São
Paulo, que tinha 40 mil habitantes em 1886, cresceu sem planejamento e ao sabor de ações
privadas ao longo do século XX. Quando teve legislação urbana, ela foi observada apenas
na região ocupada pela elite. O resultado é um complexo urbano de 1.500 km2,
por onde trafegam 5,3 milhões de veículos e onde vivem, insatisfeitos, 10,4 milhões de
habitantes.
Em 2000, dois em cada
três paulistanos declaravam que gostariam de se mudar daqui. O descontentamento reflete a
precariedade do transporte coletivo, os congestionamentos, a carência e violência da
periferia, a degradação ambiental, o abandono nos bairros centrais e antigas regiões
industriais, a saturação das áreas da classe média.
Esse cenário expressa processos mais profundos, como o esvaziamento dos bairros
consolidados e a expansão indesejada sobre a área de proteção ambiental. Nos anos 90,
perderam população 53 dos 96 distritos da cidade, exatamente os mais equipados e onde o
emprego se concentra. No mesmo período, Grajaú e Parelheiros, situados na área dos
mananciais, receberam mais 200 mil habitantes, o que acentuou o desequilíbrio na
relação moradia/trabalho e desembocou em mais deslocamento diário. Distritos da área
central oferecem 3 empregos para cada morador, índice que cai para 0,08 na Cidade
Tiradentes, no extremo da zona leste.
A desigualdade territorial marca a capital: em 1999, 64% dos empreendimentos
imobiliários se concentraram em 19 distritos não por coincidência, os que mais
receberam investimentos públicos. Os moradores dessa região gastam, em média, três
vezes menos tempo em deslocamento que os da periferia, que chegam a enfrentar sete horas
diárias em coletivos.
Para imprimir um novo rumo para a metrópole e inverter tendências que têm agravado
seus problemas, foi aprovado pela Câmara Municipal e sancionado pela prefeita, em
setembro de 2002, após um amplo debate com a sociedade, o novo Plano Diretor
Estratégico. Ele dá início à implementação do sistema de planejamento, composto de
várias etapas, a ser gerido de forma democrática.
O Plano Diretor não é uma panacéia que resolverá todos os
problemas da cidade, mas, se suas propostas forem implementadas, trará resultados muito
positivos. Ele conta com os novos instrumentos urbanísticos regulamentados pelo Estatuto
da Cidade (Lei Federal 10.257/01), articula planejamento e gestão urbana e introduz
vários mecanismos de participação. Poderá superar uma tradição da época da ditadura
a de que planos são mapas pintados que ficam na gaveta.
Uma das principais preocupações do substitutivo elaborado pela Câmara foi tornar
claros, precisos e focados os objetivos estratégicos do Plano e apontar os instrumentos e
ações necessários para alcançá-los, indicando as principais transformações
pretendidas para a próxima década:
- reduzir as desigualdades urbanas;
- requalificar e repovoar as áreas consolidadas em processo de desestruturação, como o
Centro e a orla ferroviária, estimulando a habitação de interesse social e da classe
média e recuperando o patrimônio cultural e arquitetônico;
- conter o povoamento da macrozona de proteção ambiental, que abrange a área de
mananciais ao sul e a Serra da Cantareira ao norte;
- regularizar, urbanizar e qualificar as áreas periféricas (sobretudo loteamentos
irregulares, favelas e conjuntos habitacionais);
- restringir ou onerar fortemente o processo de adensamento construtivo dos bairros
saturados, como o quadrante sul-sudoeste, situado entre a área central e o rio Pinheiros,
região de maior interesse imobiliário;
- proteger e ampliar as áreas residenciais;
- equilibrar a localização dos empregos e da habitação;
- alterar o padrão de mobilidade, priorizando o transporte coletivo e desestimulando o
uso do automóvel;
- minimizar o impacto da ocupação urbana no meio ambiente, ampliando a permeabilidade do
solo e as áreas verdes.
Para alcançar estes objetivos, o Plano regulamentou vários instrumentos, entre eles
os criados pelo Estatuto da Cidade. As Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis) nas
áreas consolidadas estimulam a produção de habitação onde existe emprego e
infra-estrutura. Parcelamento, edificação e utilização compulsórios combatem a
ociosidade de terrenos e edifícios vazios, reduzindo o preço dos imóveis e da
habitação. A outorga onerosa, além de gerar recursos para urbanizar as áreas
periféricas e melhorar o transporte, contribui para restringir o adensamento construtivo
nas áreas saturadas. A transferência do direito de construir possibilita a preservação
do patrimônio arquitetônico e ambiental. As operações urbanas, se projetadas sem gerar
exclusão, apoiarão a requalificação de áreas desestruturadas, criando oportunidades
para o mercado e a produção de habitação social.
Os desdobramentos do Plano Diretor, em particular os
Planos Regionais e a Lei de Zoneamento, são vitais para o sucesso da nova política
urbana. Para as recém-instaladas subprefeituras, os Planos Regionais representam o
salutar desafio de debater seu futuro de forma compatível com as orientações do Plano
Diretor. Eles proporão, em nível local, zoneamento, hierarquização do sistema viário,
transporte coletivo, destinação de áreas públicas, novos equipamentos sociais e áreas
verdes. Identificarão, ainda, novas áreas para aplicação dos instrumentos
urbanísticos criados pelo Plano.
A nova Lei do Zoneamento também deve ser elaborada e aplicada no território a partir
do que estabeleceu o Plano Diretor. Pela primeira vez na história de São Paulo, o
controle do uso do solo deverá chegar à periferia, trazendo questões até aqui pouco
consideradas. Deverão ser introduzidos novos critérios, como a noção de incomodidade
(que objetiva evitar, por exemplo, a vizinhança entre residências e indústrias
poluidoras).
O Plano Diretor abriu caminho para uma nova mentalidade de planejamento e gestão.
Espera-se que ele passe a ser visto pelos paulistanos como uma ferramenta para melhorar
sua qualidade de vida, que dê uma perspectiva de futuro para a cidade.