidente Lula, também, pode ser
chamado de “Nosso Guia”, basta que quem pense assim tenha escolhido
o rumo do apocalipse.
O fato de
alguns terem abandonado a idéia de melhores condições de vida e de
justiça social para todos é o que mais influenciou para que suas
avaliações passassem a ser favoráveis a governos, que conservam e
aprofundam as desigualdades econômicas, políticas e sociais.
Um abraço,
William.
25/03/2008.
Folha de S. Paulo - São Paulo,
quarta-feira, 19 de março de 2008
Lula é o mesmo, mas
o cenário é outro*
ELIO GASPARI
Araraquara teve a conferência de Jean-Paul Sartre em 1960 e o
discurso de Nosso Guia em 2008
BENDITA A CIDADE que ganha fama com uma palestra. Foi isso que
aconteceu com Araraquara depois que o filósofo francês Jean-Paul
Sartre terminou sua conferência no auditório da Faculdade de
Filosofia, Ciência e Letras, em setembro de 1960. Daí em diante ela
se tornou conhecida como 'a Conferência de Araraquara'. Era uma
época em que as pessoas iam a esses eventos de terno e gravata.
Sartre tratou de arcanas questões filosóficas e teve Jorge Amado na
mesa, Fernando e Ruth Cardoso, mais Antonio Candido e Gilda de Mello
e Souza na primeira fila.
Há uma semana, discursando em Araraquara, na inauguração da escola
que ganhou o nome da professora Gilda, morta em dezembro de 2005,
Nosso Guia fez um discurso que merece atenção. Foi um improviso,
menor que a conferência de Sartre, mas ainda assim longo. Tem seis
vezes o tamanho deste artigo e, à primeira vista, pode ser
confundido com mais um Opus Lula.
Nosso Guia trocou de cenário. Ele cavalga o desempenho da economia e
os avanços sociais ocorridos durante seu reinado. Não formula idéias
novas, apenas arruma velhos esplendores. Lula faz isso de uma forma
que seus adversários devem pensar melhor antes de continuar com uma
oposição de frases feitas e CPIs para alimentar noticiário. Alguns
exemplos:
'Todo o sacrifício que nós fizemos permitiu que a gente pudesse
estar vivendo o momento que estamos vivendo hoje. (...) Hoje temos
quase 200 bilhões de dólares de reservas, não devemos nada ao FMI,
não devemos nada ao Clube de Paris e não devemos nada a ninguém.
'Aqui no Brasil pobre não tinha acesso a banco. Aliás, os bancos
tinham desaprendido a atender pobre. (...) O que nós fizemos? Nós
resolvemos fazer crédito para o povo pobre. (...) Criamos o crédito
consignado. (...) Eu acho que a gente colocar dinheiro na mão do
pobre é investimento neste país.'
'Quando eu tomei posse a indústria automobilística me procurou
dizendo: 'Nós estamos quebrados'. (...) E ontem eu recebi uma carta:
eles saíram de 2,2 milhões de carros e estão prometendo produzir 4
milhões de carros em 2009. Qual foi o milagre? O milagre foi uma
coisa que a gente vinha dizendo há 20 anos: com 24 meses de
prestação, só pode comprar carro o setor da classe média. Se vocês
quiserem que o pobre compre um carro, aumentem o número de
prestações.'
'Noventa e seis por cento dos acordos feitos pelos sindicatos são
acordos feitos acima da inflação, com aumento real de salário.'
'Neste ano, nós vamos ter a primeira turma formada pelo ProUni. São
60 mil jovens que tiraram o diploma pelo ProUni e 40% desses são
negros e negras.'
Nosso Guia teve até o seu 'momento Obama': 'O grande desafio (...) é
acreditar que a gente pode'.
Não há um novo Lula, o que há é uma nova conjuntura. Sua falação
pode ser repetitiva, mas tem duas características. Primeiro, ele não
está enrolando. Depois, leva à rua uma agenda de progresso e
otimismo, deixando à oposição o penoso exercício do mau humor. Se
uma mentira, repetida mil vezes, acaba virando verdade, o que dizer
de uma verdade repetida mil vezes?
O Brasil bem pensante, que até hoje procura entender a conferência
de Sartre, precisa ler o discurso de Araraquara. Está na internet,
basta passar no Google 'discurso lula araraquara gilda'. Em 1960,
aos 15 anos, Nosso Guia corria atrás de seu único diploma. O do
Senai.
*São
Paulo, 19 de março de 2008, no Jornal Folha de SP.