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Agradecimentos à
jornalista
Ana
Marina
Godoy.
A
comunidade
Orkut
Orkut Buyukkokten nasceu
em
06/02/1976, na Turquia.
Este
engenheiro
de
computação
trabalhava
para
a
empresa
Google (<www.google.com>),
que
permitia aos
seus
funcionários
livremente
dispender vinte
por
cento
do
tempo
em
projetos
pessoais,
sendo
isso
política
da
empresa
para
estimular
a
criatividade.
Foi
assim
que,
discreta
e
constantemente,
o
engenheiro
desenvolveu o
que
hoje
é considerado o
maior
banco
de
dados
do
mundo:
o “Orkut”.
No
início
de
tal
criação,
apenas
empregados
da Google – incluindo o
próprio
Orkut – participavam da
rede
que,
aos
poucos,
abriu-se ao
público.
Só
convidados
podem
participar,
porém
o website <www.orkut.com>
hoje
já
conta
com
mais
de
seis
milhões
membros.
Apesar
da
origem
norte-americana,
o
site
virou
mania
nacional
no
maior
país
da América do
Sul.
Orkut Buyukkokten
não
entende o
porquê
da
maioria
dos
membros
serem
brasileiros
(75%,
segundo
a
Revista
Exame):
“Talvez
seja cultural, tenha a
ver
com
a
personalidade
de
vocês,
que
são
conhecidos
como
um
povo
amigável.
Pode
ser
devido
à
própria
característica
do
mecanismo
de
entrada
no
site
(só
pode se
cadastrar
quem
receber
um
convite
de
um
dos cadastrados).
Eu
tenho
alguns
amigos
que
têm
alguns
amigos
brasileiros,
e
assim
foi se espalhando, o
que
era
mesmo
a
minha
idéia
desde
o
início.”
Afiliado ao Google, o
serviço
possibilita a
cada
usuário
ter
sua
própria
página
onde
estará descrito o
seu
perfil
contendo
dados
pessoais
como
nome
completo,
idade,
cidade
de
origem,
números
de
telefone,
endereço
eletrônico,
preferências
e
afins.
É
possível
adicionar
à
lista
de
amigos
todos
os
conhecidos
encontrados
através
de
amigos
de
amigos
ou
por
simples
sistema
de
busca.
Falar
em
privacidade
quando
se
trata
de Orkut é uma
aberração,
já
que
quem
aceita os
termos
de
inclusão
diz
estar
de
acordo
com
o
fato
de
que
a
empresa
passa
a
ser
proprietária
de
tudo
o
que
ali
for publicado. E os
membros,
em
geral,
não
querem
privacidade;
eles
querem
mesmo
é
aparecer,
ver
quem
tem
mais
amigos
na
lista,
quem
é
amigo
de
quem,
e
assim
por
diante.
O “barato”
é
navegar
nos
perfis de
outros.
O
site
ainda
oferece a
opção
de envio de
mensagens
de
texto
pessoais
chamadas
scraps,
além
dos testimonials
nos
quais
são
escritas
declarações
de
amizade,
ambos
“prato
cheio”
para
os
que
gostam de
bisbilhotar
a
vida
alheia.
Além
disso, existem as
comunidades,
nada
mais
que
grupos
formados
pelos
membros
do Orkut unidos
por
um
interesse
em
comum.
Com
tanta
informação
específica
sobre
cada
membro,
muitos
big brothers de
plantão
estão fazendo a
festa.
E haja
paciência
para
navegar!
Não
é à
toa
que
o
site
vive congestionado.
Não
precisamos
ir
muito
longe
para
racionalmente
chegarmos à
conclusão
de
que
a
facilidade
em
se
conseguir
informações
sobre
os
membros
é
tão
grande,
que
qualquer
seqüestrador
faria a
festa.
Saber
onde
mora
a
filha
de
um
empresário
rico,
telefone,
lugares
que
freqüenta e
escola
na
qual
estuda
é
questão
de
cinco
minutos
de
busca
e
leitura
no Orkut.
E
quando
menos
se
espera,
tudo
o
que
escreveu pode
ser
usado
contra
você.
Conforme
reportagem publicada na
Revista
Consultor
Jurídico,
o
perfil
de Felipe Siqueira
Cunha
de Souza, foi uma das
alegações
da
defesa
do
promotor
de
justiça
Thales Ferri Schoedl. O
promotor
foi acusado de
ferir
gravemente
a Felipe
depois
de uma
discussão
em
Bertioga,
litoral
de
São
Paulo. Os
advogados
alegaram
legítima
defesa
e
que,
no
perfil
do Orkut, havia más
referências
da
suposta
vítima,
mostrando
que
“ele
bebe
regularmente,
é participante de várias
comunidades
de
bebidas
alcoólicas e
proprietário
da
comunidade
‘Barca
do
Alemão’,
na
qual
se pode
ler
que
seus
integrantes,
além
do apologismo à ingestão
excessiva
de
bebidas
alcoólicas, trocam,
entre
si,
mensagens
sobre
aventuras
concretas envolvendo
excessos
com
bebidas
alcoólicas e
direção
de
automóveis.”
Sabe-se que examinadores de concursos públicos no
Brasil já utilizam o sistema para pesquisar a vida de
candidatos; namorados e namoradas ciumentos vivem em incessante
guerra com seus companheiros porque “fulano” ou “fulana” está na
lista de amigos, recebeu “mensagem suspeita” ou seu marital
status está como “solteiro”; celebridades são vítimas de
falsos perfis que levam seus nomes e denigrem a imagem; e por aí
vai o estrago na vida das pessoas.
Alguns consideram a nova moda “coisa de
adolescente”, afirmação absolutamente ingênua feita por pessoas
muito mal-informadas. A realidade é que não há limites de idade
para a “brincadeira” virtual. Os membros são adolescentes,
adultos, idosos e até crianças de pouquíssima idade. Pais
cadastram seus filhos de quatro ou cinco anos para exibir fotos
e distribuir informações na tentativa de não deixá-los fora
desse círculo da moda. O importante para os membros é ter amigos
na lista. Quanto mais amigos, mais famosa e sociável a pessoa é
considerada na comunidade.
Conspiração?
É extremamente comum o internauta adentrar o
site sem ao menos ler os “termos de serviço”, o qual dispõe
que todo o conteúdo, incluindo fotos, informações pessoais e
mensagens, são de propriedade do Orkut.
Neste sentido:
“Há uma cláusula nos termos
de adesão do Orkut que garante aos seus proprietários direitos a
tudo o que ele fizer no sistema. Alguns usuários já reclamaram
desta cláusula, indignados com a invasão de privacidade, tendo
que se policiarem com tudo o que dizem ou fazem no Orkut.
(…)
“O trecho mais preocupante, que está na seção
‘orkut.com's proprietary rights’, seria esse: ‘Ao submeter,
postar ou mostrar quaisquer materiais no ou através do serviço
orkut.com, você automaticamente nos dá direitos mundiais,
não-exclusivos, sublicenciáveis, transferíveis, sem royalties,
perpétuos e irrevogáveis, para copiar, distribuir, criar
trabalhos derivativos ou executar e exibir publicamente tais
materiais’.”
"Perco o
sono
só
de
pensar
na
mina
de
ouro
que
o Orkut pode
representar",
diz Alexandre Hohagen, diretor-geral do Google no Brasil.
E Alexandre Hohagen
não
sorri à
toa.
Além
do Orkut, a
empresa
ainda
oferece os
mais
variados
serviços,
corroborando
para
a
crença
de
que
o Google
quer
dominar
o
mundo.
Primeiramente,
há o
site
que
leva
o
próprio
nome
da
empresa
(<www.google.com>),
hoje
em
dia
o
mecanismo
de
busca
mais
usado na
Internet;
o
e-mail
gratuito
chama-se Gmail (<www.gmail.com>);
para
criação
de blogs oferecem o Blogger (<www.blogger.com>);
a Google News (<http://news.google.com>)
é
um
jornal
eletrônico,
inclusive
com
sua
novíssima
versão
brasileira;
o Froogle compara os
preços
dos
sites
de
comércio
eletrônico
(<www.froogle.com>);
Google Print é
um
mecanismo
de
busca
especializado
em
livros
escaneados e digitalizados (<http://print.google.com>);
para
buscar
videos na
rede
criaram o Google Video (<http://video.google.com>);
o Google
Desktop
é
um
mecanismo
de
busca
que
indexa e localiza
arquivos
no
micro
(<http://desktop.google.com>);
para
visualizar
fotos
de
satélite
da
Terra
há o Google Earth (<http://earth.google.com>);
Google Groups é
para
listas
de
discussão
(<http://groups.google.com>);
e,
finalmente,
a
comunidade
Orkut.
Pergunta-se: não seria um controle totalitário?
Seria o Orkut mais um plano do Google
para a dominação mundial? Talvez uma conspiração?
Segundo o Dicionário Aurélio, “conspiração”
significa maquinação, trama, conluio secreto.
Não sabe-se ao certo se há qualquer trama por
trás do Orkut. Por enquanto, a única afirmação que não
traz dúvidas é o gigantesco controle do Google sobre
informações que circulam na rede.
Neste sentido, George Orwell escreveu o livro
“1984” no final da década de 40, contendo parábolas que, apesar
de escritas há décadas, encontram perfeita guarida na época
atual.
Orwell utiliza uma linguagem de inversão dos
significados para retratar o “Grande Irmão” (Big Brother),
ou seja, aquele que tudo vê. O “Grande Irmão” nada mais é do que
uma personificação do Estado, o retrato perfeito do mercado
totalitário.
Se
para o Estado “liberdade é escravidão” isso significa que
“escravidão é liberdade”; o próprio indivíduo se sujeita às
regras sociais da economia de mercado para não morrer
socialmente. Ainda: “ignorância é força”, comemoram empresários
que necessitam da ignorância social para sobreviverem no mundo
globalizado. Outros: "a loucura da produtividade é
auto-experiência", "auto-submissão é auto-realização", "angústia
social é autolibertação", e assim por diante.
Sobre Orwell, escreveu Robert Kurz, sociólogo e
ensaísta alemão:
“(…)
sua
utopia
negativa
há
muito
tempo
se tornou
realidade
e
que
vivemos
hoje
no
mais
totalitário de
todos
os
sistemas,
cujo
centro
é formado
pelo
próprio
Ocidente
democrático.
Seguramente
o
próprio
Orwell
não
pensou desse
modo.
É
óbvio
que
ele,
da
perspectiva
dos
anos
40 do
século
passado,
quando
escreveu
suas
parábolas,
não
tinha
em
vista
realmente
outra
coisa
que
a
experiência
imediata
do
nazismo
e do stalinismo;
(…)
“As
grandes
obras
filosóficas e as
grandes
parábolas
literárias se caracterizam
por
dizer
muitas
vezes
mais
que
seus
próprios
autores
sabiam e
por
lançar
uma
luz
surpreendente
sobre
as
condições
posteriores.”
Do
livro
Admirável
Mundo
Novo,
de Aldous Huxley, extraímos as mesmas
conclusões,
bem
como
Vigiar
e
Punir,
de Michel Foucalt. O
que
existe é
um
controle
social
individual,
no
intuito
de
saber
pormenores
de
cada
indivíduo.
O
saber
é
Poder.
Existe
vigilância
e
suspense,
pois
todos
se observam
para
checar
quem
será
aquele
a
cometer
suicídio
social.
Tal
vigilância
é
sufocante
e – numa assertiva
pessimista
– parece
não
ter
fim.
Conspiração
ou
não,
a
sociedade
deve
ser
prudente
para
não
cair
em
armadilhas
e, ao
mesmo
tempo,
não
viver
em
paranóia.
Tomar
cuidado
com
a
excessiva
exposição
no Orkut
já
é
um
começo.
Portal de vírus
Em setembro de 2005 a empresa Google
surpreendeu os usuários ao exigir que, para adentrar o Orkut,
criassem uma conta do Google, cadastrando um e-mail
no site. Somente quem já fizesse uso do Gmail não
precisaria fazer o cadastro e poderia entrar livremente tanto no
Orkut quanto nos outros serviços oferecidos pela empresa.
No início, alguns brasileiros reclamaram por “não
terem sido avisados” e “por serem forçados a abrir a conta”.
Outros, nada disseram, contanto que ficassem desobrigados de
pagamento para utilização do serviço.
A mudança abriu caminho para a atuação dos
piratas virtuais. Um dos golpes tem como foco o sistema
operacional Windows. À vítima é enviado um e-mail
de fundo azul contendo o logotipo do Orkut, oferecendo-se
uma falsa atualização através do link "Faça o download do
programa aqui!!!". Ao clicar, é automaticamente instalado no
micro o programa Banker.gen, o qual rouba senhas
bancárias. As transferências financeiras são feitas sem
conhecimento ou autorização do titular da conta-corrente.
Outro vírus existente e criado no Brasil roubava
o e-mail de usuário e senha do Orkut. Da mesma
forma que o mencionado anteriormente, enviava-se um e-mail à
vítima com a página inicial do website, dizendo que se o
usuário não clicasse no link “atualize aqui seu
cadastro”, enviando seus dados cadastrais para nova atualização
até o dia 15 de outubro, não poderiam mais acessar a rede de
amizades. A vítima, sem saber, estava enviando suas informações
a piratas virtuais. Estes, por sua vez, obtinham poderosas
ferramentas para spam ou mesmo para agir com
más-intenções fazendo-se passar por outra pessoa.
É
importante salientar que o spam (envio de mensagens
indiscriminadamente a vários usuários, sem que estes tenham
requisitado) é considerado crime em alguns estados nos
EUA, mas não no Brasil. Para evitá-lo, o ideal é atentar às
mensagens de conteúdo duvidoso, “não mandar uma reclamação
diretamente para quem enviou a mensagem, não tentar descadastrar
seu email clicando em algum link que fale em
descadastramento, remoção, etc. Ao fazer isso o usuário estará
confirmando a legitimidade de seu e-mail, que poderá ser
utilizado e até mesmo comercializado pelos spammers
(pessoas que enviam spam)”.
Outrossim, clicar em imagens deixadas nos
scrapbooks do Orkut pode ser fatal. Os links
de florzinha, elefantinho ou coraçãozinho enviados pelo amigo
podem conter vírus sem que ele mesmo saiba, e o prejudicado é
aquele que clicou.
Quanto mais popular for o Orkut, mais
visado será pelos piratas da rede. Várias pessoas já perceberam
como o website tem se tornado um portal de selvageria
incontrolável e têm retirado seus perfis. A popularidade do
site, porém, não tem baixado.
“Eu não consigo deixar o Orkut. É muito
legal reencontrar as pessoas, conhecer outras novas e deixar
scraps pra todos”, é o que se ouve. Os piratas comemoram e
gritam: “Viva a ingenuidade!”.
Falsidade Ideológica
Não pensemos que somente “reles mortais” estão na
rede. Pessoas que deveriam ter um cuidado maior com a
privacidade também estão por lá. Um exemplo é o juiz federal
Vlamir Costa Magalhães, cujo perfil descrito no Orkut
causou fortes reações, principalmente por parte da Ordem dos
Advogados do Brasil, a OAB.
O juiz expediu mandado de busca e apreensão no
escritório do advogado Luiz Olavo Baptista (representante da
empresa Schincariol), em São Paulo, para fins de investigar
sonegação fiscal de empresas de bebidas (chamada “Operação
Cevada”). No Orkut, Vlamir tem 85 amigos e descreve-se
“marrento com quem merece”. Diz que no trabalho dá “porrada em
quem merece, carinho em quem merece”, além de não ter posição
política definida e ser dono de um humor inteligente e sagaz.
Não só juízes federais como também promotores,
procuradores, delegados e tantos outros estão expostos online
para quem quiser ver.
Por outro lado, existem os falsos perfis como o
de Luiz Inácio Lula da Silva. Difícil é identificar o falso e o
verdadeiro, tarefa que envolve a análise de vários detalhes.
Em 01/04/05, a Abin (Agência Brasileira de
Inteligência) tirou do ar os perfis do ministro chefe da
Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica, Luiz
Gushiken, e da primeira-dama do Brasil, "Marisa Letícia Lulinha
da Silva", ambos perfis considerados falsos.
Falsidade ideológica é crime previsto no artigo
299, do Código Penal, assim tipificado:
“Art. 299 -
Omitir,
em
documento
público
ou
particular,
declaração
que
dele devia
constar,
ou
nele
inserir
ou
fazer
inserir
declaração
falsa
ou
diversa
da
que
devia
ser
escrita,
com
o
fim
de
prejudicar
direito,
criar
obrigação
ou
alterar
a
verdade
sobre
fato
juridicamente
relevante:
Pena
-
reclusão,
de
um
a
cinco
anos,
e
multa,
se o
documento
é
público,
e
reclusão
de
um
a
três
anos,
e
multa,
se o
documento
é
particular.”
A verdade é que os internautas se divertem. Lula,
por exemplo, tem “ligações para lá de perigosas: Delúbio é amigo
de Lula, que é amigo de Valério (com depoimento e tudo!), que é
amigo de Dirceu, que é amigo de Jefferson (!!!), que denunciou o
mensalão.”
Como diz-se por aí, “toda brincadeira tem limite” e os
responsáveis podem ser punidos legalmente, como bem observa a
advogada Patricia Peck, especialista em Direito Digital.
Crimes contra a honra
Outros crimes freqüentes no Orkut são os
crimes contra a honra. Mesmo que as mensagens sejam enviadas por
anônimos, o website pode ser condenado a indenizar a
vítima, “por estar servindo como suporte para a prática do
ilícito.”
Os crimes contra a honra são: calúnia, difamação
e injúria. Calúnia é a falsa imputação a alguém (mesmo se este
alguém já morreu) de fato definido como crime, também cometendo
o mesmo delito aquele que, sabendo da falsidade, propala ou
divulga a informação; difamar uma pessoa é imputar fato ofensivo
à sua reputação; e, injuriar é ofender-lhe a dignidade ou o
decoro.
Atenção especial ao artigo 141, do mesmo Codex:
“Art. 141 – As
penas cominadas neste Capítulo aumentam-se de um terço, se
qualquer dos crimes é cometido:
I – contra o
Presidente da República, ou contra chefe de governo estrangeiro.
II – contra
funcionário público, em razão de suas funções.
III – Na presença
de várias pessoas, ou por meio que facilite a divulgação da
calúnia, da difamação ou da injúria.
IV – contra
pessoa maior de 60 (sessenta) anos ou portadora de deficiência,
exceto no caso de injúria.
Parágrafo único –
Se o crime é cometido mediante paga ou promessa de recompensa,
aplica-se a pena em dobro.”
A empresa de viagens Artha, de Minas Gerais,
conseguiu judicialmente que a comunidade “Enganados pela Artha”
fosse retirada do ar. A decisão foi do juiz Estevão Lucchesi,
que “mandou o responsável pela página,
identificado como Lucas Matos, retirar o conteúdo
do ar, sob pena de ter de pagar multa diária de R$ 200, segundo
o site InfoJur”.
De acordo com Patricia Peck, o revoltado
moderador cometeu dois erros: usou o logotipo da empresa sem
autorização e xingou a sócia da empresa.
Outra vítima foi a artista plástica Neusa Maria
Peres de Almeida, que pediu à moderadora da comunidade
“Criadores de Desenhos” que seus desenhos fossem retirados, pois
estes haviam sido copiados e levavam a assinatura de outra
pessoa (“by Mag@lee”).
Os membros da comunidade, então, começaram a
espalhar mensagens de ofensa à honra da artista, o que fez com
que Neusa, juntamente ao escritório Murilo Maciel, de Goiânia,
entrasse com pedido formal na Justiça, fundamentado na lei de
Direitos Autorais. Assim, decidiu liminarmente o juiz Rodrigo de
Silveira Cardoso pela retirada dos desenhos do Orkut. A
multa imposta ao website pelo descumprimento da decisão
foi de R$500,00 por dia.
As freiras do Colégio São Paulo também pediram
socorro à Justiça para eliminar a comunidade “Holden Caufield”,
formada por ex-estudantes do colégio que ofendiam a honra das
freiras, professores e do próprio colégio através de mensagens.
O juiz Roque Fabrício de Oliveira Viel, da 2a Vara Cível de
Teresópolis, no Rio de Janeiro, concedeu a liminar, com multa de
R$ 100,00 diários no caso de descumprimento.
Lei aplicável
Segundo o Princípio da Territorialidade previsto
no artigo 5o do Código Penal, em sendo o crime cometido no
Brasil, a lei aplicável é a brasileira. O artigo 7o do mesmo
Codex dispõe que, uma vez cometido no estrangeiro e
praticado por brasileiro, também está sujeito à sanção
brasileira, observadas as condições do parágrafo 2o do mesmo
artigo. Neste diapasão:
“Ao falarmos em Internet,
três são as vias que nos vêm à cabeça: e-mails, chats e sites.
Nos três casos, haveria possibilidade de aplicação da lei penal
brasileira! Afinal, ainda que o “plano físico” da Internet
(provedora, site, servidor, hospedeiro) seja de outro país,
sendo o autor do delito pessoa brasileira, será punido pelo
nosso Código Penal (Artigo 7º, II, “b”) desde que se adeque nos
requisitos previstos pelo § 2º do respectivo artigo.
Utilizando este
raciocínio, percebemos que caso a ofensa à honra seja praticada
por e-mail, verifica-se de onde foi enviada a comunicação
eletrônica. Se for cometida durante um Chat, observa-se o local
onde estão os interlocutores. Cometido através de sites, deve-se
analisar onde se encontra o provedor/host. Em qualquer dos
casos, ainda que tudo ocorra em outro país, é mister verificar
se o autor/responsável por tais ofensas é ou não brasileiro, e
se encontra nas hipóteses do Artigo 7º § 2º.”
E qual o valor da prova obtida através do
Orkut? O advogado paranaense André Luis Pontarolli assim
entende:
“Pelo simples fato de que não
se pode saber se uma pessoa que está se manifestando na rede é
ela mesma, revela a fragilidade e insubsistência de uma prova
extraída do Orkut. O mais sensato, a partir do momento em que se
verifica que uma prova é incerta, é entender que ela não possui
qualquer valor jurídico; pois aceitar uma prova duvidosa é ferir
um dos princípios basilares do Processo Penal, qual seja o do in
dubio pro reo.
“Imagine a possibilidade de
alguém, utilizando todos os seus dados, bem como a sua imagem,
criar uma conta no Orkut e passar a cometer atrocidades, criando
comunidades racistas, proferindo injúrias, ameaçando os outros;
e apenas com base nisso você fosse processado criminalmente.
Como você se sentiria?”
A Justiça deve
ser cautelosa ao analisar as provas, cuidando para que não haja
impunidade ou condenação injusta. O advogado ainda sugere o
estabelecimento de meios preventivos na rede como a melhor
maneira de evitar a punição do inocente.
Civilmente, há
uma polêmica. Na lei civil o critério não é mais a nacionalidade
do autor, e sim o local de origem do fato. Ademais, ainda não há
regulamentação para a hipótese de aplicação da lei brasileira
fora do Brasil.
Crime organizado
O crime organizado também faz real festa nas
communities. Tráfico de drogas, racismo, pedofilia, nazismo
e xenofobia estão espalhados em comunidades sob os nomes “Eu
Odeio Japonês”, “Eu Odeio Preto”, “Eu Odeio a Argentina”,
“Judeu — prefiro o meu ao ponto”, “Odeio velhos
na minha frente”, “Sou contra as cotas para pretos” (criada por
um aspirante à vaga de curso de Medicina, que escreveu: “Lugar
de preto á na floresta, e não na faculdade. Volta pra África,
bando de inútil!”), e por aí vai.
Incitação ao
crime (incitar, publicamente, a prática de crime), apologia de
crime ou criminoso (fazer, publicamente, apologia de fato
criminoso ou de autor de crime) e formação de quadrilha ou bando
(associação de mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para
o fim de cometer crimes) são todos crimes contra a paz pública
passíveis de punição.
Marília Alves, designer de multimídia,
tentou defender a menina de quatro anos que participa de
comercial da Embratel, na comunidade “Eu Tenho Medo da Anã
(sic) Paula Arósio”, e foi ameaçada de estupro. Há ainda a
comunidade “Eu Odeio a Menininha do 21”, em que um argentino diz
querer dar “21 socos na cara dela”.
O que também pode ser considerado assustador é
que os participantes dessas comunidades não são poucos, ou ao
menos têm medo de expor nome e sobrenome, amparando-se no
direito constitucional de liberdade de expressão e esquecendo
que há limites previstos no Código Penal. As pessoas pensam que
o virtual não pode se tornar real, havendo uma falsa impressão
de impunidade.
Por sua vez, o Ministério Público do Estado de
São Paulo está de olhos bem abertos através do Gaeco (Grupo de
Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado). O grupo chega
às páginas por monitoramento ou comunicação do delito via
e-mail (comunicacao@mp.sp.gov.br), carta ou telefone.
Kenarik Boujikian Felippe, juíza da 16a Vara
Criminal de São Paulo, capital, porém, entende que o Ministério
Público não tem poderes de investigação criminal, cabendo esta
somente à Polícia Civil. Assim, em decisão de 1o de julho de
2005, rejeitou denúncia de racismo no Orkut proposta pelo
órgão contra Leonardo Viana da Silva, determinando remessa de
cópias dos autos à Polícia Civil para instauração de inquérito
policial. Outrossim, determinou à autoridade policial que
tomasse providências para retirar do Orkut as comunidades
“Racista Não, Higiênico”, “Coisasqueodeio: preto e racista” e
“Sou Racista”.
Racismo é crime tipificado pela Lei 7.716/89, com
alterações da Lei 9.459/97. A pena é de um a três anos, mas sobe
para dois a cinco anos quando o delito é cometido por meio de
órgãos de comunicação social, posição na qual se enquadra o
Orkut. O texto dispõe sobre a proibição da discriminação de
raça, cor, etnia, religião e procedência nacional.
Em Campinas, no estado de São Paulo, o Ministério
Público e a Polícia Civil investigam possíveis crimes de
formação de quadrilha e ameaça na comunidade “Unidos para matar
Dr. Hélio”, referindo-se ao prefeito da cidade, Hélio de
Oliveira Santos, do PDT. O moderador da página disse tê-la
criado apenas como ação de protesto e não tencionava causar mal
algum ao prefeito. O departamento jurídico da prefeitura teme
que a comunidade estimule atos criminosos.
Anotações finais
Se o Orkut
é apenas moda ou veio para ficar, a resposta não está a nosso
alcance. A única certeza que temos é a urgência na criação de um
diploma legal brasileiro adequado às mudanças que a tecnologia
vem causando nas relações sociais, familiares, de trabalho e no
comportamento do indivíduo consigo.
O que o
Google faz com os dados dos membros do Orkut? Eis a
incógnita. Ninguém se opõe ao fato de se tratar de um
poderosíssimo banco de dados mundial, com informações valiosas e
hábitos pessoais de seis milhões de pessoas: todos, de alguma
forma, amigos de Orkut (Buyukkokten).
Privacidade?
Palavra desconhecida. Por mais bem-intencionados e discretos que
alguns tentem ser, a verdade é que todos vigiam a todos, como
George Orwell contou em parábolas em 1949, sem que ao menos
soubesse que tais previsões alcançariam a época de hoje.
Aos que ainda
não fazem parte do website, recomenda-se séria reflexão
sobre o assunto; aos que já estão familiarizados com os
scraps, testimonials, e afins, leiam este artigo uma
segunda vez e repensem sobre manter tamanha exposição no
Orkut. Caso ainda decidam permanecer na rede, que seja
respeitando o direito alheio.
“O problema do
mal não é outra coisa, em grande parte, senão o problema da
liberdade.” (Nikolai Berdaiev)
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_____________.
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