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Especial - Eleições

Ano I - Nº8 - novembro de 2000

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Quem perdeu, perdeu por quê?

 Luiz Antonio Magalhães

Em qualquer lugar do mundo, quando a oposição vence uma eleição, conclui-se que os eleitores estão insatisfeitos com o governo. Em qualquer lugar do mundo, menos no Brasil. Aqui, desde o momento em que foi confirmada a espetacular vitória nas eleições municipais das forças de oposição a FHC – e em especial do PT –, diversos colunistas gastaram seu tempo para tentar "interpretar" as motivações do eleitorado.

No país da ambigüidade, nada é pão-pão, queijo-queijo. Os colunistas fazem malabarismos para provar a tese de que o povo brasileiro, apesar de votar maciçamente nos partidos de oposição, está feliz e satisfeito com o governo. Cinismo à parte, há basicamente duas linhas de "raciocínio" que vêm sendo utilizadas para mostrar que os votos do último domingo não representam a rejeição do governo do presidente Fernando Henrique. Ambas, como veremos, são pura falácia.

Em primeiro lugar, há os que advogam a tese de que o PT realmente venceu as eleições. São os menos cínicos. De cara, angariam a simpatia do leitor ingênuo de esquerda. À admissão da vitória petista, no entanto, geralmente segue uma complexa digressão a fim de demonstrar que o PT de hoje não é mais o mesmo. Os apelidos são vários: "PT channel", "cor-de-rosa" ou "light". Teria sido nesses PTs, e não no antigo e vermelho, que o povão votou.

No 1° turno, como já escrevi aqui, a explicação até colava um pouco: a ala moderada do partido de fato saiu fortalecida das urnas. Mas também escrevi que os moderados estão muito longe de serem os sociais-democratas conciliadores que a imprensa chapa branca está pintando e deseja que se tornem.

De toda maneira, o argumento da vitória do "PT light" cai por terra quando se analisa o 2° turno. A eleição do último domingo foi marcada, como bem observou o deputado José Dirceu, pela iniciativa dos partidos adversários em caracterizar ideologicamente a disputa. Em outras palavras, quem concorreu contra o PT tratou de partir para o ataque e vincular o partido ao MST, à bandeira vermelha, ao comunismo stalinista etc.

Em todos os municípios os cidadãos estavam devidamente avisados dos "riscos" de eleger prefeitos do PT. Avisados, sobretudo, que a agremiação é "do contra". E, apesar de tudo, o PT venceu em 13 das 16 cidades onde disputou o 2° turno. Ou seja, o povão votou mesmo foi nos vermelhos, ainda que muitos deles sejam realmente um pouco cor-de-rosa.

O segundo argumento para mostrar que a derrota governista não foi lá essas coisas é um pouco mais cínico. Como não podia deixar de ser, saiu da boca do presidente da República e imediatamente ganhou o apoio alegre dos jornalistas de mercado. Disse o presidente que o PT cresceu, mas que desta vez os eleitores "votaram pela moralidade".

Político da velha guarda, FHC não iria passar recibo assim tão fácil: ao associar o crescimento do PT à virtude da honestidade, o presidente na verdade tenta deslocar a discussão sobre o caráter da eleição para um plano secundário.

Em muitas localidades, notadamente em São Paulo, é óbvio que o voto nos candidatos da oposição representou também um grito de repúdio à intensa onda de corrupção que a população assiste e da qual é vítima nos últimos tempos. O presidente, no entanto, "se esquece" de dizer que os rejeitados em prol da moralidade na eleição deste ano são, desde sempre, os seus aliados e, em alguns casos, os seus companheiros de partido.

O "esquecimento" de FHC, porém, faz parte do show: de forma geral, a corrupção é identificada pela população como um ato individual, não como um problema sistêmico. Assim, ao dizer que o voto foi "pela moralidade", o presidente aposta em uma auto-imagem de homem honesto (fraco e subserviente, mas honesto). E não se achando corrupto, FHC pode dizer que o recado das urnas não foi para ele, mas para Malufs e afins.

O argumento de FHC cai por terra de duas formas: em primeiro lugar, é preciso lembrar que a eleição teve dois turnos. Se no 2° turno a disputa ficou entre petistas e candidatos corruptos de outros partidos que não o PSDB, é porque os tucanos perderam dos corruptos. Ora, se até corruptos venceram o PSDB no primeiro pleito, seguindo a lógica do presidente, de duas uma: ou a população identificou os "menos corruptos" – e entre eles não estão os tucanos –, ou o povão está mesmo cansado do mandarinato de Fernando Henrique.

Talvez fosse melhor, até por razões biográficas, o presidente ser mais humilde e reconhecer como verdadeira a segunda opção. Mas humildade, infelizmente, não é o forte de Fernando Henrique Cardoso.

Luiz Antonio C. C. Magalhães é editor-assistente do Observatório da Imprensa, ex-editor do Correio da Cidadania

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