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Assédio moral: um mal que ronda o ambiente de trabalho

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Especial Meio Ambiente - Revista Partes - novembro de 2001

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 "Bom manejo" trata-se de uma jogada de propaganda
 entrevista com Rodolfo Salm

1. Os OGM ­ organismos geneticamente modificados, assim como o DDT depois de anos de câncer , só serão proibidos depois de muitas mortes?
Os organismos geneticamente modificados, ou transgênicos, terminologia mais apropriada, provavelmente nunca serão proibidos. Tal proibição não faria sentido porque ao contrário do DDT, que é um veneno poderoso, e por isso necessariamente ruim, os transgênicos podem ter diversas naturezas, bons ou ruins para o homem e o meio ambiente. Para ilustrar o meu argumento acho útil discutir a diferença entre "organismos geneticamente modificados" e transgênicos.
Nossa espécie, Homo sapiens sapiens, desde que se definiu evolutivamente há cerca de 100,000 anos se alimentou principalmente dos animais e plantas que naturalmente viviam ao seu redor, obtidos através da caça e da coleta. É apenas nos últimos 10,000 anos de nossa história que surgem as primeiras evidencias de povos praticando a agricultura e o pastoreio. Tais atividades, que surgiram de forma independente em pelo menos duas regiões da Terra, nas Américas e no Oriente Médio, provocaram profundas mudanças na vida dos povos que passaram a pratica-las. Mudanças ainda mais profundas aconteceram com as espécies animais e vegetais que passaram a ser ao mesmo tempo protegidos e explorados pelo homem. Ao selecionar os indivíduos com as características que mais nos interessam, o homem já modificou geneticamente várias espécies.

O que aconteceu nos últimos poucos anos é que com o desenvolvimento da engenharia genética, ou tecnologia do DNA recombinante, passamos a ter o poder de transferir genes de uma espécie para outra, criando organismos transgênicos. De posse desta poderosa ferramenta, o processo de adaptação de espécies às necessidades humanas pôde se tornar muito mais rápido e dinâmico. Agora, se os organismos transgênicos vão trazer mais felicidade à vida das pessoas ou serão novos instrumentos de dominação, fontes de degradação ambiental, miséria e morte, vai depender da forma como os transgênicos serão utilizados. Infelizmente, os grandes produtores de alimentos parecem dar pouca atenção ao meio ambiente e ao povo. Assim, é muito razoável se imaginar que a tecnologia da engenharia genética, se usada na produção de alimentos, trará ainda mais fome e miséria.

É importante que a sociedade discuta a utilização dos transgênicos na produção de alimentos, mas que perceba que o que deve ser debatido é o funcionamento do sistema de produção como um todo. Não devemos travar uma luta conta os transgênicos mas pela socialização dos meios de produção e das decisões sobre seu funcionamento. É trágica a substituição da floresta Amazônica por latifúndios de soja, agora, se esta soja será ou não transgênica, me parece ser um detalhe menor.

2. As vacas loucas comiam uma ração de sangue, sebo e gelatina de origem animal. Em 1996, o ministério britânico da Agricultura havia informado que essa ração era inofensiva para a saúde humana. Podemos viver a mesma situação no caso dos transgênicos?
Sim. Muitos dos efeitos da utilização de organismos transgênicos em vários aspectos de nossa vida são absolutamente imprevisíveis. A utilização de transgênicos na produção de alimentos implica em riscos, mas uma decisão por sua não utilização também traz riscos porque os organismos transgênicos certamente também têm benefícios potenciais.

Ao invés de discutir o imprevisível, pensando nos modelos para a produção de alimentos no Brasil, acho que deveríamos nos concentrar no visível. O uso ou não dos transgêncos é uma paranóia forte daqueles que vivem nas áreas ricas, ou desenvolvidas do mundo. Para o povo da maior parte do Brasil parece lenda do outro mundo. Aí a o caso do mal da vaca louca na Inglaterra é um exemplo interessante. Somente quem viu de perto como são criadas as vacas, porcos e galinhas na Inglaterra pode entender o terror que aquele povo desenvolveu em relação à sua própria comida. Eles não se parecerem com bichos mas com glândulas transformadoras de proteína e gordura de máquinas de fazer carne. O mal da vaca louca surgiu exatamente desta falta de respeito com os organismos, e com o que se pode chamar de natural para estas espécies. É claro que nem toda a produção européia é assim, a carne daqueles bichos criados de forma mais natural é mais cara, encontrada nas melhores lojas e chamada de "orgânica".

O interessante é que a tão valorizada criação de animais orgânicos da Europa é justamente o que já fazemos aqui no Brasil. Acontece que o governo brasileiro tem feito de tudo para substituir o a forma como alimentos são produzidos no Brasil pelos modelos americanos e europeus, que substituíram florestas por campos, reduziram a diversidade das espécies animais e vegetais exploradas e abusam de fertilizantes, pesticidas e hormônios.

Os europeus vivem o drama da vaca louca e temem os transgênicos, mas nós brasileiros estamos numa posição privilegiada pois justamente por sermos menos ‘desenvolvidos’, ainda podemos evitar vários dos problemas que são visíveis hoje na produção de alimentos dos países ricos. Basta pensar que grande parte da população da Amazônia, que é a metade do Brasil, ainda se alimenta da floresta, da caça e da pesca, assim como têm feito há milhares de anos. Não ha qualquer razão para substituirmos, como estão tentando fazer, a nossa forma tradicional de produzir comida pela forma que se faz hoje na Europa.

Para o resto do Brasil, que já foi desmatado, a tarefa que nos resta é plantar novamente as florestas e enche-las de caça; limpar os rios e o mar; plantar milho, batata e mandioca; criar as galinhas e o gado assim como o caboclo ou caipira brasileiros sempre fizeram. Se a terra for distribuída não vai faltar comida para ninguém.

3. A questão da água tem sido usada como uma questão passageira ou sazonal. Como reverter este quadro?
Com educação de qualidade; que por sinal é a única forma realmente eficiente de se trabalhar com preservação ambiental e o único modo de se reverter o processo de degradação ambiental no Brasil. A destruição ambiental é o fruto mais duradouro da ignorância.

Como na maior parte deste país sempre tivemos abundância de água doce, a sua escassez não é uma grande preocupação do brasileiro. Apesar de ser uma substância fundamental para vida de qualquer organismo, é natural que só lembremos da água quando ela nos falta, enquanto não falta, pensamos em coisa mais importante. É justamente isso que acontece com qualquer animal e não há razão para que seja diferente com o homem. Acontece que temos uma capacidade especial de antever o futuro e todos aqueles que pararam para pensar na questão da água no Brasil sabem que, por causa dos desmatamentos e da poluição, a nossa história de abundância de água vai acabar. Essa preocupação tem que ser rapidamente embutida na cabeça de cada brasileiro. E isso não se resolve com campanha publicitária, mas com um amplo e profundo projeto de educação para todo o Brasil.

4. Enquanto biólogo, como você acha que deve ser o papel da ciência e sua relação com a sociedade?
A ciência se faz presente nos mais diversos aspectos da vida humana, desde aqueles ligados às explicações que buscamos para a nossa existência quanto a questões de ordem prática e cotidiana. Ao formular sua teoria da evolução, Darwin não apenas criou aquilo que chamamos modernamente de biologia, mas também ofereceu a humanidade uma forma especial de se apreciar o homem e sua relação com o universo. A observação de que o homem não é um objeto da criação divina dissociado de todo o mundo biológico, nos coloca em pé de igualdade com as outras espécies. Se por um lado isso provoca ansiedade, por outro também sugere que precisamos passar a respeitar e preservar este mundo biológico para termos felicidade e não sermos destruídos como espécie. Cabe ao biólogo um papel especial na tarefa de difundir a mensagem de respeito à biodiversidade.

Para o biólogo brasileiro esta trabalho é duplamente importante. Isso porque apesar de apesar de termos um povo que em grande parte é analfabeto e miserável, somos dentre todos os países, aquele que possuí a maior riqueza biológica para ser explorada. Então o nosso papel é maior, levar educação para o povo para que ele entenda a importância de se preservar a biodiversidade e pesquisar novas formas de se utilizar desta riqueza biológica para atender as necessidades deste povo.

5. O desmatamento ainda é crescente no país. Como resolver esta questão?
Novamente, com educação, distribuição de terras e justiça social. Para se resolver o problema do desmatamento é necessária uma revolução na distribuição de terras e de poder no Brasil. A relação entre a posse da terra e a preservação ambiental fica muito clara quando são comparadas as áreas indígenas, onde a terra pertence a todo um grupo social e as propriedades privadas, onde o destino da terra depende da decisão de seu proprietário. Hoje em dia, nas terras indígenas o meio ambiente está muito mais preservado justamente porque todo o grupo social é responsável por seu gerenciamento, e não uma pessoa só. Não é verdade que os índios não destruíram suas terras tão rapidamente quanto os brancos apenas por não terem tecnologia para tal; a posse coletiva da terra tem um papel fundamental na diferença como ela é tratada.

Mais do que barrar o desmatamento, o nosso objetivo deve ser o de se reflorestar aquilo que já se desmatou do Brasil. O ofício de plantar florestas é uma atividade produtiva, saudável e recompensadora; trata-se de uma alternativa viável para aqueles que hoje são marginalizados pelo capitalismo. Mas para isso o povo tem que ter acesso à educação e à terra.

6. Qual balanço você faz sobre a real situação da Amazônia, os riscos que a mesma corre como a degradação ambiental e o perigo da internacionalização?
Apesar de todo o desmatamento que aconteceu na região Amazônica, principalmente desde a década de 70, a bacia Amazônica ainda está quase que completamente coberta de florestas. Estima-se que cerca de 80% da cobertura florestal da Amazônia ainda esteja intacta. Mas ao contrário do que este cenário confortável pode sugerir, a situação da floresta Amazônica é dramática. A grande área ainda florestada é somente uma conseqüência da imensidão Amazônica, comparável em extensão a todo o continente europeu, e das suas baixíssimas densidades populacionais. Acontece que intensos fluxos migratórios têm sido direcionados para a Amazônia através de mega projetos de infraestrutura como rodovias e hidroelétricas. Assim, a região Amazônica esta sofrendo um processo de explosão demográfica. O ritmo de destruição também tende a crescer e mesmo estimativas ditas otimistas são de que pelo menos cerca de 50% de toda a floresta hoje restante será destruída nos próximos 20 anos.

O medo da subtração da região Amazônica de nosso território é antigo no Brasil, teve ter começado quando o primeiro português cruzou a desembocadura do rio Amazonas. Como controlar aquela vastidão de florestas? "Substituindo as florestas por campos" – foi a resposta implícita dada pela longa seqüência dos governantes do Brasil. Muito da história da região Amazônica se explica pelas tentativas do estado brasileiro de acabar de vez com a floresta para garantir a posse do território. Mas existe hoje a chance da Amazônia deixar de ser território Brasileiro? Ninguém pode levar esta idéia a sério.

Agora se formos pensar em internacionalização sob outra ótica, o processo avança firmemente. As portas já estão abertas para as madereiras asiáticas que estão se instalando e cortando árvores no coração da floresta. Toras de mogno, uma de nossas madeiras mais preciosas, estão partindo aos montes principalmente para os Estados Unidos e Inglaterra. O projeto Carajás, um precursor dos grandes projetos de infra-estrutura na Amazônica, apesar dos vultosos investimentos nacionais, hoje pertence a grupos estrangeiros. Veja que o projeto ocupa uma área equivalente ao território da França. E as hidrelétricas do Xingú? Também serão construídas com dinheiro de fora, para servir aos interesses dos países ricos. Não deveríamos estar discutindo a possibilidade de internacionalização da Amazônia, mas o processo em andamento de internacionalização do Brasil.

7. É possível, pensando em conservação, a implantação de áreas que viabilizem corredores ecológicos criando faixas contínuas entre outras unidades de conservação de uso direto/indireto e terras indígenas?
Sim. Este é um dos princípios básicos recomendados por aqueles que planejam a conservação da biodiversidade. O primeiro princípio é que as áreas protegidas devem ser grandes, as maiores possíveis. Além do mais, como áreas isoladas tendem a perder biodiversidade rapidamente pela extinção de espécies e tais espécies só podem ser naturalmente reintroduzidas a partir de outras populações, conectar as áreas protegidas é fundamental.

É importante porém que se faça aqui uma observação quanto ao papel das reservas para a preservação da biodiversidade. Por mais proteção que recebam, estas áreas estão sujeitas a uma série de ameaças externas como a entrada de espécies invasoras e de fogo. É importante que se invista na proteção de reservas, mas para a preservação da biodiversidade precisamos adotar políticas de preservação para toda a extensão de nosso território. É equivocada a noção de que devemos cuidar das reservas e podemos esquecer o resto.

Quando vejo discutidos os planos de se criar grandes reservas na Amazônia, conectadas por um sistema de corredores ecológicos, ao invés de ser otimista, penso na destruição que vai acontecer nas áreas não contempladas com a condição de área protegida. Mesmo que conseguíssemos ter 20% da Amazônia em áreas oficialmente protegida e o conectadas, a situação da região ainda será terrível se não nos dedicarmos à preservação da floresta como um todo. Para citar apenas um dos diversos problemas, apenas a redução das chuvas causada pela destruição das florestas do entorno fará com que a mata das reservas e corredores seque, queime e se acabe.

Em grandes áreas da Amazônia, especialmente nas zonas de transição da floresta com ecossistemas periféricos, chove muito pouco em boa parte do ano. A base de pesquisas do Projeto Pinkaití está localizada justamente em uma destas áreas. Com o desmatamento no sul do Pará, as secas na região estão sepeixes.jpg (52209 bytes) tornando cada vez mais intensas. Ali a preservação da floresta é uma questão de tudo ou nada pois se as grandes áreas de floresta forem destruídas, toda mata que sobrar vai terminar queimando.

. Existe o "bom manejo"?
"Bom manejo" não significa nada. O termo "manejo" já podia ser qualquer coisa, agora com o "bom" ficou parecendo propaganda de sabão em pó, assim como Novo OMO. Trata-se de uma jogada de propaganda. O professor Paulo Kageyama nos explicou em mensagem ao Correio da Cidadania que as instituições nacionais e internacionais dedicadas ao manejo começaram seus planos falando em "manejo sustentável" e, após muitas críticas de vários lados, mudaram o seu discurso para o do "bom manejo".

Não há tecnologia no mundo que nos permita explorar madeira de áreas de mata virgem sem causar profundos danos ao meio ambiente. Esta exploração não é possível nas intensidades que estão sendo consideradas pelos manejadores de madeira, que se distinguem dentre os madereiros justamente por terem os tais planos de manejo. Mas vá dar uma olhada nos planos de manejo...Nós nem sequer temos acesso a esses documentos para poder discutir os seus problemas.

Agora se me perguntarem se é possível para o homem viver na floresta tropical, convivendo com as outras espécies e tirando seu sustento da mata sem destruí-la, ai a resposta é um enfático sim. Os povos indígenas do Brasil viveram por milênios na Amazônia sem destruir a sua cobertura florestal. É claro que não dá para voltarmos todos a viver como viviam os índios do Brasil, mas ao planejar as estratégias para a solução dos nosso problemas, precisamos parar de tentar imitar os modelos europeus e nos concentrar naquilo que o povo dessa terra tem a nos ensinar.

 


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Rodolfo Salm é pesquisador do Projeto Pinkaití, se formou em Biologia no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.

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