.ISSN 1678-8419  

                                                          Revista Partes - Ano IV - 02/02/2006 21:25:10 

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::Entrevistas::

 

Entrevista: José Eisenberg (Doutor em Ciência Política pela New York University)

 

Em entrevista exclusiva à Agência Notisa, Eisenberg aborda a influência do medo na legitimação das instituições e afirma: “a visão freqüentemente propagada de que o cidadão brasileiro médio tem baixa confiança nas instituições, pouco respeito às leis e uma cultura política peculiar sintetizada na expressão ‘jeitinho brasileiro’ é um dos preconceitos mais antigos e equivocados da nossa história recente”.

No artigo intitulado "O político do medo e o medo da política", publicado na edição de janeiro a abril de 2005 da “Lua Nova: revista de cultura e política”, o cientista político José Eisenberg, professor adjunto do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), teoriza a respeito da influência do medo como o elemento principal da criação e da manutenção das instituições públicas. Explorando os universos de cientistas políticos ilustres, Eisenberg, em entrevista à Notisa, relaciona seu ponto de vista com os fatos políticos recentes e com a realidade do cidadão brasileiro.

Notisa - No início de sua dissertação sobre sociabilidade, o senhor afirma que o homem é um ser social pela necessidade de conter seu próprio medo, chamando esse comportamento de sociabilidade reflexiva. O que é a sociabilidade reflexiva e que tipo de comportamento ela gera?

Eisenberg - A sociabilidade reflexiva, em oposição à sociabilidade natural preconizada pela tradição aristotélica, constitui evento singular na trajetória de uma ou mais civilizações em que o medo da servidão propulsiona os cidadãos a buscar formas de coordenar a ação coletiva visando à superação deste próprio medo. A descoberta de que a coragem de superar o medo só pode ser engendrada em movimento social/coletivo, contra a dominação, é elemento da reflexividade desta sociabilidade: ela é reflexiva porque depende da consciência da presença do medo.

Notisa - Esse comportamento pode ser comparado ao posicionamento da sociedade brasileira quanto à crise política instaurada atualmente?

Eisenberg - Travessias da teoria política para uma análise da conjuntura atual são sempre temerárias, ainda que tentadoras. O tema do medo foi trazido ao debate público com muito vigor pela candidatura Serra nas eleições de 2002. O impacto na opinião, porém, não foi o esperado; a campanha de Serra identificou corretamente a existência de um nicho de eleitores "com medo" do que Lula representava, mas não compreendeu que os eleitores também estavam sinalizando que não tinham medo do medo que sentiam; tiveram coragem de enfrentá-lo.

Notisa - Segundo o texto, a obediência provém do dever cívico, que, por sua vez, decorre do medo. Como poderiam ser categorizados, então, aqueles que infringem as leis de maneira natural – através, inclusive, do famoso ‘jeitinho brasileiro’ –, pervertendo essa lógica?

Eisenberg - Não há infração das leis que seja "natural". Ela é sempre um gesto intencional de um ator, quaisquer que sejam as intenções imputadas a esta infração. A visão freqüentemente propagada de que o cidadão brasileiro médio tem baixa confiança nas instituições, pouco respeito às leis, e uma cultura política peculiar sintetizada na expressão "jeitinho brasileiro" é um dos preconceitos mais antigos e equivocados da nossa história recente. O cidadão brasileiro é, em geral, mais obediente às leis do que propagam seus detratores, e geralmente cumprem seus deveres cívicos, seja por virtude ou por temor. A desobediência maior às leis neste país advém do comportamento arrogante e irresponsável das elites, que buscam nesta generalização uma forma de ocultar o seu baixo nível de obediência às leis e desdém pelos deveres cívicos. O cidadão comum, quando desobedece, em geram o faz como gesto de coragem e resistência, ciente das injustiças que certas leis reproduzem.

Notisa - Qual o papel do medo na soberania e na legitimidade de uma nação?

Eisenberg - A soberania nacional – a liberdade republicana da nação perante outros atores internacionais e sua capacidade de determinar, através de seus governantes, seus próprios destinos – é inevitavelmente o resultado de um jogo de forças políticas e econômicas circunscritas a cada momento histórico. A globalização financeira nos tornou um país menos soberano nas nossas decisões de condução de políticas macroeconômicas, por exemplo; ao mesmo tempo, entretanto, a nossa posição de país continental em uma América do Sul "guinando" para a esquerda tem legitimado o papel de liderança internacional do governo Lula. Os caminhos do medo, enquanto sentimento moral, e da soberania, enquanto realidade política, são longos e tortuosos, e do ponto de vista da legitimidade de um governo, temos sempre que admitir que o medo legitima e não constitui de forma alguma instrumento de coerção.

Notisa - Qual o medo reproduzido em regimes totalitários e o medo reproduzido em regimes democráticos?

Eisenberg - Regimes totalitários dependem de um corpo cidadão que tem medo de ter medo e que, portanto, angustia e paralisa a si próprio. Regimes democráticos dependem dos cidadãos terem coragem de trazer à esfera pública seus medos para legitimá-los no debate político.

Notisa - Segundo estudiosos, o brasileiro é um político sazonal, porque imagina exercitar sua cidadania somente em época de eleições. Porém, existem registros de que, à época de eleições, a participação política brasileira é bastante expressiva e cada vez mais as pessoas procuram se informar e ter opinião a respeito do que acontece no centro do poder. Segundo a lógica exposta no artigo, por que esse aumento sazonal acontece?

Eisenberg - Votar no Brasil é um dever cívico, e o brasileiro não se furta de exercê-lo. Nossas taxas de votos nulos, brancos e abstenções são comparativamente baixas, em parte pelo caráter obrigatório do voto, mas também porque o cidadão comum reconhece no pleito eleitoral uma real oportunidade de participar da escolha dos governantes. A participação extra-eleitoral sempre foi expressiva em nosso país, basta observar a histórias dos novos movimentos sociais em nosso país desde a redemocratização, e até mesmo durante o período autoritário que o antecedeu. Somos um povo com medo da pobreza, da miséria, em suma, da carência universalizada em prol da riqueza despudorada de poucos, mas somos também um povo prudente que tem coragem de buscar caminhos para a superação deste medo em instituições e práticas (formais e informais) que escapam à inexorável lógica desfavorável que o jogo político-eleitoral impõe ao cidadão comum. Onde voto virou dinheiro e política virou mercado, o cidadão que quer preservar sua dignidade freqüentemente recorre à economia informal para produzir recursos, e para outras instituições como o Poder Judiciário e as Igrejas para garantir seus direitos conquistados.

Agência Notisa (jornalismo científico – science journalism)

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 Carta a um velho amigo
Por Sandra Kezen

Sobre o entrevistado


 


 José Eisenberg é professor adjunto do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj)


 


 


 



 


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