No país recentemente
campeão dos Jogos Parapanamericanos, as vagas de estacionamento para
portadores de necessidades especiais são ocupadas por qualquer um.
Nem sempre shoppings se preocupam em fazer cumprir a Lei.
No início de agosto o jornal “Diário do Grande ABC”
publicou a matéria intitulada “Deficiente defende vaga em
panfletos”. O texto dá conta da ação de duas amigas, moradoras de
Santo André, São Paulo, Sônia Polez (43) e Deise Polistchuck (53) Há
uma ano, mais ou menos, elas colocam panfletos de alerta (veja no
final da entrevista) em carros de motoristas que ocupam ilegalmente
vagas de estacionamento destinadas à portadores de necessidades
especiais (deficiência física). Sônia, auxiliar de secretaria,
convive há bastante tempo com esclerose múltipla (doença que destrói
a bainha de mielina do sistema nervoso central) e há mais de 15 anos
é cadeirante. Deise, psicóloga, com experiência clínica de 25 anos,
em suas horas de folga, acompanha e ajuda a amiga no dia a dia. Por
conta disso, o carro de Deise tem autorização para estacionamento em
vaga para deficiente, da qual ela faz uso apenas quando está com
Sônia. Entretanto, na maioria das vezes, as vagas são ocupadas por
carros sem autorização ou até por carros que têm o adesivo ou placa,
mas não transportam nenhum deficiente. Antes, elas discutiam com os
infratores, depois passaram a fazer uma campanha de alerta através
de panfletagem. A Agência Notisa entrevistou-as por telefone e email.
Notisa - O que é essa ação que vocês vêm
promovendo nos estacionamentos?
Deise e Sônia - A iniciativa é para
que se consiga verdadeiramente ter acesso ao uso de uma vaga de
estacionamento, visto que o próprio símbolo (desenhada na placa que
autoriza o estacionamento apenas para pessoa com necessidade
especial) é chamado símbolo de acesso internacional. A ação é uma
tentativa de conscientizar as pessoas, uma tentativa de buscar
olhares que compreendam a necessidade do outro e respeitem os
direitos, as leis. Uma tentativa de despertar nas pessoas aquilo que
chamamos do “ser cidadão”; fazer com que se percebam os direitos, as
necessidades do outro. É um convite ao “ser cidadão” para praticar a
cidadania, já que o cidadão é responsável pelo papel que joga na
rua, por não respeitar os sinais de trânsito etc. Acreditamos que
campanhas que lutam para que direitos coletivos adquiridos sejam
cumpridos sejam um grito para acordar aquilo de bom que está
adormecido em cada um.
Notisa - Como surgiu a idéia de
realizá-la?
Sônia e Deise - A campanha teve
início quando, cansadas de tanto confronto, começamos a alimentar a
idéia de fazer algo para colocar nos carros. Colocávamos alguns
bilhetes, até como uma maneira de aliviar a nossa impotência. Há
cerca de um ano, encontramos em um shopping um rapaz que estava
estacionando na única vaga livre com o símbolo de acesso
internacional. Perguntamos se ele realmente precisava da vaga. Ele,
apesar de portador de deficiência, retirou o carro, nos cedendo a
vaga, e se mostrou solidário ao nosso questionamento.Mostrou então
um panfleto que tinha feito. Desde então, abraçamos a idéia e
passamos a imprimir e a distribuir o panfleto, colocando nos carros
que encontrávamos estacionados irregularmente em vaga para
necessitados especiais. Deixamos de entrar em confronto e passamos a
convidar as pessoas a participarem de uma campanha de
conscientização.
Notisa - Vocês contam com a ajuda de mais
alguém?
Sônia - O trabalho é feito
efetivamente pela Deise que distribui os panfletos em todos os
lugares, minha participação é pequena em razão da dificuldade de
locomoção. Antes da reportagem publicada no “Diário do Grande ABC”
contávamos apenas com a ajuda da filha da Deise, também psicóloga,
que faz este trabalho em São Paulo capital. Depois da matéria,
recebi pedidos de algumas pessoas que se mostraram indignadas pelo
mau uso das vagas e que desejam colaborar, fazendo a distribuição
dos panfletos.
Notisa - Como é a legislação sobre o
assunto?
Sônia e Deise - A Lei Federal 7.405
de 12 de Novembro de 1985 torna obrigatória a colocação, de maneira
visível, do símbolo internacional de acesso em todos os serviços
para utilização dos portadores de necessidades especiais e o artigo
4º parágrafo XIX torna obrigatório o símbolo de forma visível nos
veículos que conduzem de portadores de necessidades especiais, seja
ele o motorista ou não.
Notisa – Quem pode usar a vaga e como ela
é conseguida?
Sônia e Deise - Tem direito à vaga
quem possui autorização através do Detran de sua cidade,
apresentando laudo médico e cópia de documentos pessoais. O direito
é oferecido a pessoas com capacidade reduzida definitiva ou
temporária: se definitiva, o Detran oferece autorização por 4 anos
renovando-a em seguida; se temporária, a autorização é feita pelo
tempo de prescrição do médico.
Notisa - Qual a punição para quem ocupa
as vagas de forma irregular?
Sônia e Deise - Pelo código de
trânsito a multa é de R$ 53,20, o inciso XVII é aplicável e além da
multa o motorista pode ter o veículo guinchado e perde 3 pontos na
carteira. Infelizmente é considerada infração leve.
Notisa - Como os infratores reagem ao
receber os panfletos?
Sônia e Deise - A maioria dos
panfletos é distribuída sem a presença do condutor do veículo –
colocamos no pára-brisa. Quando o condutor está presente, entregamos
ao mesmo. Este, após ler, normalmente, mostra-se constrangido e
retira o carro. Outros se justificam – “estão com pressa, têm
deficiente na família etc”. – e permanecem na vaga. Alguns reagem
agressivamente. Não só deixam o veículo estacionado da vaga, pois
contam com a conivência dos estabelecimentos que não solicitam a
retirada do mesmo, como nos questionam quanto a nossa autoridade
para estar agindo como “fiscais” da vaga.
Notisa - Como é feita a fiscalização
sobre as vagas dos shoppings?
Sônia e Deise - Em estacionamentos
dentro de estabelecimentos comerciais, o acesso a fiscais de
trânsito fica restrito, portanto eles não exercem lá a fiscalização
e autoridade, então fica a critério dos seguranças o zelo por tais
vagas. As infrações acontecem, em sua maioria, dentro de tais
locais, pois nenhuma punição é feita, já que os estabelecimentos não
fazem "a chamada de atenção" aos infratores. É espantoso o número de
pessoas que fazem isso sem constrangimento, contando que nada irá
acontecer. Entretanto, o Shopping ABC, um dos maiores shoppings da
região do ABC paulista, entrou em contato telefônico conosco
solicitando autorização para uso do panfleto, embora eu imagine que
tal não seje necessário. A gerente de marketing de lá nos disse que
a administração do shopping descruzou os braços e resolveu se
agregar a campanha.
Notisa - Psicologicamente, como funciona
esse chamamento de atenção sobre o sujeito?
Deise - Nosso trabalho coloca em
evidência um comportamento do indivíduo. Depende de cada um a reação
a isso. É importante lembrar que, quando colocamos o panfleto no
pára-brisa dos carros, as pessoas que passam pelo veículo lêem e,
com isso, contamos que estas também se conscientizem e não façam a
mesma coisa.
Notisa – Vocês percebem alguma mudança no
seu dia a dia, provocada por essa ação? As pessoas estão respeitando
mais esses espaços destinados a portadores de deficiência?
Sônia – para mim, a mudança por
enquanto é mais interna, a alegria em estar fazendo algo, o alívio
em sentir a possibilidade de fazer valer um direito, de garantir um
acesso. A Deise sempre me diz que limitação não é impossibilidade,
esta ação promove em mim a possibilidade de busca de participação
das pessoas, um obstáculo a menos dentre tantos encontrados.
Notisa - Vocês pretendem ampliar essa
ação de alguma forma?
Sônia e Deise – Sempre. Contamos com
todos que desejarem colaborar, seja na entrega dos panfletos ou
oferecendo um olhar atento que questione quando presenciar alguém
estacionando indevidamente, perguntando “se a pessoa observou que a
vaga é para portadores de deficiência física”. Alguns carros, por
exemplo, são estacionados nas faixas amarelas, entre uma vaga e
outra e já ouvimos pessoas dizendo que não existe necessidade de
tanto espaço. A maioria não sabe, mas quando estaciona entre as
vagas, na faixa amarela, impede o retorno do cadeirante ao carro,
pois aquele espaço é justamente para que a cadeira de rodas passe,
sem ele fica impossível entrar no carro por falta de espaço. Cada
pessoa que deixar de estacionar em razão desta campanha é uma
vitória, já conseguimos algumas, mas ainda falta muito.