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A escolha da
colina central de São Paulo para se fundar a Igreja e o Colégio dos Jesuítas, em
1554, atesta o papel pioneiro da construção das primeiras capelas na origem da
maioria das cidades brasileiras. Princípio que foi lembrado por Pierre Monbeig:
"O papel das capelas e dos santos nas origens urbanas do Brasil é de há muito
reconhecido". E mais adiante: "Não deixa de ser verdade que estas fundações
piedosas serviram de pontos de ligação e de núcleo de agrupamento; não é esta
uma prova de sua inteligente localização?" (Pierre Monbeig, "O estudo geográfico
das cidades", p.15). E ainda que se releve a primeira fundação de Piratininga
por Martim Afonso de Souza em 1532, há documentos que atestam a criação, parelha
com a Vila, de uma capela, anterior, portanto, à que se iniciou em 1554.
Entretanto, esta primeira Vila não teve prosseguimento, embora mostre a
importante posição de São Paulo, como "centro de irradiação" para regiões e
climas tão díspares, o que chegou a fazer de São Paulo ponto estratégico para
toda a bacia do Prata (Cf. Jaime Cortezão, A fundação de São Paulo, capital
geográfica do Brasil, p.123). Ainda sobre o caso específico de São Paulo,
veja-se o que disse Caio Prado Jr.: "A superioridade do sítio de S. Paulo é
incontestável, e é provável que os jesuítas o tivessem escolhido justamente por
isso. Em primeiro lugar com relação à defesa contra as ameaças e ataques do
gentio; circunstância importantíssima, primordial, nas condições da época e que
não passaria por certo desapercebida ao observador de então.
A aldeia
jesuítica possuía a este respeito uma posição estratégica esplêndida. Ocupava no
alto de uma colina - onde hoje está o Largo do Palácio ou Pátio do Colégio - um
sítio naturalmente defendido por escarpas abruptas e acessível por um lado
apenas". (Caio Prado Jr. "O fator geográfico na formação e no desenvolvimento da
cidade de São Paulo", p.103). As próprias Atas da Câmara, aos doze dias do mês
de maio da era de mil quinhentos e sessenta e quatro anos, asseveram a
superioridade "econômica" e estratégica da Vila de São Paulo do Campo, "edifiquada
doze leguas pela tera dentro cõ muito trabalho longe do mar e das ditas vilas de
sãotos e são vicente por qto se não podião sostentar assim ao prezente como pelo
tempo hadiãte porquanto ao longo do mar se não podião dar os mãotimentos pª
sostentamtº das ditas vilas engenhos nem haverem pastos em quem podessem paser
ho muito gado vacum que há na dita vila e quapitania". Uma primeira referência
ao Pátio do Colégio aparece nesta mesma data: "o mosteiro de são paulo dos
padres da cõpanhia de jeshu q nela (a vila de São Paulo - L.S.) esta fazendo
muito fruito as allmas cõ sua dtrina e cõvertendo muitos indios e fazendo-os
cristãos". Por essa época, o Padre Manoel da Nóbrega já podia afirmar com
orgulho: "Fizemos casa e igreja" (Domus et Domuncula). Deixemos de lado a
polêmica, que interessa mais aos historiógrafos, sobre a existência, atestada
por documentos jesuítas da época, de uma capela velha, anterior à chegada de
Nóbrega e Anchieta, e alusiva à Piratininga de 1532... Importa guardar que o
primitivo templo de taipa de pilão, da época da fundação de São Paulo
(1554-1556) resistiu até 1640. Nessa época os jesuítas foram expulsos de São
Paulo, por divergirem seriamente da prática da escravização indígena para fins
mercantis. Sua volta deu-se em 1653, quando o templo foi reconstruído, com a
ajuda de muitas pessoas gradas da vila de São Paulo. A nova expulsão dos
jesuítas deu-se em 1759, por obra da política ilustrada e despótica do Marquês
de Pombal.
Desse modo,
serviu o Colégio de palácio do governo, passando por reformas na época do
governador D. Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus. O Pátio
do Colégio passou a ser chamado de Largo do Palácio por muito tempo. Em 1766, o
referido governador, em carta ao Primeiro Ministro de D. José I, o futuro
Marquês de Pombal, dizia que "este Collegio, que foi dos jesuítas especialmente
o Seminário em que estou aquartelado" estava entre os templos "mais suntuosos"
da cidade. São Paulo então não possuía mais do que 830 fogos e uma população de
menos de 4 mil pessoas. A Igreja, entretanto, resistiu. Mas até o fim do século
XIX. Sob o olhar frio do interesse, foi disputada judicialmente pelo governo que
ansiava por destruí-la. O que nem foi necessário, porque fechada e sem
manutenção, a mais antiga igreja paulistana, marco da fundação da metrópole,
raiz da urbe maior do Brasil, desabou em 1896. Seus restos foram demolidos a
dinamite, porque era preciso apagar de vez o passado jesuíta e colonial da
cidade. Parte das pedras foi curiosamente utilizada na construção de um
monumento a D. Antônio Joaquim de Mello, situado no antigo Seminário Episcopal.
Tratava-se de uma estátua de bronze sobre o granito, feita pelo escultor
italiano Alfredo Seganti.
Depois disso,
a história do Colégio dos jesuítas adormeceu por cerca de meio século! Por
ocasião das comemorações do IV centenário de São Paulo, em 1954, reavivou-se a
idéia de reconstruir o Colégio e a Igreja do Bom Jesus, a ele contígua. O
processo foi lento, e só findou nos anos 70, aproveitando-se o que restou das
antigas fundações da igreja seiscentista. O Colégio passou a ser propriedade da
Sociedade Brasileira de Educação, mantida pelos jesuítas. Mandados por lei, e
muito mais por gosto e dever de ofício, esses jesuítas obrigam-se a manter
cursos para jovens carentes e a administrar um museu que eterniza a memória de
São Paulo e do Beato Anchieta, fundador e primeiro educador "paulista". Seu
fêmur e seu manto estão expostos na Igreja. Que também possui um pátio interno,
infelizmente transformado em estacionamento de veículos, mas que abriga, com
algum aperto, um dos bons cafés da cidade. |