1 – Em uma frase: qual é a perspectiva do quase?
É a perspectiva de um antes perdido, de um
ente em redesenho e de um dentro partido que se volta para fora.
2 – Fale um pouco da sua poesia, do seu propósito poético
e de como se dá seu processo criativo.
Entendo que minha poesia responde,
sobremaneira, a um ímpeto meu, que é promover uma crítica da linguagem
com o olhar direcionado para aspectos de poder imanentes e
constantemente mal notados no uso que os grupos de dominação fazem da
linguagem. A poesia talvez suporte como nenhum outro gênero esta
potencialidade, transgressiva em essência, de desvirtuamento de lugares,
de deslocamento de aptidões sígnicas. O tempo da poesia é um tempo de
corte, com o jogo de apoio-e-impulso não-linear típica da construção em
versos. Meu processo criativo se funda, pois, no reconhecimento deste
fluxo e na afirmação daquela força expressiva tão próprios, a meu ver,
da poesia.
3 – Os seus livros e artigos publicados anteriormente
te sublinham como um artista de muitas inquietações. Você é um inquieto
ou um desconstruidor?
Durmo pouco, ando para um lado e para o outro
quando falo ao telefone e acho que vou morrer a qualquer momento. Sou um
inquieto, não?! Só desconstruo, com minhas obrinhas, se é que o faço,
edifícios cujos alicerces já se encontram suficientemente apodrecidos.
4 – Qual a sua perspectiva da desconstrução?
Escrever não é outra coisa senão selecionar,
eliminar, combinar elementos conceptivos. Não existe, por isso mesmo,
criação sem descriação, artefato sem expurgo. Fazemos opções e estas vão
revelar que tipo de sujeito criador representamos. Normalmente,
utiliza-se a pecha da desconstrução para enquadrar trabalhos que,
do ponto de vista estético, oferecem resistência a um rotulamento
imediato. Trata-se de um juízo de valor no trânsito para o depreciativo,
no sentido de que pode vir a isolar uma determinada criação ou criador,
e que revela nítida desorientação crítica diante de algo que ainda não
foi analisado com o devido rigor e entrega. A minha perspectiva de
desconstrução nada traz de novidade: é o eterno diálogo entre o que já
existe como repertório, comum ou individualizado, com o que se deseja
construir de único, indizível por outrem e, portanto, digno de
perpetuação.
5 – Que autores influenciaram sua forma de escrever?
Acabo de responder uma pergunta idêntica, para
o Algo a Dizer de abril... Posso falar então de autores que me
influenciam ou me agradam ou me influenciarão para breve, contemporâneos
meus?! Bom, vou só de quatro poetas que li mui recentemente: Tonico
Mercador, Elida Escaciota, Fabio Weintraub e Pedro Candela. Este último
assina a orelha do recém-nascido “A Perspectiva do Quase” e compusemos
uma valsa juntos, chamada “Doidivina”.
6 – Consegue definir qual é a cara do seu leitor?
Meu leitor não é uma mesa. É um sujeito
histórico. Em geral sensível, bacana e bom de copo e de papo.
7 – Onde começa e onde termina o Gustavo Dumas e o Zeh
Gustavo?
Eis uma fronteira interessante, mal demarcada,
cujo paralelo é a própria fronteira entre os gêneros textuais. O Dumas é
o cara mais serinho e melancólico, do artigo, do conto, do panfleto,
até. Já o Zeh é metido a engraçadinho, faz poesia, compõe samba e valsa,
toma todas – não que o Dumas seja propriamente um abstêmio (risos)...
Pretendo aproximá-los – quem sabe em um livro com duas assinaturas?!
8 – De que forma você vê a cultura popular nos tempos
atuais de globalização?
Creio que as condições atuais apenas extremam
um longo processo de massificação do gosto e pasteurização das
manifestações de origem popular que vem consolidar no imaginário
coletivo o fetiche do produto alienado. Ponho em dúvida a existência
efetiva da oposição popular/erudito nos dias de hoje, até porque a
cultura dita erudita teve de buscar público e até força de trabalho fora
de seus ambientes tradicionais, com os efeitos da uniformização
atingindo as classes mais abastadas economicamente. Por outro lado,
perfazendo uma via de contramão, vejo parte dos agentes da cultura
popular com disposição, ao menos no Brasil, para um soerguimento
efetivo. Mas para isso é preciso ensejar uma disputa dura, desgastante,
em vários setores da vida social acostumados com a dopagem do
entretenimento pelo entretenimento. Uma coisa me parece certa: voltamos
a incomodar!
9 – Quanto à divulgação de seus trabalhos... A
internet tem contribuído para a difusão de sua obra?
A internet tem contribuído, sim. Contudo, o
que confere credibilidade ainda é a boa e velha publicação de papel e,
claro, uma ou outra matéria que publicam. Na internet falta o recorte:
se difunde tanto, e tanta coisa, que muito se perde.

Foto: Jaqueline Novaes -
P@rtes - 2008
10 – Me fale um pouco sobre o mercado livreiro.
O mercado livreiro me soa como um mercado de
bens em franca expansão. Proporcionalmente, no entanto, e descontados os
fenômenos pontuais e midiáticos, a participação da literatura neste
mercado vem encolhendo, em números e, por isso, em importância. A
literatura perde espaço para o utilitarismo da mensagem pronta e até
para a curiosidade mórbida de quem pára para ler, por exemplo, as
agruras profissionais de Bruna Surfistinha. A literatura perde espaço
nos meios (supostamente) intelectuais, com a visão estreita da
tecnicização, da especialização da especialização da especialização,
corrente na chamada “vida acadêmica”, que de vida tem bem pouco. A
literatura perde espaço, ainda, por conseqüência do sucesso de algumas
boas políticas públicas para o livro e para a educação básica, que, para
efetivarem este alargamento substancial da base de leitores e de gente
estudada que vimos nas últimas duas décadas, precisaram ceder na
qualidade e na disciplina do estudo, da leitura, da capacidade crítica.
Mais existe um outro drama, relevantemente revelador: o pouco crédito da
poesia, em particular, nos meios que se definem como pensantes. Isso me
leva a crer, pelos motivos expostos anteriormente, que estes meios estão
pensando é pouco, isso sim! Como um efeito surreal deste péssimo
cenário, acontece um aumento considerável do número de poetas, em parte
porque falta discernimento crítico e sobra ego, mas não pode ser só
isso. Tenho o palpite de que há uma percepção geral, porém ainda em
estágio embrionário e diluído, de que a poesia pode constituir um
front discursivo capaz de atordoar e pôr a corroer a cultura do
espetáculo, pelas suas margens. E me parece óbvio que as grandes
editoras não vão patrocinar uma maluquice dessas, não é mesmo?
11 – Por último, mas não menos importante: qual a
pergunta que ninguém tem feito para você?
Não lembro de nenhuma em especial, mas sinto
falta de pesquisarem vínculos, associações entre meus livros. Cada livro
que escrevo e lanço é recebido como se fosse o primeiro. E na verdade
pode ser o último.
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