Cultura

Ano I - Nº4 - Julho de 2000

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Marilena Chaui aborda os 500 anos do Brasil refletindo
sobre o mito fundador da nacionalidade


A obra inaugura a coleção História do Povo Brasileiro, da Editora Fundação Perseu Abramo, examinando as relações entre a idéia de um país "abençoado por Deus" e o autoritarismo de nossa sociedade.

Brasil: mito fundador e sociedade autoritária é o novo e instigante ensaio de Marilena Chaui, com que a Editora da Fundação Perseu Abramo inaugura a coleção História do Povo Brasileiro, coordenada pelo historiador Marco Aurélio Garcia. A coleção vai se compor de volumes breves e temáticos, que apresentarão questões essenciais da História do Brasil, recolhendo e divulgando a produção daqueles que, nos últimos 25 anos, se dedicaram a pesquisar e analisar de forma crítica a nação.

Nesta obra inaugural, a autora – uma das mais altas expressões da Filosofia no país – volta seu olhar percuciente para a idéia fundadora de nossa nacionalidade, escrevendo um ensaio em que se interpenetram Filosofia e História. Segundo Marilena Chaui, o Brasil e a América não são "descobertas" ou "achamentos", como se dizia no século XVI, mas invenções históricas e construções culturais.

"Embora uma terra ainda não vista nem visitada estivesse aqui", explica a filósofa, "o Brasil é uma criação dos conquistadores europeus. O Brasil foi instituído como colônia de Portugal e inventado como ‘terra abençoada por Deus’, à qual, se dermos crédito a Pero Vaz de Caminha, ‘Nosso Senhor não nos trouxe sem causa’".

Para Marilena Chaui, a construção e o desenvolvimento dessa idéia constitui o mito fundador do Brasil. Uma representação ideológica que serve aos interesses dos que mandam e sempre mandaram em nosso país. Uma idéia que permite, por exemplo, a alguém afirmar que os índios são ignorantes, os negros indolentes e os nordestinos atrasados, mas ao mesmo tempo declarar orgulho de ser brasileiro porque somos um povo sem preconceitos e uma nação nascida da mistura de raças.

Em suma, essa representação permite que uma sociedade que tolera a existência de milhões de crianças sem infância e que, desde o seu surgimento, pratica o apartheid social possa ter de si mesma a imagem positiva de sua unidade fraterna. "Se indagarmos de onde proveio essa representação e de onde ela tira sua força sempre renovada, seremos levados em direção ao mito fundador do Brasil, cujas raízes foram fincadas em 1500", afirma a autora.

Marilena Chaui leciona no Departamento de Filosofia da USP e suas áreas de especialização são História da Filosofia Moderna e Filosofia Política. Membro fundador do Partido dos Trabalhadores, foi secretária municipal de Cultura de São Paulo. Vem escrevendo trabalhos sobre ideologia, cultura popular, democracia e socialismo, além de obras sobre Merleau-Ponty e Espinosa.

 
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