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Samba. A Resistência da Cultura Popular Contra a Intolerância
Por: Márcio Sampaio de Castro

Quem acompanha o carnaval paulista pela televisão não imagina o quanto de história de lágrimas, sofrimento e até sangue, se esconde por trás dos sorrisos dos sambistas. Principalmente daqueles mais antigos.

Madrugada do último sábado de carnaval, a escola de samba Vai-Vai ocupa o sambódromo do Anhembi. O luxo, a empolgação e a alegria que vêm lá da pista contaminam os milhares de simpatizantes e torcedores que acompanham ao desfile. "O carnaval de São Paulo não deve nada ao do Rio", arriscam alguns. Dois dias de desfiles, cobertura ao vivo pela TV, infra-estrutura fornecida pela prefeitura e segurança garantida pela polícia militar.

Final dos anos cinqüenta, integrantes do cordão carnavalesco Vai-Vai da Saracura são perseguidos por policiais, acionados por alguns moradores incomodados com a manifestação barulhenta daquela gente "malandra e perigosa". Os homens da lei não têm dúvida, a ordem é prender os baderneiros e quebrar seus instrumentos. Talvez dessa vez eles aprendam a respeitar as pessoas de bem.

Estes são dois retratos de momentos distintos do carnaval paulistano. Quem acompanha hoje o crescimento da festa popular pela televisão não imagina o quanto o pessoal da "velha guarda"- termo que designa carinhosamente aqueles que no passado lutaram para manter vivas as tradições e o direito de manifestação popular – sofreu e foi perseguido por uma sociedade que via neles uma ameaça à moral e aos bons costumes.

Histórico

A perseguição às manifestações culturais dos africanos chegou ao Brasil junto com os primeiros navios negreiros. Dispostos a facilitar o processo de escravização, os mercadores de escravos separavam famílias inteiras e rebatizavam seus cativos com nomes portugueses. A intenção era tornar os negros mais dóceis, uma vez que os mesmos não deveriam alimentar expectativas de fuga ou de retorno para seus lares.

Depois de transferidos para as fazendas e engenhos, aos negros era proibida a manifestação religiosa, que envolvia o uso de instrumentos de percussão, como atabaques e tambores. Estas manifestações eram vistas pelos senhores e pela Igreja como demonstrações de paganismo, o que causava profundo incômodo em uma sociedade que se pretendia européia.

Com o tempo, a queda de braço entre senhores e escravos estabeleceu um meio termo. Os africanos fingiam estar apenas festejando enquanto coronéis e padres fingiam acreditar. Com a abolição da escravatura e a expulsão dos negros para as periferias das emergentes cidades de então, começaram a surgir as reuniões religiosas e culturais, que mais tarde dariam origem aos blocos carnavalescos e escolas de samba modernos.

Segundo a pesquisadora do carnaval paulistano e coordenadora do curso de turismo da Universidade Paulista, Marizilda Carvalho, o período que vai da abolição até os anos 70 é marcado por muitas perseguições aos descendentes de africanos. "O negro era tido como um delinqüente, enquanto o carnaval era um movimento de elite. Se procurarmos nos jornais deste período não vamos encontrar nada sobre o carnaval de negros. Só destaques negativos", afirma a pesquisadora. Mencionando o Código de Posturas Municipais datado de 1882, Marizilda mostra que esta era uma percepção oficial e não simplesmente preconceituosa de algumas partes da sociedade. Em seus artigos 188 e 189 a lei determinava:

"Fica proibido o jogo do entrudo, (segundo o dicionário Aurélio, folguedo carnavalesco antigo, que consistia em lançar uns aos outros água, farinha, tinta, etc.) qualquer pessoa que jogar incorrerá na pena de 4 a 12 mil réis. Não tendo como satisfazer sofrerá dois dias de prisão, sendo escravo sofrerá oito dias de cadeia e o seu Sr. Poderá ainda castigá-lo com cem açoites".

Nos anos vinte o código não faria menção explícita a nenhum grupo étnico, mas proibia a manifestação dos cordões carnavalescos. "Ora", afirma a pesquisadora, "o carnaval dos cordões era o carnaval praticado pelo negro, pois o carnaval do branco era o carnaval dos salões ou dos corsos (desfile de carros)", completa.

Com o tempo e a persistência dos foliões, a própria prefeitura paulistana acabaria por organizar a festa de momo, criando em 1935 premiações e estabelecendo locais específicos, como a avenida São João, e ordem de entrada para a apresentação de blocos e cordões.

Rivalidades

Mas os carnavalescos também brigavam entre eles. Algo como as torcidas organizadas no futebol hoje em dia. A rivalidade era tão grande que as chamadas comissões de frente das escolas tiveram origem nos chamados balizas e batedores. Capoeiras, que por vezes andavam armados com canivetes e bastões para defender o grupo das agremiações vindas de outros bairros.

Algumas vezes estas diferenças apareciam em provocações mútuas feitas pelos ritmistas dos diferentes grupos, que proporcionavam verdadeiros desafios sonoros para ver quem tocava mais alto e melhor, ou degeneravam mesmo em brigas generalizadas. A um integrante do Camisa Verde não se admitia que saísse da Barra Funda para acompanhar aos ensaios da Vai-Vai no Bexiga. Por outro lado, se um integrante do cordão da Bela Vista fosse reconhecido fora de seus domínios corria um sério risco de apanhar. Por que? Simplesmente porque ele pertencia a um outra associação.

Talvez estas desavenças entre os sambistas tenha contribuído para alimentar certos preconceitos por parte de quem não gostava muito daquela alegria impulsionada por instrumentos marcantes e barulhentos.

Reunião de Bambas

"Em 1953 o samba ainda era marginalizado", conta Nelson Primo, integrante da velha guarda da Camisa Verde e Branco. "Quando subíamos a São João para o desfile, tinha gente que jogava até lata de mijo na gente", completa o veterano.

Outro veterano dos carnavais, Manoel Vitório Alves, mais conhecido como Feijoada, lembra que algumas ruas eram proibidas aos sambistas. "Era pôr os pés ali e os moradores chamavam a polícia, que já chegava batendo. Era o caso da rua Jaceguai, por exemplo", recorda.

Mas não era só nos dias de desfiles que os foliões enfrentavam problemas. "Passamos por coisas muito desagradáveis no samba em São Paulo. A própria imprensa era contra. Tenho uma reportagem em casa que diz ‘Polícia Invade Ensaio da Vai-Vai’ . Isso foi ali na praça Gloriosa numa quinta-feira anterior ao carnaval. Nesse dia foi uma correria danada. Eles vinham e quebravam nossos instrumentos", diz Feijoada.

A repressão então era brava? Segundo Paulo Henrique, o Paulinho, o tratamento dispensado era o mesmo que para os marginais. "Conheço história de gente que foi obrigada a tirar o instrumento do estojo e tocar pra provar que era músico. Veja a que ponto chega a repressão", afirma com uma ponta de indignação. Bom, mas se a repressão era tão forte assim por que insistir? Quem responde é Eduardo Joaquim, o Dadinho. "O que sempre me fez voltar era a vontade de resistir. Não é porque batiam o pé é que íamos correr." Com ele concorda dona Cleuzi Rodrigues Penteado, outra importante dama do carnaval paulistano. "Como eles não gostavam da nossa cultura eles não aceitavam, mas o samba está em nós, nascemos nele e ele está no nosso sangue", completa orgulhosa.

Resistência e Tolerância

A verdade é que toda esta determinação rendeu aos sambistas a deferência que recebem, pelo menos nos dias que antecedem o carnaval. Para a pesquisadora Marizilda as mudanças são nítidas em termos de organização, divulgação e aceitação. "Eles resistiram e lutaram muito para chegar onde estão hoje", pondera. Contudo, ela lembra que a questão do negro em particular ainda é muito mal resolvida, principalmente na mídia. "Historicamente vamos encontrar na imprensa menções ao carnaval do branco. Acho que este padrão, de certa maneira, perdura até nossos dias. Os jornais não falam sobre os negros, usam o termo comunidade", completa.

Esta falta de deferência e o espetáculo televisivo em que se transformou o carnaval, de certa maneira incomoda os antigos sambistas. "Hoje tem muita gente que sai no carnaval não tanto por amor à escola, mas sim por status. Gente que antes virava o nariz agora quer contar pra todo mundo que saiu nesta ou naquela’, queixa-se Nelson Primo.

De qualquer maneira o carnaval paulistano cresceu tanto e vem se tornando tão popular, que o famoso comentário do poeta Vinícius de Moraes: "São Paulo, túmulo do samba" já não pode ser repitido aos quatro ventos. Isto porque cada vez mais paulistanos e visitantes, das mais diversas origens, se rendem aos encantos das escolas, seus carros alegóricos e passistas. "Que ironia né, antes a polícia corria atrás de nós pelas ruas, agora eles abrem caminho pra gente desfilar no sambódromo", observa dona Cleuzi.


Márcio Sampaio de Castro é jornalista


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