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Memória |
Ano I - Nº 4 - Julho de 2000 |
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E agora, depois que os nativos das Américas, mestiços de espanhóis, resolveram entrar no mercado, à moda deles, com o único produto que os europeus deixaram à disposição quando da ocupação do território a droga e drogas do continente e os europeus e norte-americanos incluíram novos vícios nas vidas deles, e as polícias do primeiro mundo decidiram reprimir o tráfico internacional, também os africanos serão vitimizados. E que o Brasil, um país estratégicamente bem situado, que já foi entreposto comercial da potências econômicas mundiais, com fronteiras terrestres com a maioria dos paises latino-americanos, e e oceânica com toda a África do Ocidente, foi colocado sob suspeita. E, apesar da máfia ser italiana, somos os primeiros suspeitos. Alguns nigerianos já foram presos: nós somos mulas e, como dizia Drake Koka, da Consciência Negra, carregamos nas costas o peso da história. Muitos da Consciência Negra, talvez a maioria, eram, religiosos. Agora nãos sei, mas o conceito de Koka, então nos EUA, em 78, que lí em uma revista marxista, é semelhante aos dos kardecistas que nos identificam como os "anjos purificadores". (Este jogo e esta brincadeira intelectual, às vezes, me deixam com vontade de aderir ao Islã e dizer que eles são os demônios da humanidade. Mas não devo e não faço: se o fizesse eu mesmo me acusaria de racista. E eu sou contra este mal) E se você não sabe, os "mulas" são os carregadores de drogas e operários do tráfico de drogas e entorpecentes que, por causa de uns trocados em relação ao dinheiro e aso lucros materiais que geram até sociais, como o caso do colombiano Pablo Escobar, ou dos ingleses que há séculos promoveram a guerra contra os os asiáticos, os mulas carregadores de drogas se submetem às maiorias às maiores humilhações. Certa vez a secretária do jornal onde eu trabalho me comentou que uma moça viajou de um país a outro carregando o cadáver de um bebê cheio de droga na barriga costurada. A descoberta só ocorreu porque alguém suspeitou do fato do bebê não chorar. A mula, no caso, era branca, o que demonstra que não somos os únicos, nem os últimos, injustiçados do planeta. É claro, preocupa-me o risco de, como ocorreu com Idi Amim ou os judeus, discriminados em todo o mundo e na história e agora discriminadores de Palestinos em Israel, em sermos tão próximos, por se tornarem inúteis, e não por matá-los ou encarcerá-los numa prisão, é com os acusadores. Sem vítima é uma lei da polícia não há acusação... Penso: não deveriam, também, existir suspeitos. Mas não é o quer acontece. Existimos nós, os nossos ombros, a história e, nela, os nossos cadáveres. Somos ostras, e que eles pensam é uma droga! Imagino que você gostaria que eu me estendesse e e falasse mais do Brasil atual. É o que todos os negros gostariam de saber a respeito deles próprios. Afinal, se você pegar um dicionário brasileiro verá que o termo "zumbi" refere-se a mortovivo, um símbolo vudu do Caribe, originário da África como os escravizados que levaram esta bela cultura para lá. Existem milhões de brasileiros como "zumbis" pelas cidades. Eles andam nas ruas, tomam água, defecam, urinam, carregam crianças e até trabalham. Estão semi-mortos até, mas não vivem e nem nunca viveram. Outros, numa situação pior: não fazem nada de produtivo, não sabem o que fazer, para onde ir ou mesmo quem e quando vêm. Ou fazem de conta que é assim. Não conseguem estabelecer prioridades nas vidas deles. As vezes, e não são poucas, eu me sinto assim e ando ao redor de mim mesmo, com as minhas coisas desorganizadas e os lixos se amontoando à minha volta e sobre a minha cabeça. Eu digo, e escrevi um conto ou uma crônica, - sei lá como definir sobre isso e chamei-a de "Os cadáveres". Será livro, espero. E, fora do conto eu chamo de lixo todos esses cadáveres que carregamos. O Gabriel Garcia Marques no livro Cem anos de solidão, ao que me parece, falou sobre isto. Ele se referia a latino-americanos, mestiços de nativos com espanhóis, e eu não a lí, mas comentando com alguém fui informado. E fiquei agora eu estupefato, de saber do fato. Isto significa que eles não são tão inocentes como James Baldwin disse em Da Próxima Vez o Fogo. Sabem que temos cadáveres e, como eu digo no meu texto, os negociam conosco. E ficamos no prejuízo porque, zumbís, sentimos o peso deles, daqueles e outros cadáveres. Mas estes milhões de zumbis que circulam pela cidade, pelas ruas e pelos buracos do país atual são na verdade os deserdados sociais do Brasil" |