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Do
Olimpo para o Tártaro: assim caminha a humanidade
Por
Fábio Luís
O primeiro livro de muitas páginas que li quando criança foi o manual
das Olimpíadas do Pateta. Contava a história dos jogos, das modalidades,
os campeões e os imprevistos. Desde então, sempre me dedicava a um ou
outro esporte. Com dez anos de idade, comecei a suspeitar que o espírito
olímpico era menos grego do que capital. Jogava tênis em um clube
paulistano, e me informaram que a partir dos onze anos apenas os sete
melhores seriam admitidos nos treinos. Havia a possibilidade de
inscrever-me em uma academia de tênis, ou pagar aulas particulares no próprio
clube. Classificado em oitavo em mais de cem, jamais me reanimei a pegar
uma raquete.
Mais crescido, passei a me interessar por uma bolinha semanal. O futebol,
dizem, é um esporte bastante democrático no Brasil. Conforme adoramos
contar, é só enrolar uma meia e espichar dois sapatos na rua que o cenário
está montado. Tem lugar para os ruins e os bons: os gordinhos na defesa,
os desengonçados no gol e os espivetados correndo pelas pontas. Mas, para
desgraça adulta na metrópole, a especulação imobiliária engoliu
campos e quadras, e para rolar uma bola o pessoal precisa se cotizar e
alugar um "society" blindado. Uma cidade que já não tem praia,
também não tem campo.
As
olimpíadas hoje são o reflexo vitaminado desta cultura. Sua realização
pertence hoje à família de acontecimentos previstos como intervenções
urbanas com o objetivo de projetar uma metrópole no mapa. Esta foi
inaugurada em 92 em Barcelona, cidade que tem hoje no turismo uma fonte de
renda mais importante do que a prosperidade industrial catalã. Na classe
dos eventos, as "feiras" e "expos", como as recentes
de Lisboa e Hannover, são seus irmãos próximos. Instalações como o
museu Guggenhein em Bilbao e operações de "revitalização" de
centros urbanos são parentes algo mais distantes, mas sempre da mesma família
de interesses: transformar a subjetividade cultural em mercadoria.
Nas olimpíadas modernas, o importante não é competir e muito menos
vencer, mas alimentar os valores capitalistas. Trata-se de uma orgia dos
anti-valores do poder capital. Todos competem e ninguém participa, como
subentenderia a tradução adequada do lema do francês Coubertin. Só
participam os ricos e melhores. Milhares de atletas do terceiro mundo
ficam fora, apesar de já haverem vencido a gincana da sobrevivência em
seus países.
A
nota forte dos último jogos é o doping. Enquanto as pátrias ricas
driblam os testes injetando químicos à prova de radares, alguns menos
avisados tombam no caminho. A unanimidade o técnico do nadador Xuxa já
admitiu: todo mundo se dopa. Uma sintonia sideral com a lei dos corpos aeróbicos
da estética ocidental, os alimentos transgênicos, a indústria farmacêutica
anti-depressiva e, de modo holístico, toda a violência ecológica do
planeta.
Os esportes cumprem uma função cultural na subjetividade do ideário
capitalista. Desde cedo, tudo é contra o semelhante, e pago. Na esfera
midiática do programa, cumprem o papel de circo que não pode parar. Os
campeonatos sucedem-se em um ritmo frenético. O importante não é quem
ganha, mas que todos se envolvam na sua novela. Nos Estados Unidos,
basquete, beisebol, hóquei e futebol americano revezam-se no picadeiro
para os palhaços. No Brasil de tradição monocultora, o futebol faz a
novela dos homens e exporta seus filhos bons para a sorte transnacional.
O
Brasil poderia tirar boas lições destes jogos. Guga lembra Mencken:
quando um homem brada seu patriotismo, pode-se ter certeza de que espera
ser pago por isso. No futebol, basta comparar as mulheres, que recebem um
teto de R$ 2000 da federação, com a realidade mercenária que tomou
conta do espírito de nossos atletas Nike - por ironia, nome de uma deusa
grega.
Apesar disso, insiste-se em tomar o doente pela doença. A Nike anuncia
uma maior (!) intervenção nas decisões da seleção, e o COI articula a
possibilidade de, a partir de 2008, fazer uma competição não mais entre
os países, mas entre as marcas. Mais bonito seria crescermos um dia
jogando um banco imobiliário cooperativo, onde o objetivo não é quebrar
o outro, mas que todos vivam bem. Enquanto isso, a medalha de ouro levam
os guerrilheiros de Praga.
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