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Cultura |
Ano I - Nº8 - novembro de 2000 |
Livros Limites sem trauma Como, quando e por que dizer "não" aos filhos. E
também como, quando e por que dizer "sim". Limites sem
trauma, o novo livro da consagrada educadora Tania Zagury, tem
tudo para se tornar o livro de cabeceira de pais e mães brasileiros. Com
utilíssimos capítulos divididos por faixas etárias, o livro
‘descomplica’ o dia-a-dia da família e indica as necessidades das
crianças em cada etapa do desenvolvimento — sempre relacionadas às
respectivas tarefas dos pais em relação aos limites. Hoje, dez anos depois, do lançamento
de seu primeiro livro, Sem padecer no paraíso: em defesa dos pais ou
sobre a tirania dos filhos — onde Tania alertava para as conseqüências
sociais da liberdade excessiva e da falta de autoridade dos pais — a
sociedade se horroriza com o que a autora já denunciava e assiste, sem
compreender, ao incremento assustador do envolvimento de adolescentes de
classes média e alta, de boas escolas e família estruturada, em atos de
incivilidade, agressões, assassinatos e violência. A professora Tania
Zagury, pioneira na discussão do papel dos limites na educação, vem
perseguindo o objetivo de fazer com que os pais readquiram a percepção
de que seu principal papel é o de formar cidadãos, pessoas capazes de,
pela postura ética, transformar a sociedade, fato fundamental para evitar
a marginalização dos jovens. LIMITES SEM TRAUMA cumpre a tarefa de dar segurança,
embasamento técnico e diretrizes educacionais aos pais, livrando-os da
culpa e da insegurança que tanto os afligem. Por acompanhar sempre muito
de perto as dificuldades encontradas para alcançar o sonho de fazer com
que os filhos cresçam felizes, saudáveis e produtivos, Tania traz a público
agora, em boa hora, este novo trabalho que, com certeza, é exatamente o
que os pais precisavam — um livro que lhes dará a base para
operacionalizar o que se tornou talvez a mais difícil de todas as
tarefas: dar limites aos filhos. Trata-se, sem dúvida, de uma
obra definitiva sobre a questão dos limites. Em 1991, Tania Zagury publicou
o livro Sem padecer no paraíso: em defesa dos pais ou sobre a tirania
dos filhos, que rapidamente se tornou um best seller. Dois anos
depois, foi lançado Educar sem culpa: a gênese da ética, que
enfatiza a importância da ética na educação. No livro O adolescente
por ele mesmo, de 1996, Tania Zagury entrevistou 943 jovens em todo o
Brasil, traçando um retrato de corpo inteiro dos adolescentes brasileiros
que se tornou referência para pais e educadores. O romance Rampa
— um denso relato sobre o sofrimento dos sem-teto — foi a estréia da
autora na área ficcional, em 1997. Em 1999, ela publicou Encurtando a
adolescência, que trata das dúvidas mais freqüentes de pais de
jovens. Tania Zagury, filósofa e
mestra em Educação, não acredita em "achismos": seus livros
sempre têm como ponto de partida a pesquisa científica. Leia um Capítulo: Antigamente,
ninguém sequer discutia o assunto. Criança não
sabia e, portanto, precisava aprender. E nós, adultos, tínhamos de
ensinar. De maneira que, por exemplo, quando o menino fazia algo errado,
respondia mal à vovó, agredia um coleguinha ou não queria fazer o
"dever de casa" os pais não tinham dúvidas — agiam,
corrigiam, "davam castigo" — muitos até batiam!!! (Lá em
casa, temos guardada uma aterrorizante e incrível palmatória — que meu
marido, um belo dia, conseguiu com a ex-professora primária do meu sogro,
para figurar na sua coleção de antigüidades... com o caráter especialíssimo
de ter sido usada no avô dos meus filhos, quem haveria de crer hoje?) Com as mudanças
ocorridas durante o século XX, tanto no campo das relações humanas como
no da educação, as pessoas foram aprendendo a respeitar as crianças,
entendendo que elas têm, sim, querer (há pouco mais de três décadas
nossos pais diziam com toda segurança "criança não tem
querer", quem não lembra?), gostos, aptidões próprias e até
indisposições passageiras — exatamente como nós, adultos. Com isso, sem dúvida,
muita coisa melhorou para as crianças — e, claro, para nós adultos
também. O relacionamento entre pais e filhos ganhou mais autenticidade,
menos autoritarismo. O poder absoluto dos pais sobre os filhos foi
substituído por uma relação mais democrática. E o entendimento
cresceu... Todos ficaram felizes... Será? Será que
as coisas aconteceram assim de forma tão harmoniosa, com todos? Na verdade, não.
Em muitos casos, surgiram problemas, porque ocorreram uma série de
enganos e distorções em relação a essa nova forma de relacionamento
familiar. E por quê? Será
que essas novas teorias estavam, afinal, erradas? Em parte sim e em parte
não. O problema maior que ocorreu — e ainda vem ocorrendo — é que
muitos pais estão tendo sérias dificuldades para colo- Como saber a hora
de dizer sim e a hora de dizer não? Aliás, perguntam-se,
aflitos, muitos pais, há, de acordo com essas novas teorias, realmente
uma hora para dizer não? Negar alguma coisa para os filhos parece
um crime, um verdadeiro pecado atualmente, ou, no mínimo, um ato autoritário,
um modelo antiquado de educar. Afinal, tantas obras publicadas indicam
tudo que não se deve fazer e tão poucas oferecem realmente uma diretriz
para clarear o caminho de quem quer bem orientar os filhos... Muitos papais e
mamães ficam em sérias dificuldades ao tentarem colocar em prática
aquelas idéias tão lindas Aquele
relacionamento ideal, perfeito, em que a mamãe, com todo carinho (e com
toda razão), explica (sem Onde foi que
eu errei?
perguntam-se, desesperados, os pais. Afinal, conversam, explicam, não
agridem, não impõem, não batem, não castigam... e, no fim, a vida está
virando um verdadeiro inferno, quanto mais fazem, mais os filhos querem
que se faça, já não sabem mais o que dizer, como agir, estão
desesperados! Um belo dia, percebem-se, admirados, a dizer "no meu
tempo não era assim", aquela frase odiável que ouviram tantas vezes
e, agora, quem diria, eles próprios a estão dizendo, e o que é pior,
resolveram "virar a mesa", estão castigando os filhos,
berrando, se escabelando, irritados, perdidos... Parece o fim do
mundo? Parece. Mas, felizmente, não é. Já dizia Aristóteles,
um filósofo que viveu muito antes de Cristo, "a justiça está no
meio-termo". Ou seja, o que ocorreu foi que, no afã de atender aos
reclamos da moderna pedagogia e da psicologia, os pais perderam um
pouquinho o rumo — e, sem querer, exageraram na dose — quiseram tanto
acertar que, por vezes, erraram. Mas, calma, nada
que não tenha remédio! Algumas regras básicas são suficientes para
colocar a casa em ordem e a vida em paz!... E é exatamente o
que vamos fazer aqui: explicar com clareza e objetividade como ser um pai
moderno — sem perder a autoridade, sem deixar que os filhos cresçam sem
limites e sem capacidade de compreender e en- Para possibilitar
o surgimento desse ser humano maravilhoso é necessário que os pais
tenham certeza de uma coisa: dar limites é importante. Não pode haver dúvidas
quanto a isso. Antes de começar é preciso pensar — e decidir. É fundamental
acreditar que dar limites aos filhos é iniciar o processo de compreensão
e apreensão do outro (atualmente muita gente acredita que o limite
provoca necessariamente um trauma psicológico e, em conse- –
Pode morder e arrancar os cabelos do amiguinho só porque ele pegou seu
brinquedo favorito? Não, é claro. –
Pode dar vontade de entupir o vaso sanitário da escola com papel higiênico?
Não, não pode. –
Pode dar vontade de jogar uma mesa do segundo andar de um prédio, só
para ver o que acontece com o chão, lá embaixo? Não, não pode. –
Pode dar vontade de pichar as paredes bran- –
Pode dar vontade de dirigir, depois de beber –
Pode dar vontade de correr como o vento na –
Pode dar vontade de pegar aquela bolsa lindinha e nova que a amiga comprou
e levar para você? Também não pode não. –
Pode fingir que não percebeu que a conta do restaurante veio totalizada a
menos e não falar nada? Não, não e não! –
Pode dar uma facada na namorada que o deixou por outro? Jamais! Porém
acontece!
Mas
só vai responder "não, não pode não" quem desde pequenino
tiver aprendido que muitas coisas podem, e muitas outras não podem e não
devem ser feitas, mesmo que dêem muita vontade ou prazer. E tudo bem.
Somos felizes assim, respeitando e tendo algumas regras básicas na vida.
Especialmente se aprendemos a amar o outro e não apenas a nós próprios. E,
nós, os pais, queremos muito ver nossos filhos crescendo no rumo da
felicidade, não queremos? Então temos de ajudá-los nisso. Porque ninguém,
ao vir ao mundo, sabe o que é certo e o que é errado. O ser humano, ao
nascer, não tem ainda uma ética definida. E somos nós, especialmente nós,
os pais, que temos esta tarefa fundamental e espetacular — passar para
as novas gerações esses conceitos tão importantes e que conferem ao
homem sua humanidade. Então,
se estamos todos de acordo, mãos à obra! Vai valer a pena!
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