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Esportes |
Ano I - Nº11 - fevereiro de 2001 |
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Réquiem para a cartolagem do futebol Carlos Miguel Aidar A crise vivenciada na final da Copa João Havelange
demonstra que o Clube dos 13, do qual fui o fundador em 1987, perdeu - a
exemplo da CBF - a competência para organizar os campeonatos brasileiros de
futebol. A primeira partida final terminou com o lamentável incidente
ocorrido no estádio de São Januário, Rio de Janeiro, onde um tumulto fez
ceder parte do alambrado, provocando ferimentos em mais de uma centena de
torcedores, vítimas da indiferença e da irresponsabilidade de dirigentes
desportivos. A segunda final, atropelou o regulamento e não motivou
jogadores e torcedores. O futebol brasileiro, alvo de incontáveis
desmandos, passa cada vez mais a depender da Justiça Desportiva e a merecer
atenção redobrada das Comissões Parlamentares de Inquérito do Futebol,
instaladas na Câmara dos Deputados e no Senado, para investigar as
irregularidades no futebol brasileiro. As CPIs vêm passando o Brasil à
limpo, desde o caso PC Farias. E o futebol não poderia passar incólume. O
desporto brasileiro viveu à margem da lei até 1941, quando não havia
legislação regulamentando a atividade. Sessenta anos depois, a "paixão
nacional" atrai pesados investimentos. Estima-se que movimentará
recursos da ordem de US$ 5 bilhões nos próximos dez anos. Voltando atrás,
quantos bilhões o futebol brasileiro já movimentou? O valor,
provavelmente, ultrapassaria em muito os R$ 169 milhões desviados pelo juiz
Nicolau dos Santos para a construção da sede do Tribunal Regional do
Trabalho em São Paulo. Por isso, a corrupção no futebol é assunto sério
e escandaliza a sociedade brasileira. A primeira polêmica sobre as duas
CPIs, instaladas na Câmara Federal e Senado, girou em torno da competência
das Comissões. Pode o Congresso investigar os clubes, se eles não recebem
recursos públicos? As transações subterrâneas com o Exterior, na compra
e venda de jogadores, e as dívidas com o Erário Público, decorrentes de
sonegação fiscal e outros ilícitos financeiros credenciam, sim, a
investigação das Comissões. O Legislativo tem o dever de investigar
irregularidades que são danosas ao tesouro nacional e ao país. O impacto
da corrupção sobre o desenvolvimento brasileiro é conhecido. Reduz o número
de escolas,de hospitais, de creches e de outros benefícios para os despossuídos.
O alvo da CPI da Câmara dos Deputados é o contrato de US$ 150 milhões
firmado entre a CBF/Nike para patrocínio exclusivo da Seleção Brasileira,
mas já ganhou ramificações. Calcula-se que a Copa do Mundo, com
comercialização de imagem, negociação de uniformes, chuteiras , bolas e
ingressos, movimente a cifra fabulosa de US$ 100 bilhões. A cada dia que
passa, os investidores do futebol - negócio altamente volátil - buscam
garantir maior poder de decisão sobre os times e, consequentemente suas
escalações e número de jogos. A CPI tem a prerrogativa de trazer à luz
esses grandes contratos, que teriam cláusulas sigilosas, e esclarecer se
houve favorecimentos para algums dirigentes do futebol brasileiro. Desde
1997, os clubes perderam sua imunidade tributária, mas se acostumaram à
rotina de não pagar imposto de renda e somente saldar a Previdência Social
mediante um desconto no próprio borderaux da bilheteria do estádio,
deixando um rombo significativo para os cofres do combalido INSS. Além dos
clubes, os empresários ganham muito no futebol, tendo direito à comissão
de 10% sobre a negociação do passe e de 10% do salário dos jogadores. A
quebra de sigilo bancário e fiscal pedida pela CPI do Senado vem trazendo
à luz a verdade sobre inúmeras negociações realizadas por empresários
credenciados pela Fifa e acabar com a inércia na apuração das
ilegalidades. Outra matéria da CPI do Senado são os contratos dos técnicos
e atletas. Para reduzir a carga tributária sobre o contrato de trabalho,
que fica em torno de 100%, os clubes dividem o contrato firmado com os
jogadores e técnicos em dois. Um, é firmado entre empregado e empregador,
e outro, é de cessão de imagem, entre o atleta e a entidade desportiva.
Este último é formalizado entre o clube e a pessoa jurídica, que
representa o atleta ou do técnico para fugir da carga tributária. O cidadão
comum que paga seus impostos, não pode admitir que seus ídolos - que
faturam até US$ 75 mil no auge da carreira por semana - soneguem impostos,
engrossando contas em paraísos fiscais. Além da corrupção, as CPIs do
futebol vêm discutindo a questão da soberania e autonomia do país. A Fifa
e outras entidades internacionais dirigentes do futebol condenam todo e
qualquer tipo de interferência estranha à matéria desportiva, inclusive a
ida dos clubes à Justiça Comum. Mas não se pode aceitar - como a CPI do
Senado não acatou - manifestações ácidas e ameaças do presidente da
Fifa, Joseph Blatter, por entender que o Congresso Nacional está
interferindo em sua área de atuação, principalmente quando coloca sob
investigação a Copa do Mundo da França. Mas essa, sim, é uma interferência
inaceitável à soberania nacional e ao Estado Democrático de Direito. As
CPIs também devem abarcar investigações paralelas, como a apuração de
fraudes de idades, os chamados "gatos". Sem dúvida, essa não é
matéria de alçada da Fifa ou da CBF. Trata-se de matéria penal. Se alguém
adultera seu documento para se beneficiar de alguma forma, deve responder
criminalmente pelo crime de falsificação. A questão da falsificação de
passaportes, por parte de alguns atletas para jogar na Europa, também não
pode ser esquecida. Embora não seja um procedimento novo no mundo
esportivo, merece apuração exemplar. Independente do resultado das
investigações levadas a efeito pelas duas CPIs, um subproduto positivo das
duas Comissões pode ser o aprimoramento da Lei Pelé, que foi retalhada
pelo Legislativo Federal . Um de seus pontos positivos era obrigar os clubes
a se estruturar como empresas. Hoje, sob forma de sociedades civis sem fins
lucrativos, os dirigentes não têm responsabilidade pelos atos de sua gestão,
sendo respaldados pela impunidade, mola propulsora da corrupção. Para este
tipo de cartolagem, devemos desejar "requiem aeternam dona eis". Carlos Miguel C. Aidar é presidente da
OAB-SP
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