spacer

 

ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 12 de maio de 2008 19:42:56                                               

 
  Principal
 Agenda
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Humor
 Cultura
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Política e Cidadania
 Entrevistas
 Reportagens
 Mirim
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Crônicas
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Assédio Moral
.
Leia na Revista Partes
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em Questão

“Nosso Guia” para onde?

   

William Jorge Gerab

publicado em 25/03/2008

 

Hélio Gaspari, em seu artigo “Lula é o mesmo mas o cenário é outro” (a seguir), no Jornal Folha de SP, de 19 de março de 2008, discorre sobre um discurso de Lula (Araraquara, 14/03/08), no qual o Presidente expressa o que considera avanços para o país, propiciados pelas suas gestões naquele cargo. Com certo grau de ironia, o jornalista o chama, no texto de “Nosso Guia”. Com ironia ou sem ela, já que os partidários da atual gestão presidencial, participando ou não do governo, sustentam esse tipo de discurso no dia a dia, o que é dito não pode ficar sem contestação, pois envolve as condições de vida de milhões de pessoas. Por isso, respondi (abaixo) ao velho amigo, que me repassou as mencionadas matérias (artigo e discurso).

 

Somos velhos amigos. Imagino que sejamos desses amigos “pau para toda obra”: é só um precisar que o outro se dispõe a ajudar. Mas, na maior parte do tempo, em que pudemos conversar, conversamos sobre política. Como, pelo menos durante a nossa adolescência e início da fase adulta, tínhamos, nós e as pessoas com quem nos identificávamos, uma visão classista da sociedade brasileira. Compartilhávamos a compreensão de que a maioria das pessoas só viveria bem quando os bens de produção fossem socializados (fim da propriedade privada dos bens, que produzem bens), as elites econômicas não mais pudessem comprar privilégios e a justiça, assim como a boa qualidade de vida, seriam iguais para todos.

 

Agora, porém, frente às grandes dificuldades vivenciadas pela maioria da população (que é pobre), em todo o país, há dentre nós quem se deixe encantar pelo “pagamento das dívidas”, enquanto falta saúde adequada para essa população (Dengue no Rio de Janeiro e falta de atendimento em todo lugar), à qual falta, também, escola (se houve melhora no acesso, o grau de aproveitamento é péssimo), está longe de ter o saneamento básico necessário, as estradas –principalmente as federais – estão no completo abandono, o nível de desemprego continua elevado e a qualidade dos empregos existentes está em declínio (desregulamentações, terceirizações), os serviços públicos estão cada vez mais deteriorados, com equipamentos em franca deterioração e o funcionalismo super desvalorizado (impulsionando as terceirizações e privatizações). Poderíamos ir listando as diversas áreas da administração pública e apontando graves problemas, em dinâmica de degradação crescente.

 

É, realmente, impressionante que gente pensante, de quem se espera que preserve pelo menos os valores humanistas, aprecie o aumento do crédito aos pobres, aposentados em particular (o que já está preocupando o próprio Ministro da Fazenda do Governo Lula, por outras razões, é claro), que terão que deixar de comer e comprar os remédios, porque a dívida que têm com os banqueiros é prioritária (já é descontada nas suas folhas de pagamento). Não seria o certo buscar os caminhos para que os pobres fossem cada vez menos pobres?

 

O mais grave é que se toma como indicador da melhoria de vida dos pobres o aumento da produção das fábricas de automóveis. Isso é dito, ironicamente, quando fica evidente que os recursos naturais (como o ar, que respiramos, a água, que bebemos e nos fornece energia, a degradação e impermeabilização do solo) são frágeis e finitos e, portanto, temos que tomar muito cuidado com eles e não degradá-los enormemente, como faz a cultura do automóvel, que, comprovadamente, já não pode garantir sequer o espaço físico para a presença do seu “objeto do desejo” nas ruas e estradas.

 

É possível se ver como uma maravilha algo que, além de degradar o meio ambiente, é uma das razões maiores de uma das epidemias que mais atinge a população, principalmente a juventude, com mutilações e mortes, trazendo tristeza e terror a todos e agravando, terrivelmente, as despesas com saúde da sociedade?

 

Mas, a economia vai bem, os ventos têm soprado a favor da política econômica iniciada por FHC. Os grandes capitais Internacionais e, até os nacionais, que ainda restam, particularmente os dos banqueiros, prometem aumentar os investimentos e aumentar, ainda mais, o seu domínio sobre toda a sociedade. Infelizmente, o que nos espera é muito mais do mesmo, que sempre espoliou e oprimiu a maioria das pessoas em nosso país. Mas isso, também, pode ser chamado de “impressionante” e o Presidente Lula, também, pode ser chamado de “Nosso Guia”, basta que quem pense assim tenha escolhido o rumo do apocalipse.

 

O fato de alguns terem abandonado a idéia de melhores condições de vida e de justiça social para todos é o que mais influenciou para que suas avaliações passassem a ser favoráveis a governos, que conservam e aprofundam as desigualdades econômicas, políticas e sociais.

 

 

Um abraço,

William.

25/03/2008.

 

Folha de S. Paulo - São Paulo, quarta-feira, 19 de março de 2008

 

Lula é o mesmo, mas o cenário é outro*

ELIO GASPARI

 


Araraquara teve a conferência de Jean-Paul Sartre em 1960 e o discurso de Nosso Guia em 2008


 

BENDITA A CIDADE que ganha fama com uma palestra. Foi isso que aconteceu com Araraquara depois que o filósofo francês Jean-Paul Sartre terminou sua conferência no auditório da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras, em setembro de 1960. Daí em diante ela se tornou conhecida como 'a Conferência de Araraquara'. Era uma época em que as pessoas iam a esses eventos de terno e gravata.

 

Sartre tratou de arcanas questões filosóficas e teve Jorge Amado na mesa, Fernando e Ruth Cardoso, mais Antonio Candido e Gilda de Mello e Souza na primeira fila.

 

Há uma semana, discursando em Araraquara, na inauguração da escola que ganhou o nome da professora Gilda, morta em dezembro de 2005, Nosso Guia fez um discurso que merece atenção. Foi um improviso, menor que a conferência de Sartre, mas ainda assim longo. Tem seis vezes o tamanho deste artigo e, à primeira vista, pode ser confundido com mais um Opus Lula.

 

Nosso Guia trocou de cenário. Ele cavalga o desempenho da economia e os avanços sociais ocorridos durante seu reinado. Não formula idéias novas, apenas arruma velhos esplendores. Lula faz isso de uma forma que seus adversários devem pensar melhor antes de continuar com uma oposição de frases feitas e CPIs para alimentar noticiário. Alguns exemplos:

 

'Todo o sacrifício que nós fizemos permitiu que a gente pudesse estar vivendo o momento que estamos vivendo hoje. (...) Hoje temos quase 200 bilhões de dólares de reservas, não devemos nada ao FMI, não devemos nada ao Clube de Paris e não devemos nada a ninguém.

 

'Aqui no Brasil pobre não tinha acesso a banco. Aliás, os bancos tinham desaprendido a atender pobre. (...) O que nós fizemos? Nós resolvemos fazer crédito para o povo pobre. (...) Criamos o crédito consignado. (...) Eu acho que a gente colocar dinheiro na mão do pobre é investimento neste país.'

 

'Quando eu tomei posse a indústria automobilística me procurou dizendo: 'Nós estamos quebrados'. (...) E ontem eu recebi uma carta: eles saíram de 2,2 milhões de carros e estão prometendo produzir 4 milhões de carros em 2009. Qual foi o milagre? O milagre foi uma coisa que a gente vinha dizendo há 20 anos: com 24 meses de prestação, só pode comprar carro o setor da classe média. Se vocês quiserem que o pobre compre um carro, aumentem o número de prestações.'

 

'Noventa e seis por cento dos acordos feitos pelos sindicatos são acordos feitos acima da inflação, com aumento real de salário.'

 

'Neste ano, nós vamos ter a primeira turma formada pelo ProUni. São 60 mil jovens que tiraram o diploma pelo ProUni e 40% desses são negros e negras.'

 

Nosso Guia teve até o seu 'momento Obama': 'O grande desafio (...) é acreditar que a gente pode'.

 

Não há um novo Lula, o que há é uma nova conjuntura. Sua falação pode ser repetitiva, mas tem duas características. Primeiro, ele não está enrolando. Depois, leva à rua uma agenda de progresso e otimismo, deixando à oposição o penoso exercício do mau humor. Se uma mentira, repetida mil vezes, acaba virando verdade, o que dizer de uma verdade repetida mil vezes?

 

O Brasil bem pensante, que até hoje procura entender a conferência de Sartre, precisa ler o discurso de Araraquara. Está na internet, basta passar no Google 'discurso lula araraquara gilda'. Em 1960, aos 15 anos, Nosso Guia corria atrás de seu único diploma. O do Senai.

 

*São Paulo, 19 de março de 2008, no Jornal Folha de SP.

 

 

 
  

spacer
::sobre o autor::

 William Jorge Gerab é sociólogo
 

::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

 
::uma foto::


 
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 
 

::outras questões::

Bibliotecas, Lobos, Cordeiros e População Atenta
William Jorge Gerab

publicado em 06/03/2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Normas para publicar artigosRevista Virtual Partes

::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2008
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil
spacer