A obra inaugura a coleção História do Povo Brasileiro, da Editora Fundação Perseu
Abramo, examinando as relações entre a idéia de um país "abençoado por
Deus" e o autoritarismo de nossa sociedade. Brasil: mito fundador e
sociedade autoritária é o novo e instigante ensaio de Marilena Chaui, com
que a Editora da Fundação Perseu Abramo inaugura a coleção História do Povo
Brasileiro, coordenada pelo historiador Marco Aurélio Garcia. A coleção vai se compor
de volumes breves e temáticos, que apresentarão questões essenciais da História do
Brasil, recolhendo e divulgando a produção daqueles que, nos últimos 25 anos, se
dedicaram a pesquisar e analisar de forma crítica a nação.
Nesta obra inaugural, a autora uma das mais altas expressões da Filosofia no
país volta seu olhar percuciente para a idéia fundadora de nossa nacionalidade,
escrevendo um ensaio em que se interpenetram Filosofia e História. Segundo Marilena
Chaui, o Brasil e a América não são "descobertas" ou "achamentos",
como se dizia no século XVI, mas invenções históricas e construções culturais.
"Embora uma terra ainda não vista nem visitada estivesse aqui", explica a
filósofa, "o Brasil é uma criação dos conquistadores europeus. O Brasil foi
instituído como colônia de Portugal e inventado como terra abençoada por
Deus, à qual, se dermos crédito a Pero Vaz de Caminha, Nosso Senhor não nos
trouxe sem causa".
Para Marilena Chaui, a construção e o desenvolvimento dessa idéia constitui o mito
fundador do Brasil. Uma representação ideológica que serve aos interesses dos que
mandam e sempre mandaram em nosso país. Uma idéia que permite, por exemplo, a alguém
afirmar que os índios são ignorantes, os negros indolentes e os nordestinos atrasados,
mas ao mesmo tempo declarar orgulho de ser brasileiro porque somos um povo sem
preconceitos e uma nação nascida da mistura de raças.
Em suma, essa representação permite que uma sociedade que tolera a existência de
milhões de crianças sem infância e que, desde o seu surgimento, pratica o apartheid
social possa ter de si mesma a imagem positiva de sua unidade fraterna. "Se
indagarmos de onde proveio essa representação e de onde ela tira sua força sempre
renovada, seremos levados em direção ao mito fundador do Brasil, cujas raízes foram
fincadas em 1500", afirma a autora.
Marilena Chaui leciona no Departamento de Filosofia da USP e suas áreas de
especialização são História da Filosofia Moderna e Filosofia Política. Membro
fundador do Partido dos Trabalhadores, foi secretária municipal de Cultura de São Paulo.
Vem escrevendo trabalhos sobre ideologia, cultura popular, democracia e socialismo, além
de obras sobre Merleau-Ponty e Espinosa. |