Rio de Janeiro – O Programa Saúde da Família (PSF) criado há 15 anos pelo governo federal revolucionou o sistema de saúde no Brasil. No entanto, a estratégia, voltada para a atenção primária, não tem conseguido acompanhar as mudanças dos tempos e corre o risco de fracassar, fragmentando e precarizando o sistema de saúde como um todo. Essa é a opinião do médico generalista espanhol Juan Gérvas, que atua há mais de 40 anos na área de assistência primária e saúde pública, com estudos publicados em diferentes países.
Gérvas está no Brasil há cerca de um mês, juntamente com Mercedes Pérez, também médica de família, visitando centros de saúde de 40 cidades à convite da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). O resultado da visita será um relatório com análises e diretrizes a ser entregue ao Ministério da Saúde.
O especialista concedeu uma entrevista à Agência Brasil sobre o tema. Abaixo, os principais trechos da conversa.
ABr: Qual
a avaliação que o senhor faz do Programa Saúde da Família?
Gérvas: A
estratégia de medicina de família revolucionou a atenção primária no
Brasil e é um triunfo louvável. Entende-se que há vinte anos, o
Brasil já havia desenvolvido essa atenção primária para pobres, mas
não basta ter uma história bonita. Um sistema sanitário para pobres
termina sendo um pobre sistema. Essa história tem que mudar para
potencializar o sistema, senão os gastos de saúde vão chegar a
níveis insuportáveis, como nos Estados Unidos, da ordem de 18%, onde
não se investe em prevenção universal. No Japão, esse percentual
chega a 8%, na Alemanha, entre 10% e 12%. Nos Estados Unidos vemos
um sistema fragmentado com planos de saúde, convênios, empresas que
têm planos privados. Isso encarece e enfraquece a saúde da
população. Os norte-americanos têm mais do que o dobro de amputados
por diabetes do que nos demais países desenvolvidos, casos que
poderiam ser evitados se houvesse uma atenção primária forte.
ABr: O
que fazer para que não ocorra essa fragmentação e precarização do
sistema no Brasil?
Gérvas: Tornar
o Programa Saúde da Família uma estratégia de Estado, um sistema
universal. Dotá-la de meios para que possa responder, em um país
moderno, às necessidades da população. E oferecê-la também às
classes médias e altas. Na Europa, no Canadá ou na Nova Zelândia,
onde existe um sistema único consolidado e elogiado, os médicos de
família atendem as pessoas sem distinção de classe. Os mais pobres
tendem a reclamar menos, têm poucos mecanismos de rejeição, são
menos exigentes que a classe média. Por exemplo, as salas de espera
de alguns centros que visitamos são de um país terceiro-mundista,
num país que é a oitava potência mundial. E ninguém reclama. Então o
momento é agora. Ou o Brasil opta por um sistema único primário
forte como o Reino Unido e outros países ricos ou por uma atenção
primária debilitada como os Estados Unidos, em que tudo fica na mão
de especialistas. Os especialistas, por melhor que sejam, não
conhecem o histórico do paciente como um médico generalista, e
acabam sendo perigosos, no fim das contas, pois a combinação de
medicamentos pode ser mortal.
ABr: Muitos
médicos de saúde primária se queixam de baixos salários e do vínculo
empregatício instável por não serem funcionários públicos e alegam
que esses dois fatores contribuem para a alta rotatividade nos
centros de saúde e a falta de médicos em áreas como pediatria e
ginecologia. O que o senhor pensa sobre isso?
Gérvas: A
rotatividade é muito prejudicial na assistência primária, pois o
médico de família precisa conhecer bem os pacientes e a comunidade e
só o tempo possibilita esse vínculo e diminui os gastos públicos. No
entanto, não acredito que o problema seja necessariamente o valor do
salário ou o vínculo empregatício. O que é necessário sempre são
incentivos. Na Espanha, por exemplo, somos funcionários públicos,
mas ainda assim existe alta rotatividade, pois muitas vezes as
condições de trabalho são precárias e falta estímulo. Um incentivo
pode ser, por exemplo, para que o médico permaneça no mesmo lugar.
Ou seja, um médico recebe um pouco de incentivo no segundo ano
trabalhando num determinado centro, um pouco mais no terceiro e
assim por diante e se sai desse centro perde o incentivo. Pode ser
dinheiro, pode ser bolsa acadêmica, benefícios outros.
ABr: O
senhor já visitou dezenas de centros de saúde da família de oito
capitais brasileiras. Que impressões tirou até o momento?
Gérvas: Os
recursos humanos são excepcionais, assim como a abrangência em
algumas cidades. Ao mesmo tempo, falta uma medicina moderna. Por
exemplo, um paciente que está de cama, não precisaria sair de casa,
como ocorre aqui, para fazer exames simples como o de sangue. Na
Europa, médicos e enfermeiros levam tiras de urina e materiais
descartáveis para tirar o sangue em suas maletas. Falta nos centros
brasileiros um pequeno equipamento chamado debitómetro, que não
custa muito e que é essencial para o controle da asma. Outro
equipamento que deveria estar presente nos centros é o espirômetro,
um pouco maior que um celular, que possibilita medir a capacidade do
pulmão, sem que o paciente tenha que procurar um pneumologista. Ou
seja, são coisas muito elementares, pouco onerosas. Não tem
cabimento que um agente de saúde vá visitar seus pacientes com um
celular pessoal ultramoderno, porém, um bolo de papéis com as
informações de cada paciente, em vez de usar um laptop, notebook ou
mesmo tablet para
fazer anotações das visitas e poder enviar e receber esses dados.
ABr: O
senhor acredita que exista pressão por parte de grandes grupos
coorporativos de planos de saúde e laboratórios para que o sistema
de atenção primária não se consolide?
Gérvas: Não
acredito em teorias da conspiração. Creio que o problema é uma
confiança exagerada no modelo atual, que funcionou bem por muito
tempo. Mas a tecnologia mudou, a sociedade e o país precisam
acompanhar essas mudanças. O perfil epidemiológico no Brasil mudou;
antes os maiores problemas eram as infecções, a natalidade, as
doenças contagiosas. Hoje, vemos a população morrer mais de câncer,
problemas de coração, doenças mentais degenerativas. Agora é o
momento de redesenhar esse modelo, aproveitando o que há de bom e
oferecer uma medicina moderna, onde o médico de família seja o
centro e o filtro para as outras especialidades.
Edição: Lílian Beraldo
