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1)
Enfim, Gustavo Dumas ou Zeh Gustavo?
Ambos. Prováveis esquizofrenias futuras à parte, pretendo sempre repetir
ambos os escritores de mim: Dumas e Zeh. Quer algo que nunca falei? Tá, o Dumas
vem a ser o moço sofrido, firme caráter, o carregador de piano que o Zeh nunca
há de deixar de homenagear em seus temas. Mas o Zeh é o menino tímido que acabou
se impondo. Ao menos por enquanto.
2) Como você se interessou por literatura?
Nunca me interessei. Interesse é mercado. Eu não tenho interesse por nada – no
máximo cultivo uma curiosidade. Agora... tenho gosto, paixão – e, é raro, amor.
Acho que amo a arte. Acredito no entanto que na medida em que estes sentimentos
que aqui revelo forem se enfraquecendo, irei deixar a literatura. Nutro um
pensamento fixo sobre esse abandono que todo artista um dia deve alimentar e
acatar. A gente vai morrendo até morrer.
3) E sua relação com a música? Onde entra o samba
nessa sua formação, que segundo você é dada pela via da curiosidade?
Música é paixão, hoje ainda não ou pouco correspondida. Não sou músico. Mas faço
música. O samba me alfabetizou, musicalmente. Tanto que às vezes me acusam de só
gostar de samba. Acusação leviana, que rebato. Gosto de tudo que é bom e o
Brasil é grandioso na música, então gosto demais da música brasileira, cujos
braços tão poucos brasileiros abraçam, conhecem. Como eu estava falando, os
ecléticos entre aspas me acusam de só gostar de samba. Mentira! Mas é verdade,
sim, que o samba me deu os fundamentos para compreender e ir buscar a música
brasileira, mesmo contemporânea, em seus recônditos.
4) O seu livro “Idade do Zero” foi muito aceito e
elogiado. Você também já recebeu vários prêmios. O que você acha disso? Qual a
sua opinião sobre eles? E sobre a crítica? É importante ser bem-quisto?
Não acho importante ser bem-quisto não. Acho oportuno. Como não sou
oportunista... Em alguns momentos históricos, como o nosso, mais vale ser
malquisto ou ignorado por certos meios. Boa parte da crítica e do jornalismo
hoje é comprada, bandalha, jabá. Sinceramente, não me faria bem estar dentro,
tipo lobista-sistemão. Ficaria constrangido. Mas, ainda assim – ignorado pela
mídia subalterna ao capital, alheio às majors do setor editorial –,
consegui poucas e boas críticas, de pessoas que se apresentam como sujeitos e
não objetos do chamado “meio literário”. Outro fato que me deixa satisfeito é
que foi no ano de 2006, posterior ao ano do lançamento do livro, que surgiram
pedidos de entrevistas, não encomendadas e sim provindas de jornalistas honestos
e diletantes que vivenciam e são capazes de se situar no nosso ambiente
cultural. Muito me honra que estes camaradas – se me permitam assim os chamar –
tenham buscado essas entrevistas assim, depois de um tempo razoável do
lançamento. Sinal que leram. Não tenho motivos de sobra para me sentir grato,
dado o nível das relações atuais no jornalismo cultural?
5) O que você acha da banalização do uso da
internet pelo escritor? Pois agora, com os blogs e tudo mais, todos podem ser
escritores...
Poder ser escritor é forte demais, todos podem. Poder cria deveres. Mesmo os
escritores medíocres têm de assumi-los. Não basta internet, que é uma puta
ferramenta, nada contra. Mas não basta. Precisa leitura. E literatura. E viver,
sem calçar salto alto. Escritores são criaturas das mais arrogantes, e se eu
estivesse nos meus piores dias seria capaz de acompanhar Bukowski e dizer que
escritores são, inclusive, desprezíveis. Mas estou bonzinho, fica apenas a
lembrança... Como é que um cara que escreve não é curioso, não compra livros,
não lê, ou não lê os contemporâneos, ou não sabe o que é seu tempo? Isso é ser
escritor?! Outra coisa que me enoja são os escritores anti-sépticos. Que câncer!
E a editorialada burguesa adora, se esbalda...
6) O que te move a escrever?
Mover, deslocar sentidos. Justo isso.
7) Por que o título “Idade do Zero”?
Acredito ou quero acreditar em permanentes recomeços, em processo. Nunca
acreditei nesta estória de fim da história. Balela, ou melhor, coisa plantada.
Creio no zero, em pontos para se reconstruir e se dizer tudo que porventura já
tenha sido dito de uma maneira diferente. O zero é uma “replanta” a ser colhida,
uma proposta de lúdico sobre elementos os mais diversos que por um motivo ou
outro deixaram secar seu lirismo. A idade é o agora, tão carente, coitado!
8) A desconstrução de termos e palavras é bastante
presente no seu livro, já até li que isso parece um vício seu. Isso é
proposital?
Se for para considerarem que sou um viciado, sou sim. Adoro desconstruir, porque
desconstruir não é destruir, é construir. Desconstruir é reforço mudativo do que
se tem, se me é consentido neologizar numa hora dessas.
9) Quais são seus poetas favoritos?
Vou entender como poetas os que portam senhas de lirismo. E vou nos brasileiros.
Então... Rosa, Cabral, Manoel de Barros, João Antônio, Antônio Fraga, Noll,
Raduan Nassar. E o indecente do Chico Doido de Caicó.
10) E compositores, músicos?
Gosto de movimentos como os que Xangai, Teca Calazans, Elomar propagam. Amo
Ceumar, Passoca, Sérgio Ricardo, Zé Kéti, VG da Portela, Xangô da Mangueira,
K-Ximbinho, Antônio Jardim, Aldir. Descobri recentemente o Zé Côco do Riachão. E
gosto de cantar samba-de-breque.
11) Há outra mania sua além de esquecer as chaves de casa?
Se há a pergunta, é porque outra mania deve haver. Mas... Esqueço as chaves
porque desde que nasci procuro casas pra morar. Casa inclusive é uma palavra
toda cheia das significâncias! E costumo morar muito solitariamente. E os dias
têm me amanhecido com muita rapidez, de maneira que a luz solar repentina invade
minha madrugada e isso me cega e me descortina, fazendo comum a perda das chaves
para o provocamento de eu ter de ir me procurar. Então fico por aí, à la bocó. E
não sei bem se quero que as chaves me apareçam!
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