| A Igreja da Terceira Ordem de
São Francisco
Lincoln Secco
O nome antigo e escorreito deste templo é: Igreja da
Ordem Terceira da Penitência de São Francisco em São Paulo. Hoje: Igreja das Chagas do
Seráphico Pai S. Francisco. Ou simplesmente: Igreja da Fraternidade das Chagas. Fica ao
lado da Igreja de São Francisco. Por ela, o transeunte passa quase sem percebê-la. Os
que freqüentam as igrejas da região preferem sempre a tradicional Igreja de São
Francisco. Por isso, a da Ordem Terceira está amiúde vazia. Ela foi fundada em 1676, nos
primeiros tempos da Ordem que foi criada para mantê-la e preservá-la. Dessa Ordem
Terceira participaram os nomes mais ilustres das bandeiras paulistas. Em tempos idos era
famosa sua festa de Santa Isabel em julho, sucedida pela festa de São Francisco das
Chagas a 17 de setembro. Suas procissões eram feitas em comum acordo com outra Ordem
Terceira, a do Carmo. Seus recursos crescentes permitiram que tivesse um novo retábulo em
1736-40, feito pelo entalhador Luís Rodrigues Lisboa. Isto porque além das doações,
missas encomendadas e aluguéis, a Ordem Terceira tinha capital emprestado a juros que lhe
rendia quantia substanciosa. Daí os furtos que ela sofreu em 1754 e 1775. A antiga capela
foi demolida em 1783, para que se reerguesse em maior espaço e em novas condições. Isto
foi feito a partir do ano de Nosso senhor de 1787, como reza placa colocada à sua
entrada.
Em 1790-91 o nosso artista de tempos coloniais, José
Patrício, pintou os painéis grandes da capela-mor (Ortmann, História da Antiga Capela,
p.91). No século XIX acrescentaram-se os quadros que ainda hoje estão nas paredes deste
antigo templo. Curiosidade histórica foi a descoberta, em 1918, dos restos mortais do
Padre Feijó, nesta antiga capela. Foram trasladados à cripta da atual Catedral da Sé. A
atual igreja tem imagens de Santo Ivo doutor (cujo andor foi instituído em 1784) e da
Divina Justiça. Os antigos quadros oitocentistas que representam São Gualter, São
Francisco, Nossa Senhora e as várias fases da paixão de Cristo estão lá, ainda que
precisando de restauração. O hodierno altar mor é o de São Francisco recebendo as
chagas, que rivaliza em beleza com o antigo altar mor da Imaculada Conceição, hoje um
altar lateral. Os irmãos terceiros que cuidam do templo são todos leigos. Mas devem
seguir uma regra rígida de conduta de vida pessoal, amando a Deus, o Santo Irmão
Francisco e dedicando-se também à caridade cristã. Devem passar por critérios rígidos
de admissão, depois do noviciado e do apostolado. A sua igreja necessita de alguns
reparos. Um dos retábulos está em reforma quase perpétua. Tanto o entalhador quanto o
dourador que a iniciaram já faleceram. Algumas goteiras vão minando o templo. O
tombamento desta e de outras igrejas, em vez de ajudar a preservação, impede qualquer
obra de restauro, impondo peias burocráticas e outras menos confessáveis para a reforma.
O poder público declarou esta tradicional ermida um patrimônio histórico, portanto
tombado. Mas nenhuma medida, nenhum recurso amenizou a vida da igreja. Que, apesar de
tudo, é cuidada com todo o zelo pelo funcionário e irmão terceiro, Severino Pereira
Barbosa. Sem falar do ministro religioso do templo e de todos os irmãos que mantêm a
tradição de uma capela que nasceu no seiscentismo e de um templo que foi erguido no
final do século XVIII. |