Resumo
O presente artigo se propõe a apresentar uma discussão teórico
crítica relacionada acerca da categoria gênero e apresenta uma
abordagem sócio-histórica sobre o retrato da desigualdade de gênero
através das lutas das mulheres para a conquista da igualdade de
direitos na esfera pública e privada.
Palavras Chave: gênero; igualdade; direitos; mulher; conquista.
This article presents a critical theoretical
discussion related to gender issues and a social-historical
approach to gender distinctions through a history of womens'
struggle to conquer equal rights, both public and private.
Esse trabalho nasceu a partir da observação das autoras nos
respectivos campos de estágio e na prática profissional no campo
da saúde e assistência, bem como a partir das reflexões na
disciplina do Curso de Serviço Social intitulada “Relações de
Gênero e Questão Social” onde foi possível elaborar algumas idéias
acerca da “construção dos gêneros e como isso se dá através da
dinâmica das relações sociais.” (Scott, 1990).
O gênero se realiza culturalmente, por ideologias que tomam formas
específicas em cada momento histórico e tais formas estão
associadas a apropriações político-econômicas do cultural, que se
dão como totalidades em lugares e períodos determinados. Este
artigo não traz dados empíricos ou de pesquisa, mas representa um
esforço reflexivo acerca de um debate teórico que procura
compreender historicamente os espaços destinados às mulheres no
curso da sociedade brasileira.
O termo gênero é utilizado nos meios acadêmicos de maneira muito
recorrente, sendo empregado muitas vezes para definir traços de
caráter, numa perspectiva sócio-cultural, ou traços sexuais, numa
perspectiva biológica (Scott,1990). As abordagens sobre o termo até
o início das manifestações do movimento feminista no curso do século
XIX, eram feitas a partir de um caráter generalista e redutor, onde
não eram questionados os conceitos dominantes.
Mas para que tais mudanças pudessem ser realizadas, foi necessário
que o termo gênero galgasse legitimidade sócio-histórica e se
tornasse uma categoria de análise cientifica.
A categoria gênero foi compreendido nos estudos iniciais que datam
do final do século XX, como sinônimo de mulher, sendo uma conotação
objetiva e simples, incluindo as mulheres sem as nomear. Sendo
assim, não se constituiria como uma ameaça crítica; foi utilizado
também, para designar as relações sociais entre os sexos, ou seja,
os papéis que homens e mulheres exercem na sociedade, sendo vistos
em esferas separadas da história, de maneira fragmentada e
funcionalista.
É a partir do final do século XX que as teorias relativas ao gênero
começam a surgir e a apresentar identidade própria. Scott (1990)
define gênero como “um elemento constitutivo de relações sociais
baseado nas diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é uma
forma primeira de significar as relações de poder.” (1990:14)
O conceito de gênero determinou a construção das relações de poder
político e a oposição entre masculino e feminino de forma natural e
legítima, preservando o sistema existente. Scott (1990) indica que a
história pode e deve ser mudada, que não é imutável, porque os
homens e as mulheres são sujeitos que produzem a sua própria
história e estão em constante mutação.
(...) Só podemos escrever a história desse processo se reconhecermos
que o “homem” e a “mulher” são ao mesmo tempo categorias vazias e
transbordantes; vazias porque elas não têm nenhum significado
definitivo e transcendente; transbordantes porque mesmo quando
parecem fixadas, elas contêm ainda dentro delas definições
alternativas negadas ou reprimidas (SCOTT, 1990: 21).
As relações de gênero são norteadas pelas diferenças sociais entre
homens e mulheres, caracterizado ao longo dos anos pelas
desigualdades e suas decorrentes violências, acentuado a condição de
inferior e transformando a mulher num ser frágil, submisso e
vulnerável.
Para Saffioti (1992) gênero é:
... é tanto um construtor sociocultural quanto um aparelho
semiótico, um sistema de representações que atribui significado
(...) a indivíduos dentro da sociedade. Ora o devir das
representações vai modelando homens e mulheres, produzindo, assim,
diferenças de gêneros.
Todo esse arcabouço teórico-político vai cunhar o que no campo das
Ciências Sociais se denominou Questão de Gênero e esta atravessada
por lutas de classes e outras hierarquias transversais como raça e
geração.
Uma história de desigualdades e lutas: resgate histórico da questão
de gênero
Se analisarmos a historia de conquistas das mulheres, podemos
perceber que são longos anos de lutas, com raízes profundas e uma
construção cotidiana de conquistas que cruzou culturas e ideologias
específicas.
Em virtude de certas representações tais como: cuidado, docilidade,
piedade, fragilidade, entre outras correlatas foi construído um
consenso entre o sexo feminino, um ideário a respeito de uma
inclinação natural ao lar e a educação das crianças bem como
destinadas exclusivamente ao casamento e à maternidade.
Historicamente desconstruir essa naturalização no sentido da
superação desse lugar, foi necessário muita luta e militância, para
além inclusive do movimento feminista.
A estrutura patriarcal na sociedade industrial reproduz na esfera
pública e privada respectivamente, dois mundos do trabalho, a saber:
um mundo fabril onde o poder patriarcal se materializa nas
estruturas de mando e um mundo doméstico com suas duplas e/ou
triplas jornadas de afazeres do lar. A mulher foi incorporada no
trabalho fabril de forma subalternizada, com destaque para o fato da
sua remuneração ser inferior a dos homens. Em casa cabia-lhe cuidar
dos filhos e dos afazeres domésticos. Com esse cenário de
dificuldades as mulheres começam a reivindicarem por políticas que
se materializem em apoio à sua vida cotidiana como escolas, creches
para seus filhos, melhores salários, redução da jornada de trabalho,
entre outras políticas que atendem às suas variadas necessidades.
Em 1857, cento e vinte nove tecelãs da Fábrica de Tecido Cotton,
em Nova York,
declararam greve sob as bandeiras de luta de aumento salarial e a
redução da jornada de trabalho para doze horas. Essa fora a primeira
greve conduzida por mulheres e motivou a ira dos patrões que
decidiram queimá-las vivas. No século XIX, os movimentos de mulheres
lutaram por direitos trabalhistas, igualdade de jornada de trabalho
para homens e mulheres e o direito ao voto. No século XX a luta se
estruturou, denominada feminismo e sua organização em prol de
melhorias de estrutura social ficou conhecida como movimento de
mulheres. Entretanto, as mulheres que assumiram as lutas sofreram
discriminação tanto da parte dos homens como também de mulheres que
ainda se encontravam impregnadas pelos valores morais impostos
durante muitos anos.
A partir da década de 60 do século XX, o movimento feminista ganha
força no cenário mundial e mostra que as questões domésticas
perpassavam os limites da intimidade do casal e tomavam ares
políticos. O movimento feminista torna-se porta voz dos problemas
que envolvem as mulheres sob a bandeira de “o privado é público”.
Em 1970, o movimento feminista traz à tona a violência doméstica
sofrida pela maioria das mulheres, dando visibilidade ao assunto,
até então considerado privado, a ser resolvido na esfera do lar.
Esta violência ganha força no período da Ditadura Militar Brasileira
sob a bandeira de “quem ama não mata”, mobilizando a sociedade
contra a violência doméstica e rejeitando a tese de “legitima defesa
da honra” aceita pelo júri popular para absorver os réus dos
assassinatos de suas mulheres.
O conceito de gênero passou a ser utilizado por várias (os)
estudiosas (os) feministas brasileiras, em 1980. Em, 1985, o
movimento feminista organizou uma frente, articulando grupos
autônomos, organizações não governamentais de mulheres,
parlamentares e com o apoio do Conselho Nacional dos Direitos da
Mulher (CNDM), mobilizaram-se no processo de elaboração da nova
Constituição de
1988. A
nossa Constituição Cidadã dedicou um capítulo inteiro a família,
respaldada no princípio de igualdade de gênero e no compromisso do
Estado de criar mecanismos para o desestímulo e combate a violência
doméstica. Assim sendo a Constituição de 1988 foi um marco na
conquista dos direitos das mulheres. Este instrumento expressa
fundamentalmente a igualdade de direitos e os deveres de mulheres e
homens (artigo 5º, I). Saffioti (1992) afirma:
Como gênero é relacional, quer enquanto categoria analítica, quer
enquanto processo social o conceito deve ser capaz de captar a trama
das relações sociais, bem como as transformações historicamente por
elas sofridas através dos mais distintos processos sociais, trama
essa na qual as relações de gênero tem lugar.” (SAFFIOTI, 1992, )
O processo de redemocratização do país deu suporte ao movimento na
elaboração de propostas que prevenissem e coibissem a violência
doméstica e possibilitassem a proteção das vítimas. E com isso
alguns avanços foram conquistados, a saber: Delegacia Especiais de
Atendimentos a Mulher, casas-abrigo para mulheres vítimas de
violência doméstica e em situação de risco de vida, centros de
referência e orientação à mulher bem como de orientação jurídica,
Conselho Nacional de Direitos da Mulher, Conselhos Estaduais e
Municipais,
enfim uma institucionalidade necessário no atendimento às mulheres
brasileiras.
De modo geral destacamos as Conferências das Nações Unidas na década
de 1990, e outras Conferências Regionalizadas que deram visibilidade
para a violência de gênero,
resultado de uma mobilização internacional.
No bojo das conquistas de espaços públicos e das visibilidades
políticas, as mulheres começaram a “desnaturalizar” as várias formas
de violência de que eram vítimas, tornando o respeito a sua pessoa,
uma questão de direitos humanos, uma questão de política pública.
Essas iniciativas, ainda que parciais, passaram a assegurar as
mulheres um sistema permanente de proteção e segurança, mas há muito
ainda o que fazer, pois é necessário publicizar e universalizar tais
políticas, que são tratadas muitas vezes na esfera moral e
particular.
Além disso, as políticas públicas brasileiras não conseguiram romper
com as desigualdades e com o ciclo da pobreza, atendendo de forma
superficial e fazendo com que os seus usuários vejam tais políticas
como um favor e não como direito. Segundo Torres (2002, p. 131-132),
[...] o Estado brasileiro sempre enfrentou a questão da pobreza de
forma casuística, descontínua, sem efetividade e sem planejamento,
criando [...] uma forma de dependência, apadrinhamento e
clientelismo. Muitas vezes, os usuários das instituições de
bem-estar não se reconhecem como sujeitos nessa relação, mas como
seres passivos e incapazes diante da sociedade.
Atualmente as mulheres constituem majoritariamente o público usuário
das políticas sociais, administrando os recursos que lhe são
concedidos através dos programas governamentais e
não-governamentais, ou seja, os mínimos sociais. É legitimada
inclusive pelos documentos oficiais como a titular, responsável pela
gerenciamento do recurso e por conseguinte da “administração da
pobreza”. Se por um lado isso materializa um quadro de autonomia
feminino por outro pode reforçar a direção histórica de desigualdade
em termos de exploração e dominação.
O Assistente Social nesse contexto como agente operador, planejador,
gestor, avaliador de diversas políticas públicas pode contribuir
para pensar tais políticas a partir das necessidades das mulheres,
políticas que possam vir de fato a garantir a equidade e o
rompimento do papel subalterno que está inserida.
Os desafios estão colocados ao longo da história de lutas femininas
foram o romper de uma dominação masculina e uma construção
desafiante da conquista do espaço feminino, que propõe o desmontar
de um esquema preconceituoso que atravessa a cultura patriarcal e
rompe barreiras e traz a discussão a construção de outras formas de
relação de gênero.
Referências Bibliográficas
SAFFIOTI, Heleieth B. Posfácio: conceituando gênero; Violência de
gênero no Brasil contemporâneo. In: SAFFIOTI, H. & MUNHOZ-VARGAS, M.
(Org.). Mulher brasileira é assim. Rio de Janeiro/Brasília,
Rosa dos Tempos/UNICEF, 1994, p. 151-185; 271-283.
SCOTT, Joan. Gênero: Uma categoria útil para análise histórica. Rio
Grande do Sul: Ed. Educação e Realidade – vol. 16. 1990.
SPOSATI, Aldaíza de Oliveira et al. Assistência na trajetória das
políticas sociais brasileiras: uma questão
em análise. São Paulo:
Cortez, 1995.
TORRES, Iraildes Caldas. As primeiras-damas e a Assistência Social:
relações de gênero e poder. São Paulo: Cortez, 2002.
|
Gostaria que o texto fosse citado:
COSTA,
E. M.
AZEVEDO, T.M.C.
FONSECA, T. M. A. |