|
Igreja de
São Cristóvão
Lincoln Secco
Avenida
Tiradentes. Proximidades da Rua São Caetano. Lá situa-se a simplória
Igreja de São Cristóvão, aquele gigante forte e bondoso que desejou
ser o mais fiel servidor do Rei de todos os reis. Para servir o
próprio Cristo, conta-se que ajudava pessoas a atravessar um rio. É
por isso o protetor dos viajantes.
Nos arredores
da Igreja avolumam-se motoristas, em busca da proteção divina. Sítio
arqueológico de relativa importância também foi encontrado no
terreno da Igreja. O que faz de São Cristóvão uma fonte de
inspiração para os pesquisadores da história de São Paulo.
A Igreja foi
inaugurada em 1856, junto com o Seminário Episcopal de São Paulo,
por capuchinhos provenientes da Savóia (França). Tinha um lado
esquerdo que foi derrubado, onde ficavam alguns teólogos, como nos
informa o maior historiador das Igrejas de São Paulo, Leonardo
Arroyo. O lado direito do Seminário lá permanece, ocupado por bares
e lojas. A construção é a mesma do século passado. Pobre, como a
maioria das igrejinhas da antiga cidade de São Paulo, notabilizou-se
por ter abrigado em seu seminário o mais triste dos poetas
paulistas: Paulo Eiró.
Paulo Eiró
nasceu na vila de Santo Amaro, hoje apenas um bairro da Zona Sul.
Precoce, foi poeta, dramaturgo de notável talento e, quando ainda
nem despontavam os liberais mais ousados, ele já demonstrava
consciência plena do problema racial e da questão republicana. Foi
aluno da Faculdade de Direito do Largo São Francisco e... do
Seminário. Lá, notabilizou-se pelo conhecimento profundo e original
da teologia. Chamou a atenção dos seus professores e superiores
hierárquicos. Conta seu biógrafo, Afonso Schmidt, que Paulo Eiró foi
convidado a retirar-se do Seminário devido suas inclinações por
teorias políticas mundanas.
Lembremos que
o Vice-Reitor do Seminário, o capuchinho espanhol Frei Firmino de
Centelhas havia lutado nas hostes carlistas em Espanha, conforme diz
o Monsenhor Paulo Florêncio de Camargo em sua volumosa A Igreja
na História de São Paulo (V.7, p.216). "Carlistas" eram os
seguidores do ultraconservador e tradicionalista D. Carlos. Já o
Reitor, Frei Eugênio de Rumilly, de origem francesa, havia conhecido
os "males" da Revolução de 1848 na Europa.
Apaixonado e
rejeitado, triste e solitário, viajou a pé por grande parte do
território paulista. Também foi ao Rio de Janeiro e tentou chegar às
Minas Gerais. Morreu supostamente enlouquecido no hospício que
ficava ali pelas bandas da Igreja do Carmo.
Porque falar
de Paulo Eiró? Porque a Igreja de São Cristóvão, apesar dos seus
alegres cultos aparentados à Renovação Carismática, que hoje
empolgam tantos fiéis, não consegue livrar-se da lembrança do mais
desgraçado dos poetas que São Paulo já possuiu.
Par. São Cristóvão - (24.03.1940)
Av. Tiradentes, 84
CEP: 01102.000 - Luz - S. Paulo - SP
Fone: 11 - 3227.3790
Mande
também a sua opinião
|