|
|
A ostra e
a pérola fina
Hamilton Cardoso
Outro aspecto que você deve aplicar quando lê
sobre o Brasil e os problemas sociais enfrentados e vividos pelo país. Este
século XX foi um século de migração interna. Desde a revolta dos malês,
em 1835, na Bahia, quando africanos islamizados ou islâmicos escravizados
começaram a ser vendidos entre os compatriotas deles, proprietários das
regiões sul e sudeste.
Acabara aquela história de comprar semi-clandestinamente escravizados, da
África, e entregar no Brasil. O contrabando mundial, legal, desde então,
deixou de ser de seres humanos para ser de produtos reais. O contrabando de
gente ocorria dentro do Brasil, o que aliás foi bom porque inflacionou os
preços do trabalho escravo fortalecendo as adesões de liberais às idéias
abolicionistas que aqui foram bem sólidas dentro do status quo. Foi uma
forma mais primitiva de manifestações localizadas, de leis de
mercado como ocorreu recentemente e ainda ocorre na África do Sul., forçando
a supressão das legislações retrógradas, lentas e graduais, do
apartheid. No fim, como dizia um cientista europeu antigo: na vida nada se
cria, tudo se transforma.
Um comunicador brasileiro, já morto e um doa cadáveres mais suaves de se
carregar, o Chacrinha, fez sucesso afirmando na TV na década de 70, que
"na vida nada se cria, tudo se copia..."
É importante até, vocês recuperarem cópias dos programas dele porque, além
de muitos divertidos, foram gravados na época em que a África do Sul começou
manifestar, no governo, o interesse de estudar a democracia racial
brasileira para aplicá-la como método de "perestróika" na África
do Sul. Ele fala com graça e de forma divertida, do troca-troca da
humanidade... E mostra quem vocês poderão ser.
Muito bem: depois de considerar este elevado índice de imigração européia
para o Brasil você poderá entender por exemplo, e fazer as elucubrações
sobre as naturezas metodológicas que determinam a ausência de uma história,
dos trabalhadores brasileiros, pré imigração européia. Os nossos
explorados só têm história de lutas depois da chegada dos italianos
anarquistas, que se concentraram no sul do país e foram duramente
reprimidos pelas polícias locais. Alguns historiadores, mais críticos do
país, dizem que a partir de então, após a imigração, ocorreram as
primeiras greves e que elas se tronaram casos de polícia. Talvez fosse
interessante você consultar um cara brasileiro e branco, sério como
intelectual, Francisco Foot, que com Victor Leonardi, escreveu um livro de
teses universitárias, História da Indústria e do trabalho no Brasil. Ele
fala de greves pré e durante a imigração, dirigidas por escravos ou com
eles. Você vai descobri que existe uma espécie de "buraco
negro", que não só na história como na identidade nacional,
principalmente dos explorados.
Quanto aos exploradores, junto com estas leituras e pesquisas talvez - o
Congresso Nacional Africano tem gente extremamente competente e não tão
influenciada pelo racismo para fazer isto - uma verificação na história
da Europa, desde as descobertas, vai lhe permitir uma melhor caracterização
da identidade deles, e as bases de sustentação dela, - neles.
Bem, mas se você quiser conhecer a identidade histórica dos trabalhadores
brasileiros, do século passado para trás você terá, é obrigatória, um
leitura da obra de Clóvis Moura, o maior historiador dos oprimidos
brasileiros. O livro básico que ele escreveu foi Rebelião das Senzalas.
(Mas existe também "As raízes do protesto negro"). É uma
reportagem sobre o Brasil que você gostaria de conhecer e que muitos que
exercem ou são cúmplices do poder, até na oposição brasileira, não
querem que você conheça.
É que eles, Que não são inocentes, sabem que as economias, e não só
elas, estão se internacionalizando e com a globalização dos procedimentos
humanos, inclusive os individuais, é conveniente que tenham uma única direção.
O seu, por exemplo, é inadequado aqui. Justo, só lá. Mas também deve ler
dele as Raízes do protesto Negro.
Muito bem: o próximo passo que você deve dar é o estudo das migrações
internas, principalmente depois da Segunda Guerra. Na primeira fase, antes
do golpe de 64 (seis dias antes de sua prisão) e a instauração do regime
militar, que passará para a história do Brasil como o regime que mais
deixou desaparecidos políticos no Brasil - o que não é verdade, é
mentira! - as populações negras, que estavam concentradas mais ao norte do
Brasil se movimentaram em direção ao sul. É a fase em que surgiram os
grandes problemas sociais quando brasileiros quando começaram as
crises de violência urbana. Mas também é o período que houve maior
dinamização das culturas nacionais - e que, quando é mais conveniente
para quem manipula poderes, é chamado e definido como culturas negras. É
de certa forma, quando o Brasil começou a ganhar projeção mundial. A
capital do pais deixou de ser Buenos Aires no imaginário europeu para se
tornar o Rio de Janeiro, como de fato era. Mas com um inconveniente
para nós Os meus compatriotas negros: O Rio de Janeiro se transformou na
capital mundial da malandragem e da prostituição. É quando os norte
americanos criaram o personagem de Zé Carioca - um brasileiro por excelência.
Mas o Brasil, e não os negros, ganharam, ainda que às nossas custas e um
preço altíssimo, visibilidade no mundo.
Mande a
sua opinião |
|