Uma
cidade, diria Fernand Braudel, alimenta-se de movimento. Melhor: ela precisa ser um
espaço-movimento. Sua vitalidade, suas economias, seu comércio, sua cultura situam-se
num determinado espaço geográfico. O livro da historiadora Marisa Deaecto reconstitui as
condicionantes de longa duração da história de São Paulo. Hoje elas estão imersas no
tempo e escondidas por pontes, viadutos, córregos subterrâneos, rios canalizados e que
tiveram seu curso corrigido... E o que este livro faz é reviver em toda a sua
inteireza uma cidade que já tendia a ser, no quinhentismo, a capital geográfica do
Brasil, como a chamou Jaime Cortesão. Assim, as andanças de suas gentes, seus costumes,
suas atitudes e sua fé, juntam-se com aqueles impulsos econômicos básicos que levaram
os paulistas até muito longe, devastando o sertão ignoto na caça ao bugre e às pedras
preciosas.
Depois de amarga decadência no século XVIII, os paulistas lentamente recuperaram sua
agricultura, seu algodão, seu açúcar e, depois, ergueram uma autêntica
"civilização do café". E vieram as ferrovias, o comércio de gêneros e
também o de luxo, o de máquinas, o de automóveis. Chegaram os imigrantes que formaram a
classe operária e também cederam alguns dos seus para se tornarem uma classe dirigente
empreendedora. O tipo sociológico que encarnou o comércio paulista revela a natureza de
uma atividade voltada para fora: o imigrante que busca centros externos, mas, neste caso
inserindo suas mercadorias importadas num circuito virtuoso de crescimento endógeno da
economia paulista. São Paulo foi a primeira região brasileira que, partindo dessa
condição "colonizada", logrou dinamizar uma produção e um mercado internos.
A Autora não se limita a contar trajetórias de pessoas e negócios. "Destinos
coletivos e movimentos de conjunto" são perscrutados com o rigor de uma pesquisa
acadêmica associado a um estilo bonito. Ela mostra como a articulação da cidade com o
exterior é um traço inscrito na própria geografia da cidade. Sua extroversão
sistemática era, de início, visível na disposição de sua área central: o triângulo
formado pelas ruas São Bento, Direita e da Imperatriz (XV de Novembro). A Rua das
Casinhas (atual Rua do Tesouro) exibia um modesto comércio de rua, bem próximo às
laterais escarpadas da colina do Pátio do Colégio. Contornando o despenhadeiro pela Rua
da Imperatriz esse sistema se integrava com a Ladeira Porto Geral. Descida ainda hoje
bastante íngreme que demandava o Porto junto ao Rio Tamanduateí. Atracavam ali as canoas
que conduziam a produção das olarias de São Bernardo. Depois da retificação do rio
(1849), a navegação desapareceu, mas não os tropeiros. São Bernardo, antes da
construção da ferrovia entre Santos e São Paulo, ainda era passagem forçada de
comerciantes. A estrada de ferro revitalizou a relação entre o planalto e o litoral. E
com o café, a capital passou a ser elo de transporte, mas também de negócios e
agenciamentos que articulavam o interior, o litoral e os mercados europeus.
Marisa Deaecto mostra como a disposição do eixo comercial no "triângulo"
continuou respeitando a topografia acidentada da cidade. Enfim, ela escolheu escrever uma
"geohistória" de São Paulo, cujo núcleo é o comércio, com suas rotas e
transportes. Mas este é apenas o motivo inicial. Ela usa o comércio para reconstituir a
totalidade da vida social e econômica. O único excesso, poder-se-ia afirmar, é o seu
amor desmedido pela cidade. Que a autora não consegue esconder. E deixa transparecer nas
linhas e, especialmente, nas entrelinhas de seu belo livro.