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Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte
Lincoln Secco
Datada de 1810,
foi esta Igreja construída em terreno adquirido pela Irmandade dos homens pardos de Nossa
Senhora da Boa Morte. Diz Paulo Cursino de Moura (São
Paulo de outrora, p.60): por cento e doze mil réis. Na esquina da rua que
vinha do quartel de voluntários reais. Situa-se, hoje, na rua do Carmo. Antiga rua da Boa
Morte, em cuja esquina, junto à Tabatinguera, habitou o mestre Chico, dono da sapataria invidiata (invejada) e que tão folclórico foi
naquelas bandas pelos fins do oitocentismo, segundo as lembranças de Miguel Milano no seu
livro Os fantasmas da São Paulo antiga.
Boa Morte é o que os
escravos pediam, subindo da atual Várzea do Glicério pela Tabatingüera, antes de serem
enforcados no Largo da Forca, ali na Liberdade, junto à atual Igreja das Almas dos
Enforcados. Seus parentes e amigos desciam, então, pela atual rua dos Estudantes e, na
igrejinha dos aflitos pediam um bálsamo espiritual para a aflição de suas almas.
Esta igrejinha
humilde tem algumas imagens de rara beleza. Beleza encarnada na simplicidade, sem o fausto
e a riqueza dos grandes templos de antanho. Uma imagem do Cristo trazida do Pátio do
Colégio, e que deve datar do século XVI, está lá, exsudando sua dor por todos os
poros. Na entrada está o lendário Santo Expedito, santo mais daquela igreja popular que
Antonio Gramsci, certamente, incluiria no senso comum do povo, do que da igreja oficial
dos teólogos e estudiosos da história eclesiástica, naturalmente mais exigentes quanto
à verdade histórica.
A Nossa Senhora das
Dores, a das Lágrimas e da Assunção também ornam as paredes laterais da igreja.
Contudo, chama a atenção a Nossa Senhora da Boa Morte ou do sono que espera a assunção
de Maria (a Dormitio Mariae), cuja celebração
se dá em 14 de agosto, um dia antes da Assunção.
A capela é pequena
para os homens grandes de hoje, ricos e poderosos que não realizarão ali seus casamentos
e outras exigências espirituais, como no passado. É igreja dos pequeninos. Ali
realizam-se muitos batismos. Mas o porte do templo e seu irremediável sabor colonial, com
suas paredes muito largas, não convidam às grandes cerimônias. Infiltrações de água,
uma pintura descuidada nas paredes e em algumas imagens, que nada têm de originais, mas
que também não podem ser restauradas sem a autorização do poder público, dificultam a
reforma da igreja. Em 1984 houve uma pequena reforma no forro e em torno de outros
detalhes. Insuficiente, como se pode ver.
A parte interna, cujo
acesso foi permitido pelo amigo Padre Sergio Bradanini, tem uma ou outra imagem barroca,
de pouco valor artístico. Mas um Cristo morto, que é usado na procissão da Semana
Santa, esconde-se lá dentro. Partilhando as dependências da igrejinha, reúne-se a
pastoral dos negros. Lá situa-se o quilombo central. O que faz dessa igreja da Boa Morte
uma espécie de irmã da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, lá no
Largo do Paissandu.
A antiga Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte é
humilde. É a igreja mais pobrezinha do centro de São Paulo. Mas é forte. E bonita à
sua maneira. Tão sem orgulho e sem vaidade que, às vezes, parece a única a lembrar que
Jesus Cristo veio para os pobres e os humildes: Bem aventurados vós, os pobres,
porque vosso é o Reino de Deus (Lucas, 6:20).
Endereço:
Rua Tabatinguera, 301 – 01020-000 – Centro – SP
Tel.: 3104-0055
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