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Esportes

Ano I - Nº7 - Outubro de 2000

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Do Olimpo para o Tártaro: assim caminha a humanidade

Por Fábio Luís
O primeiro livro de muitas páginas que li quando criança foi o manual das Olimpíadas do Pateta. Contava a história dos jogos, das modalidades, os campeões e os imprevistos. Desde então, sempre me dedicava a um ou outro esporte. Com dez anos de idade, comecei a suspeitar que o espírito olímpico era menos grego do que capital. Jogava tênis em um clube paulistano, e me informaram que a partir dos onze anos apenas os sete melhores seriam admitidos nos treinos. Havia a possibilidade de inscrever-me em uma academia de tênis, ou pagar aulas particulares no próprio clube. Classificado em oitavo em mais de cem, jamais me reanimei a pegar uma raquete.
Mais crescido, passei a me interessar por uma bolinha semanal. O futebol, dizem, é um esporte bastante democrático no Brasil. Conforme adoramos contar, é só enrolar uma meia e espichar dois sapatos na rua que o cenário está montado. Tem lugar para os ruins e os bons: os gordinhos na defesa, os desengonçados no gol e os espivetados correndo pelas pontas. Mas, para desgraça adulta na metrópole, a especulação imobiliária engoliu campos e quadras, e para rolar uma bola o pessoal precisa se cotizar e alugar um "society" blindado. Uma cidade que já não tem praia, também não tem campo.

As olimpíadas hoje são o reflexo vitaminado desta cultura. Sua realização pertence hoje à família de acontecimentos previstos como intervenções urbanas com o objetivo de projetar uma metrópole no mapa. Esta foi inaugurada em 92 em Barcelona, cidade que tem hoje no turismo uma fonte de renda mais importante do que a prosperidade industrial catalã. Na classe dos eventos, as "feiras" e "expos", como as recentes de Lisboa e Hannover, são seus irmãos próximos. Instalações como o museu Guggenhein em Bilbao e operações de "revitalização" de centros urbanos são parentes algo mais distantes, mas sempre da mesma família de interesses: transformar a subjetividade cultural em mercadoria.
Nas olimpíadas modernas, o importante não é competir e muito menos vencer, mas alimentar os valores capitalistas. Trata-se de uma orgia dos
anti-valores do poder capital. Todos competem e ninguém participa, como subentenderia a tradução adequada do lema do francês Coubertin. Só participam os ricos e melhores. Milhares de atletas do terceiro mundo ficam fora, apesar de já haverem vencido a gincana da sobrevivência em seus países.

A nota forte dos último jogos é o doping. Enquanto as pátrias ricas driblam os testes injetando químicos à prova de radares, alguns menos avisados tombam no caminho. A unanimidade o técnico do nadador Xuxa já admitiu: todo mundo se dopa. Uma sintonia sideral com a lei dos corpos aeróbicos da estética ocidental, os alimentos transgênicos, a indústria farmacêutica anti-depressiva e, de modo holístico, toda a violência ecológica do planeta.
Os esportes cumprem uma função cultural na subjetividade do ideário capitalista. Desde cedo, tudo é contra o semelhante, e pago. Na esfera midiática do programa, cumprem o papel de circo que não pode parar. Os campeonatos sucedem-se em um ritmo frenético. O importante não é quem ganha, mas que todos se envolvam na sua novela. Nos Estados Unidos, basquete, beisebol, hóquei e futebol americano revezam-se no picadeiro para os palhaços. No Brasil de tradição monocultora, o futebol faz a novela dos homens e exporta seus filhos bons para a sorte transnacional.

O Brasil poderia tirar boas lições destes jogos. Guga lembra Mencken: quando um homem brada seu patriotismo, pode-se ter certeza de que espera ser pago por isso. No futebol, basta comparar as mulheres, que recebem um teto de R$ 2000 da federação, com a realidade mercenária que tomou conta do espírito de nossos atletas Nike - por ironia, nome de uma deusa grega.
Apesar disso, insiste-se em tomar o doente pela doença. A Nike anuncia uma maior (!) intervenção nas decisões da seleção, e o COI articula a
possibilidade de, a partir de 2008, fazer uma competição não mais entre os países, mas entre as marcas. Mais bonito seria crescermos um dia jogando um banco imobiliário cooperativo, onde o objetivo não é quebrar o outro, mas que todos vivam bem. Enquanto isso, a medalha de ouro levam os guerrilheiros de Praga.


              
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