|
A ridícula
movimentação por parte do establishment norteamericano em torno da necessidade
da redução do efeito estufa revela uma ironia macabra do nosso tempo. No mesmo momento
em que o planejamento democrático abrangente, numa escala global, torna-se uma condição
para a sobrevivência da espécie humana no longo prazo, a mera sugestão de que o centro
desse planejamento pudesse estar localizado em qualquer outro lugar que não as salas das
diretorias das grandes corporações é amplamente relegada - também ironicamente - a
"lata de lixo da história".
A idéia do socialismo ecológico faz frente a
esse descarte prévio e frontal. Ela responde diretamente ao sentimento crescentemente
reconhecido, mesmo no mundo dos negócios, de que as contradições do capitalismo, longe
de terem diminuído desde a época de Marx, apenas se intensificaram1.
Dentre os possíveis modos de tratar esse dilema, o socialismo ecológico oferece uma
abordagem abrangente. Neste discurso inicial eu proponho, em primeiro lugar, definir o
socialismo ecológico; em seguida, delinear os contornos de uma sociedade socialista
ecológica; e finalmente, refletir sobre algumas difíceis questões da transição.
I. Princípios fundadores
O que é socialismo ecológico? Ou, para começar quais são os eixos
programáticos do pensamento socialista e ecológico?
A meta ecológica é a da vida humana de algum modo em equilíbrio com o resto da
natureza. Eu entendo "equilíbrio" não com o sentido de algo absoluto ou
atemporal, mas basicamente no sentido da manutenção de um máximo de biodiversidade e um
mínimo de propaganda de substancias tóxicos ou causadoras do efeito estufa2.
Esse equilíbrio pode ser considerado desejável por si só e ao mesmo tempo como
condição para a sobrevivência da espécie humana. Não ha nenhuma incompatibilidade, a
principio, entre essas duas lógicas. Não são as necessidades humanas que colidem com a
busca do equilíbrio natural, mas apenas a estruturação das necessidades humanas como
vem se desenvolvendo segundo as exigências ou as pressões exercidas pelo capital. As
"necessidades" resultantes - tais como a acumulação privada, um vasto aparato
militar, transporte individual, e vários vícios - são produtos dessa dinâmica. Na
perspectiva do ser humano como indivíduo, elas são instrumentais ou adaptativas - não
trazem auto-realização. Por contraste, necessidades humanas tais como são de,
criatividade e sociabilidade, longe de serem ameaçadas, só podem ser promovidas pelo
equilíbrio natural.
O objetivo do socialismo é o advento de uma sociedade divisões de classe. Assim
como a noção do equilíbrio natural, esse objetivo pode ser perseguido enquanto tal ou
pelas muitas outras possibilidades que uma sociedade desse tipo - e a luta para atingi-la
- abririam. Elas incluem a superação das desigualdades de raça, gênero, região, e a
possibilidade de um meio ambiente propício para vida de todos os seres humanos. De novo,
não há uma divisão pronunciada entre o bem intrínseco e os benefícios indiretos; os
dois estão ligados, embora não mecanicamente, mas dialeticamente. Conseqüentemente, nem
todos os problemas nessas áreas aparecem em termos de classes, mas todas as tentativas de
soluções racionais esbarram, em ultima instância, em obstáculos relacionados a
interesses de classe3. um tema constante, de todo modo, é a necessidade da
superação das injustiças sociais, das ineficiências sociais, da aus6ncia de
responsabilidades, e da mis6-na espiritual e material gerada ou intensificada pelo modo
capitalista de produção.
Para que o socialismo ecológico possa tornar-se um movimento ou uma ordem social, ele
precisa elaborar uma síntese convincente desses dois conjuntos de aspirações
independentemente do potencial abstrato para essa síntese, sua construção práticas
dependerá de um dialogo entre aqueles (indivíduos e grupos) cujas orientações iniciais
em relação a essas aspirações são tão distante quanto as duas visões - as visões
sendo tornadas, nesse primeiro momento, separadamente.
O diálogo ecologia/socialismo assume muitas formas. Ele remete, em todo caso, para o
gradual esclarecimento da resposta à questão: qual a contribuição de cada lado para a
visão proposta pelo outro?
1. Sobre a intensificação das contradições do capitalismo, ver Ellen Meiksins Wook,
"Back to Marx", Monthly Review vol49, n2 (june 1997); sobre o reconhecimento
deste fenômeno pelo mundo dos negócios, ver John Cassidy, "The Return of Karl
Marx", New Yorker, 20/27 october 1997. p.248
2. Para uma crítica das noções históricas de "equilíbrio", ver Daniel
Botkin, Discordant harmonies: A New Ecology for the Twnty-first Century (New York: Oxford
University Press, 1990), cap. 2. Para uma discussão historicamente informada da questão
da biodiversidade ver especialmente, Yrjo Haila e Richard Levins, Humanity and Nature:
Ecology, Sciencie and Society (London:Pluto Press, 1992).
3. Ver Victor Wallis, "Marxism and the U.S. Left: Thoughts far the 1990s",
Monthly Review vol.43, n. 2 (]une 1991), p.9.
Mande
também a sua opinião
|