Em 2001 conheci uma
figura muito interessante: a diretora de RH para a América
Latina de uma corporação global, que havia feito seu MBA
em Marketing nos EUA. Ela estava contratando meu expertise
em planejamento de marketing para um projeto de RH: focar
a unidade brasileira no consumidor. Mas, esta é função do
marketing ou do endomarketing ou do RH?
Descrição do desafio: uma empresa
fabricante de bens duráveis, com 8 mil funcionários e 6
unidades localizadas entre o norte e o sul do país. O
objetivo era que todos os funcionários (do presidente ao
horista do “chão de fábrica”) fossem o primeiro cliente da
empresa, ou seja, aquele que compra e “expõe o produto” na
sua casa para seus amigos; que vivencia a assistência
técnica, e liga para o call center. E depois de toda essa
experiência tenha orgulho do produto que fabrica e
principalmente se lembre do consumidor ao emitir uma nota
fiscal ou ao apertar o parafuso de uma porta.
Para esta diretora a solução era
simples: o meu primeiro consumidor é o funcionário. A
estratégia era usar das técnicas de marketing e
comunicação para sensibilizá-lo e adequar a antiga
política de venda interna da empresa para esta nova
realidade. É o marketing e o RH dando as mãos de forma
mais íntima que a proposta do
“endomarketing.”
Se retornarmos ao início dos anos
90, veremos o surgimento das primeiras bandeiras do foco
no cliente dominando o discurso das empresas. “Nós somos
focados no cliente e nas suas necessidades” – este foi o
cosmético que maqueou a comunicação das empresas e que não
foi suficiente para evitar a percepção da realidade pelo
consumidor.
E o mercado respondeu: “Sim, vocês
são focados em mim, mas o produto que acabei de comprar da
sua marca está com defeito! Vão então trocá-lo ou devolver
meu dinheiro? Afinal, a empresa é focada no cliente!?” E a
resposta quando vinha era evasiva, pouco clara e depois de
6 meses. BUM, um tiro no foco no cliente.
Logo o Procon sentiu o peso deste
foco com as extensas reclamações de consumidores, cansados
do marketing de produtos, e exigindo uma providência. A
primeira lição: “se não puder cumprir, melhor não dizer
nada!”
O mercado, entretanto, mostrou se
cada vez mais comprador do “foco em si mesmo” (veja, todos
temos um certo quê de Narciso). Todo produto feito ou
alterado com a sua opinião e adequado para atender
necessidades específicas era uma inovação vencedora.
A maquiagem usada na comunicação
personalizada começa a expandir para os call centers que
passam a ter dados individualizados dos clientes. É a
tecnologia a favor do consumidor. Depois, a tecnologia
começa a integrar os dados do SAC com os dados da área
comercial e com o “database marketing” e nos dá a
segunda lição: “para cumprir é preciso conhecer”.
E a evolução continua num ritmo
mais acelerado que a teoria de Darwin e atinge os
engenheiros das áreas de produtos e desenvolvimento. O
produto só tem sentido se ele atender a uma necessidade de
um nicho do mercado. E aí vem a terceira lição: “conhecer
significa atender o mercado em segmentos específicos”.
Rapidamente novos produtos e
serviços são criados, viram febre, e são cada vez mais
rápido copiados pelos piratas. Tudo perde o valor em
fração de meses, sem que possam equilibrar de forma
positiva o investimento realizado no lançamento. Logo
chega a quarta lição: “só uma marca de forte
relacionamento com o consumidor manterá a empresa no
Olimpo.”
E não menos rápido, as empresas
descobrem que marca vai além da propaganda, do produto, do
serviço e do logotipo. É o reflexo da cultura da empresa:
seus valores e obviamente sua equipe de colaboradores. O
RH recebe uma nova incumbência: trazer talentos que
sintonizem com essa cultura e isto nem sempre é uma tarefa
fácil. O RH passa ser “vendedor” da empresa para o novo
talento. E depois, precisa mantê-lo. Logo, a quinta lição:
o RH também faz marketing!
Assim, a conclusão é muito
simples: a diretora de RH tinha razão quando enxergava que
uma empresa para ser focada no cliente precisa que a sua
equipe seja também consumidora dos produtos que fabrica.