Quem acompanha o carnaval paulista pela televisão não imagina o
quanto de história de lágrimas, sofrimento e até sangue, se esconde por trás dos
sorrisos dos sambistas. Principalmente daqueles mais antigos.
Madrugada do último sábado de carnaval, a escola de samba Vai-Vai
ocupa o sambódromo do Anhembi. O luxo, a empolgação e a alegria que vêm lá da pista
contaminam os milhares de simpatizantes e torcedores que acompanham ao desfile. "O
carnaval de São Paulo não deve nada ao do Rio", arriscam alguns. Dois dias de
desfiles, cobertura ao vivo pela TV, infra-estrutura fornecida pela prefeitura e
segurança garantida pela polícia militar.
Final dos anos cinqüenta, integrantes do cordão carnavalesco Vai-Vai
da Saracura são perseguidos por policiais, acionados por alguns moradores incomodados com
a manifestação barulhenta daquela gente "malandra e perigosa". Os homens da
lei não têm dúvida, a ordem é prender os baderneiros e quebrar seus instrumentos.
Talvez dessa vez eles aprendam a respeitar as pessoas de bem.
Estes são dois retratos de momentos distintos do carnaval paulistano.
Quem acompanha hoje o crescimento da festa popular pela televisão não imagina o quanto o
pessoal da "velha guarda"- termo que designa carinhosamente aqueles que no
passado lutaram para manter vivas as tradições e o direito de manifestação popular
sofreu e foi perseguido por uma sociedade que via neles uma ameaça à moral e aos
bons costumes.
Histórico
A perseguição às manifestações culturais dos africanos chegou
ao Brasil junto com os primeiros navios negreiros. Dispostos a facilitar o processo de
escravização, os mercadores de escravos separavam famílias inteiras e rebatizavam seus
cativos com nomes portugueses. A intenção era tornar os negros mais dóceis, uma vez que
os mesmos não deveriam alimentar expectativas de fuga ou de retorno para seus lares.
Depois de transferidos para as fazendas e engenhos, aos negros era
proibida a manifestação religiosa, que envolvia o uso de instrumentos de percussão,
como atabaques e tambores. Estas manifestações eram vistas pelos senhores e pela Igreja
como demonstrações de paganismo, o que causava profundo incômodo em uma sociedade que
se pretendia européia.
Com o tempo, a queda de braço entre senhores e escravos estabeleceu um
meio termo. Os africanos fingiam estar apenas festejando enquanto coronéis e padres
fingiam acreditar. Com a abolição da escravatura e a expulsão dos negros para as
periferias das emergentes cidades de então, começaram a surgir as reuniões religiosas e
culturais, que mais tarde dariam origem aos blocos carnavalescos e escolas de samba
modernos.
Segundo a pesquisadora do carnaval paulistano e coordenadora do
curso de turismo da Universidade Paulista, Marizilda Carvalho, o período que vai da
abolição até os anos 70 é marcado por muitas perseguições aos descendentes de
africanos. "O negro era tido como um delinqüente, enquanto o carnaval era um
movimento de elite. Se procurarmos nos jornais deste período não vamos encontrar nada
sobre o carnaval de negros. Só destaques negativos", afirma a pesquisadora.
Mencionando o Código de Posturas Municipais datado de 1882, Marizilda mostra que esta era
uma percepção oficial e não simplesmente preconceituosa de algumas partes da sociedade.
Em seus artigos 188 e 189 a lei determinava:
"Fica proibido o jogo do entrudo, (segundo o dicionário
Aurélio, folguedo carnavalesco antigo, que consistia em lançar uns aos outros água,
farinha, tinta, etc.) qualquer pessoa que jogar incorrerá na pena de 4 a 12 mil réis.
Não tendo como satisfazer sofrerá dois dias de prisão, sendo escravo sofrerá oito dias
de cadeia e o seu Sr. Poderá ainda castigá-lo com cem açoites".
Nos anos vinte o código não faria menção explícita a nenhum grupo
étnico, mas proibia a manifestação dos cordões carnavalescos. "Ora", afirma
a pesquisadora, "o carnaval dos cordões era o carnaval praticado pelo negro, pois o
carnaval do branco era o carnaval dos salões ou dos corsos (desfile de carros)",
completa.
Com o tempo e a persistência dos foliões, a própria prefeitura
paulistana acabaria por organizar a festa de momo, criando em 1935 premiações e
estabelecendo locais específicos, como a avenida São João, e ordem de entrada para a
apresentação de blocos e cordões.
Rivalidades
Mas os carnavalescos também brigavam entre eles. Algo como as
torcidas organizadas no futebol hoje em dia. A rivalidade era tão grande que as chamadas
comissões de frente das escolas tiveram origem nos chamados balizas e batedores.
Capoeiras, que por vezes andavam armados com canivetes e bastões para defender o grupo
das agremiações vindas de outros bairros.
Algumas vezes estas diferenças apareciam em provocações mútuas
feitas pelos ritmistas dos diferentes grupos, que proporcionavam verdadeiros desafios
sonoros para ver quem tocava mais alto e melhor, ou degeneravam mesmo em brigas
generalizadas. A um integrante do Camisa Verde não se admitia que saísse da Barra Funda
para acompanhar aos ensaios da Vai-Vai no Bexiga. Por outro lado, se um integrante do
cordão da Bela Vista fosse reconhecido fora de seus domínios corria um sério risco de
apanhar. Por que? Simplesmente porque ele pertencia a um outra associação.
Talvez estas desavenças entre os sambistas tenha contribuído para
alimentar certos preconceitos por parte de quem não gostava muito daquela alegria
impulsionada por instrumentos marcantes e barulhentos.
Reunião de Bambas
"Em 1953 o samba ainda era marginalizado", conta Nelson
Primo, integrante da velha guarda da Camisa Verde e Branco. "Quando subíamos a São
João para o desfile, tinha gente que jogava até lata de mijo na gente", completa o
veterano.
Outro veterano dos carnavais, Manoel Vitório Alves, mais conhecido
como Feijoada, lembra que algumas ruas eram proibidas aos sambistas. "Era pôr os
pés ali e os moradores chamavam a polícia, que já chegava batendo. Era o caso da rua
Jaceguai, por exemplo", recorda.
Mas não era só nos dias de desfiles que os foliões enfrentavam
problemas. "Passamos por coisas muito desagradáveis no samba em São Paulo. A
própria imprensa era contra. Tenho uma reportagem em casa que diz Polícia Invade
Ensaio da Vai-Vai . Isso foi ali na praça Gloriosa numa quinta-feira anterior ao
carnaval. Nesse dia foi uma correria danada. Eles vinham e quebravam nossos
instrumentos", diz Feijoada.
A repressão então era brava? Segundo Paulo Henrique, o Paulinho, o
tratamento dispensado era o mesmo que para os marginais. "Conheço história de gente
que foi obrigada a tirar o instrumento do estojo e tocar pra provar que era músico. Veja
a que ponto chega a repressão", afirma com uma ponta de indignação. Bom, mas se a
repressão era tão forte assim por que insistir? Quem responde é Eduardo Joaquim, o
Dadinho. "O que sempre me fez voltar era a vontade de resistir. Não é porque batiam
o pé é que íamos correr." Com ele concorda dona Cleuzi Rodrigues Penteado, outra
importante dama do carnaval paulistano. "Como eles não gostavam da nossa cultura
eles não aceitavam, mas o samba está em nós, nascemos nele e ele está no nosso
sangue", completa orgulhosa.
Resistência e Tolerância
A verdade é que toda esta determinação rendeu aos sambistas a
deferência que recebem, pelo menos nos dias que antecedem o carnaval. Para a pesquisadora
Marizilda as mudanças são nítidas em termos de organização, divulgação e
aceitação. "Eles resistiram e lutaram muito para chegar onde estão hoje",
pondera. Contudo, ela lembra que a questão do negro em particular ainda é muito mal
resolvida, principalmente na mídia. "Historicamente vamos encontrar na imprensa
menções ao carnaval do branco. Acho que este padrão, de certa maneira, perdura até
nossos dias. Os jornais não falam sobre os negros, usam o termo comunidade",
completa.
Esta falta de deferência e o espetáculo televisivo em que se
transformou o carnaval, de certa maneira incomoda os antigos sambistas. "Hoje tem
muita gente que sai no carnaval não tanto por amor à escola, mas sim por status. Gente
que antes virava o nariz agora quer contar pra todo mundo que saiu nesta ou naquela,
queixa-se Nelson Primo.
De qualquer maneira o carnaval paulistano cresceu tanto e vem se
tornando tão popular, que o famoso comentário do poeta Vinícius de Moraes: "São
Paulo, túmulo do samba" já não pode ser repitido aos quatro ventos. Isto porque
cada vez mais paulistanos e visitantes, das mais diversas origens, se rendem aos encantos
das escolas, seus carros alegóricos e passistas. "Que ironia né, antes a polícia
corria atrás de nós pelas ruas, agora eles abrem caminho pra gente desfilar no
sambódromo", observa dona Cleuzi. |