Resumo: Este trabalho tem como objetivo apresentar como funcionam os
discursos em torno da sexualidade em meninas institucionalizadas em
lar provisório devido à situação de risco em seus respectivos
contextos familiares, bem como salientar como se operacionaliza a
relação de poder da responsável pela instituição (coordenadora) e
demais indivíduos inseridos no lugar em questão, como as monitoras e
as meninas. Principalmente conhecer as armas que a coordenadora se
utiliza para manter a boa imagem da instituição no âmbito social.
Palavras chaves: meninas institucionalizadas; sexualidade; relação
de poder; discursos.
Abstract: This paper aims to present the work as discourses on
sexuality in girls institutionalized in transitional home because of
the risk in their family contexts, and as noted in operation the
power relationship of the responsible institution (coordinator) and
other individuals entered the place in question, such as monitors
and girls. Especially knowing the weapons that the coordinator uses
to maintain the good image of the institution in our society.
Key words: institutionalized girls, sexuality, relationship of power,
discourse.
INTRODUÇÃO
O presente artigo foi realizado pelos acadêmico Lucas Silveira da
Silva, tendo como orientador o professor e psicólogo Juliano Fontana
Trevisan, é relacionado à disciplina Estágio Básico I, do IV
semestre do curso de Psicologia da Universidade Regional Integrada
do Alto Uruguai e das Missões, Campus Santiago, realizado do mês de
agosto a outubro de 2006, em uma instituição que abriga menores do
sexo feminino. Esse estabelecimento abriga meninas de até 18 anos,
em situação de abandono ou de risco no ambiente familiar; tem como
objetivos:
Dar atendimento e assistência às menores desamparadas fazê-las
seguir regras para se habituarem no meio social e recuperar seus
objetivos em relação as suas vidas.
CARACTERIZAÇÃO DA INSTITUIÇÃO
É um lar provisório, tendo especificado que não se pode acolher por
regime de tempo superior à que quatro meses, mas como a própria
coordenadora nos relatou, que teoria e prática nesse meio social não
coincidem, pois os pais normalmente não se habilitam, ou não querem
arcar com suas responsabilidades com tal.
Tendo em vista o Estatuto da Criança e do Adolescente, elas são
encaminhadas pelo Conselho Tutelar, sob investigação ou constatação
de maus tratos no ambiente familiar, então são encaminhadas,
geralmente (algumas) são encaminhadas para a adoção, como é o caso
de uma menina de oito anos a menor de todas.
Atualmente no lar residem seis meninas, entre as idades de 9 e 15
anos, com assistência de sete monitoras, responsáveis por levá-las à
escola, mercado e demais lugares que fazem parte da rotina das
mesmas, zelando pelas suas respectivas higiene pessoal e da
infra-estrutura do lar, de maneira rígida para com as
responsabilidades estabelecidas pela instituição, dentre elas:
Þ
Acordar às 7 horas da manhã;
Þ
Organizar sua cama, roupas e calçados;
Þ
Higiene pessoal e do ambiente;
Þ
Refeições com horários estabelecidos e fixos;
Þ
Horário de fazer os temas são supervisionados pelas monitoras;
Þ
Realizar oficinas fora do horário de escola, para uma futura
profissão;
Þ
Não brigar e discutir com os outros;
RELACIONAMENTOS INTERNOS NO LAR
Dentre os aspectos mais interessantes e instigantes no decorrer do
estágio, está o relacionamento cotidiano das meninas com as
monitoras, havendo uma espécie de conturbação, discórdias em relação
a algumas, havendo monitoras com as quais possuem maior
identificação e com as quais mantém um bom relacionamento, porém há
exceções de monitoras que não possuem o mesmo linguajar, mas na
medida do possível há um bom diálogo entre as menores e suas
respectivas monitoras preferidas, onde flui questões
relacionadas a vários aspectos, os quais dependendo do conteúdo
passam para a coordenadora; assuntos que abordam várias formas de
discurso e temáticas, incluindo aspectos cotidianos como:
sentimento, cooperação, sexo, amor, pais, etc.
Nós utilizamos uma linguagem fácil e acessível com as meninas,
abordamos assuntos de televisão, música e artista construindo um
clima de interação onde a necessidade de falar o que elas sentiam se
sobressaía, onde deslanchou um diálogo, sendo que elas não gostavam
quando falávamos com as monitoras, elas queriam atenção totalmente
voltada para suas questões. Por todos esses fatores que utilizamos
em nossos discursos, veio à tona o principal assunto abordado no
decorrer do artigo, a “sexualidade”; vemos aí a necessidade de se
falar em torno desse inquietante aspecto.
Indo mais além, vendo que, o poder exercido em cima delas em
hipótese alguma vai cessar ou reprimir um conteúdo importante na
vida de qualquer pessoa, sendo ele um aspecto social, cultural e de
força biológica como é o caso da sexualidade.
A SEXUALIDADE E OS POSSÍVEIS DISCURSOS
Porém, aí que brota o principal aspecto, o que movimenta o discurso
das menores, o que as instiga, provoca curiosidade, algo obscuro, um
segredo oculto, o que elas mesmas nos ressaltaram em diversos
diálogos, a sua vontade de saber sobre “Sexualidade”. De muitas
vezes em nossas conversas elas relatavam conteúdos sexualizados tais
como: “Tu gosta de ter tetas?”, “Tu tem namorado?”, “Tu
tens namorada?”, “É que tem dias que ela não dá a buceta, por
isso ficam assim mal humoradas”, entre outros.
Então esse é o foco central do nosso trabalho, as várias faces que
essa incitação traz consigo, e de como ela funciona dentro da
instituição. Como que funciona os discursos em relação ao sexo
dentro da instituição?Quem pode e deve dar respostas aos
questionamentos das menores? Será que as informações que elas tem
dentro do lar são suficientes? Por que elas deixam esse conteúdo tão
manifesto em suas conversas? Será que o fato de não estarem na
dinâmica familiar e/ ou estarem asiladas, compromete essa formação
das idéias em torno de sua sexualidade ou caráter sexual, podendo
ser pessoas transviadas? Será que é relevante ressaltar esses
aspectos de como é o discurso em torno dela ou seria preconceito de
nossa parte analisando somente a instituição, sem nenhum caráter
generalizável para a sociedade? É nosso objetivo responder ou
clarificar essas questões no decorrer do trabalho.
O fato de as meninas estarem institucionalizadas gera muito
preconceito em nosso meio social, onde estão em constante movimento
questões que colocam e evidenciam o comportamento dos indivíduos em
seu contexto, devido ao fato de não estarem dentro de suas
respectivas casas e seio familiar, seus futuros estão tão ameaçados
vivendo em um ambiente nada sadio, como é a concepção de muitos que
não conhecem a infra e superestrutura do lar.
É em torno dessas questões que vão girar nosso trabalho, nosso
objetivo é fazer com que as pessoas entendam que a maneira como se
fala, questiona e age a respeito da sexualidade tem pontos em comum
em todos os seres do contexto social; aplicando até mesmo em nossa
cultura ocidental.
Coube a nós nos questionar qual seria a melhor maneira de se falar
lá dentro sobre isso, comparamos esse funcionamento discursivo
semelhante ao de nossos tradicionais lares que representam à
clássica família nuclear; onde tudo se passa em torno dos chefes da
família, ele tem o poder frente a isso, tanto para controlar nossas
vidas, como para manter em harmonia seus desejos e interesses.
Partindo dos pressupostos de Foucault, de inicio percebemos pelos
relatos da coordenadora que nós não interviéssemos no cotidiano das
meninas, não realizando atividades que trouxessem conteúdos maus e
nada relacionado a sexo, nem explícita nem implicitamente; chegamos
a concluir que essa questão era totalmente reprimida na instituição,
pelas exigências da coordenadora. Com o passar das visitas foram
sendo cristalizados as possíveis formas de se falar nele, o sexo não
era uma questão de repressão e sim de quem o dominava e o entendia,
quem tinha e podia dar respostas.
De certa forma em alguns aspectos sim esses discursos funcionavam
com certo grau de repressão, e de outros não, pois as menores quando
estão muito curiosas se perguntando questões sexuais dirigem-se a
uma monitora, a mais confiável para elas, a mesma por sua vez não dá
resposta e se cala dirigindo todas as dúvidas para a coordenadora. A
tão existente dominação está aí, quem é detentora do saber, a grande
dona
da verdade e do poder, que se formou historicamente e que tomou o
discurso da sexualidade para si e deu forma aos tão comuns
“dispositivos da sexualidade”
(Foucault,p. 146) que se formularam numa espécie de síntese que o
poder e discurso cientifico tomaram para si.
Em torno desses dispositivos, está relacionado uma ampla dinâmica
social, sendo mais clara e precisamente vinculado aos discursos
sobre a sexualidade, onde foi fundado a “Scientia sexualis”*, a qual
é dona da verdade, ela possui esse poderio; e indo mais além se
utilizou do grande quadro da confissão, uma tradição ou produção da
verdade implementado pela igreja católica na idade média(Foucault,
p. 58) para se chegar ao perdão divino, no caso da medicina, pegar
os discursos e analisar a sexualidade dos indivíduos e separar sua
sexualidade em normal ou patológica. "Confissão foi, e permanece
ainda hoje, a matriz geral que rege a produção do discurso
verdadeiro sobre o sexo”.(Foucault, p. 62).
No momento em que a sociedade passou a se interessar pela vida, em
seus vários âmbitos científicos e sentimentais, não sendo mais o
poder na morte,
surgiu a necessidade de dominação dos cidadãos de outra forma,
implementando discursos, aí está o ponto chave do nosso assunto, a
curiosidade das meninas versus poder, já que elas tem que procurar
informação com consentimento de outros que somente pode ser suprida
pela figura majestosa da COORDENADORA, ela é única que ‘pode’ e
‘deve’ ser consultada frente a temática.
No momento em que nos inserimos na instituição e tivemos contato com
as meninas, elas tiveram outra chance de expressarem suas incógnitas
que estão aflorando de suas necessidades de saber para conosco,
então está aí exemplificado o “porquê” de a sociedade ter o poder
diante da vida e desse assunto, tudo visa o controle dessa variável
no contexto institucional.
Então, como devida responsabilidade no âmbito profissional, a
coordenadora tem que zelar pelo seu bom nome profissional, pois há
realmente uma cobrança da sociedade em relação às meninas, visto que
a sociedade e coordenadora impõe regras, como não usar piercings,
tatuagens, pois elas causarão uma má impressão tanto das
meninas como dos serviços prestados pela coordenadora. Pois não
devemos negar que o ambiente social tem uma representação das
meninas semelhantes a pessoas errôneas, sem futuro e sem
perspectivas só por residirem como tal, nunca olham seus trabalhos
realizados e o como se esforçam em suas oficinas que realizam para
ter uma futura profissão.
O responsável(coordenadora) pelo zelo das meninas vai se utilizar de
seu poder para, de maneira nenhuma reprimir a sexualidade e os
discursos que giram em torno dela, mas para manter uma espécie de
boa imagem do lar em vários aspectos.
Está claro suficientemente para a coordenadora que elas poderão ter
esses relacionamentos fora da instituição em horário de aula ou
passeio, podendo então essa imagem exigida pelo social ser
desmoronada, aí se torna necessário ressaltar que segundo as meninas
a própria coordenadora deixava uma delas namorar na instituição,
porém vigiada ou com alguém monitorando. Vemos aí o medo da
coordenação que leva a uma certa liberdade com supervisão.
Essa referida supervisão é o mesmo que a relação de poder, porém de
forma um pouco mascarada racionalmente, é interessante e de extrema
importância a responsável pelas meninas no lar, encontrar um jeito
de não reprimir, mas manter um equilíbrio, um estado ou imagem. Foi
relatado por uma monitora que “seria um escândalo uma menor do lar
estar grávida ou ter engravidado num momento em que estivesse
abrigada no lar” (sic).
Essas são as variáveis pelas quais funcionam na instituição os
discursos de sexualidade e como devem continuar, proceder e se
perpetuar. Não só esse aspecto, mas muitos outros estão relacionados
ao poder dentro do contexto, entretanto o mais magnífico disso tudo,
foi ver o quanto a teoria de Foucault nos ajudam a pensar este
contexto institucional, ver o como essa vontade de saber das meninas
operacionalizam múltiplos aspectos e questionamentos. Será esses
relatos e funcionamento uma herança cultural ou algo que se
implementou em nossa sociedade pela maneira como a ciência adotou
esses discursos para si?
Essa é uma questão que necessita de mais uma ampla abordagem e
revisão teórica, mas no momento em que a medicina, psicologia,
pedagogia tomaram para si esses discursos, implementaram diversas
maneiras de falá-lo, sendo que não se interessava mais com o gozo
como na ars erótica,
e sim uma assistência maior e cuidados com a saúde e o corpo como
especifica o trecho:
“E longe de
acreditar ser de seu dever amputar o corpo de um sexo inútil,
desgastante e perigoso, já que não estava voltado exclusivamente
para a reprodução, pode-se dizer, ao contrário, que a classe que se
tornava hegemônica no século XVIII se atribuiu um corpo para ser
cuidado, protegido, cultivado, preservado de todos os perigos e de
todos os contatos, isolado dos outros para que mantivesse seu valor
diferencial; e isso outorgando-se, entre outros meios, uma
tecnologia do sexo.”(FOUCAULT, 1998. p. 116).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sendo assim, toda essa dinâmica de funcionamento tanto dos
discursos, como da própria sexualidade se derivaram daí, desses
princípios metodológicos científicos que são produtos culturais,
sociais e históricos; que são utilizáveis e passíveis de análise nos
nossos dias atuais, podendo ser utilizados em múltiplos contextos
como na instituição que abriga menores de sexo feminino em situação
de risco.
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1: A vontade de saber.
15.ed.São Paulo: Graal, 1998.
_______________História da Sexualidade: O Uso dos Prazeres,
Vol. II RJ: Graal, 1984.