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Esportes |
Ano I - Nº8 - novembro de 2000 |
| Brasil,
ética e futebol José Genoino No livro Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda analisa como, na
formação social do Brasil, esteve ausente a ética do trabalho e as
conseqüências que isto proporcionou no nosso desenvolvimento moral e cívico.
Prevaleceu, na nossa formação histórica, a cultura do aventureiro ou do
caçador que implica naquela atitude de querer-se "colher o fruto sem
plantar a árvore". Vários comportamentos negativos derivam desta
atitude fundamental perante a vida: o oportunismo profissional, a pretensão
de subir na vida sem esforço, o famoso "jeitinho brasileiro", a
indolência, a sonegação, a corrupção, a não observância de normas
de convívio social, o desrespeito ao consumidor, a fraude nos negócios e
na produção, as atitudes anti-solidárias etc. A incidência nociva dessa cultura
predatória torna-se ainda maior no momento em que, no mundo todo, a
ideologia neoliberal e a globalização perversa potencializam um
ultra-individualismo, a corrosão da ética em todas as atividades, a
fragmentação da autoridade, a diluição das normas e regras sociais e a
valorização absoluta do dinheiro com um fim em si mesmo. Talvez em
nenhum outro momento da história o dinheiro sobrepôs-se ao ser humano e
ao valor da vida como nesse momento. Em nome do vil metal provoca-se fomes
coletivas, genocídios planejados, joga-se milhões de seres humanos na
pobreza e aniquila-se economias nacionais. É em nome do dinheiro que
impostos são sonegados, divisas são evadidas e lucros não são
declarados. Na medida em que os ricos pagam cada vez menos impostos, seja
por isenções ou sonegação, as cargas tributárias incidem cada vez
mais sobre os assalariados de média e baixa rendas concentrando ainda
mais renda e riqueza. Mas aos poucos, a sociedade brasileira
adquire consciência de que é necessário enfrentar essa cultura predatória.
O impeachment de Collor foi um dos momentos mais significativos dessa exigência.
Depois disso tivemos altos e baixos: tivemos a CPI do Orçamento, caçassão
de deputados e de um senador, afastamento de prefeitos, a CPI dos remédios,
do narcotráfico etc. Mas deixamos de ter a CPI da reeleição, da
privatização das teles, tivemos as fugas do ex-juiz Nicolau e de
Cacciola, não foi feita a devida limpeza nos escândalos da Câmara de
Vereadores e na Prefeitura de São Paulo e muitos outros escândalos, como
a ajuda ao banco Marka e o vazamento de informações na desvalorização
do Real, deixaram de ser apurados. Nas eleições municipais deste ano,
contudo, a exigência de ética foi um dos principais fatores que orientou
o voto do eleitorado. Os dirigentes do Clube dos Treze, ao
arrepio da legalidade e da legitimidade, tentaram excluir o Gama de Brasília
da competição principal do futebol. Orientam os clubes para que
barrassem jogadores que recorreram à Justiça do Trabalho para haver
direitos. Trata-se de um absurdo inaceitável. Todos os dias, agora, a
imprensa revela manobras e pressões de dirigentes do futebol para tentar
bloquear a amplitude das investigações das CPIs. Nenhum deputado, nenhum
senador, pode aceitar estas pressões. Além de ilegítimas, devem ser
denunciadas publicamente e, se possível, investigadas. Num momento em que quase 35% dos
brasileiros vivem na pobreza, como mostram os dados do IPEA divulgados na
semana passada, não é aceitável que meia dúzia de espertos e abastados
soneguem impostos, deixem de declarar lucros e evadam dinheiro para paraísos
fiscais. É necessário dizer que esta prática criminosa e predatória não
se restringe ao futebol. A própria Receita Federal vem indicando que no
meio empresarial e em outros meios, a sonegação e a evasão são
praticadas em larga escala. Talvez fosse o caso de ampliar as investigações. As facilidades e abusos cometidos por poucos em detrimento de muitos precisam ser enfrentados por uma reação da sociedade e das autoridades. Nós, congressistas, devemos dotar o poder público de mecanismos legais e punitivos eficazes para combater a sonegação e a evasão. Facilitar a quebra dos sigilos bancário e fiscal é um imperativo que se impõe, dada a magnitude dessas práticas criminosas. Mas a Receita Federal, o Banco Central e o Ministério Público já dispõem de importantes mecanismos de fiscalização e punição. Cobra-se desses órgãos uma ação mais intensiva no cerco à sonegação e à evasão de dinheiro para paraísos fiscais. José
Genoino é deputado federal PT/SP |
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