logo_partes_pqno_w.jpg (11208 bytes)

Memória

Ano I - Nº9 - dezembro de 2000

Principal
Editorial
Educação
Em Questão
Esportes
Cotidiano
Comportamento
Cultura
Memória
Poesia e Crônicas
Outras Edições
Saúde
Sócio Ambiental
Reflexão
Terceira Idade
Turismo
 
Participe
Tascas
Fórum
Cartas
Esotérico
Econotas
Humor
Pílulas
Nossa Língua
Fale conosco
Serviços
Agenda
Desaparecidos
Casa, Rua e Cia
Fotos
Links
Especiais
Gilberto Freyre
Eleições 2000
Links do mês
Biblioteca Cervantes
Casa da Ciência

A ostra e a pérola fina 

Hamilton Cardoso

Muito bem: o próximo passo que você deve dar é o estudo das migrações internas, principalmente depois da Segunda Grande Guerra. Na primeira fase, antes do golpe de 64 (seis dias antes da sua prisão) e a instauração do regime militar, que passará para a história como o regime que mais deixou desaparecidos políticos no Brasil – o que não é verdade, é mentira! – as populações negras, que estavam concentradas mais ao norte do Brasil se movimentaram em direção ao sul. É a fase em que surgiram os grandes problemas sociais brasileiros; quando começaram as crises de violência urbanas. Mas é também o período que houve maior dinamização das culturas nacionais – e que, quando é mais conveniente para quem manipula poderes, é chamado e definido como culturas negras. È, de certa forma, quando o Brasil começou a ganhar projeção mundial. A capital do país deixou de ser Buenos Aires no imaginário europeu e começou a se tornar Rio de Janeiro, como de fato era. Mas, com um inconveniente para nós, os meus compatriotas negros: o Rio de Janeiro também se transformou na capital mundial da malandragem e da prostituição. É quando os norte-americanos criaram o personagem Zé Carioca – um brasileiro por excelência. Mas o Brasil, e não os negros, ganharam, ainda que às nossas custas e um preço altíssimo, visibilidade no mundo.

 

O que os negros, e todos os meu compatriotas neste país, ganhamos meu caro, foram as bases das condições para que pudéssemos gerar circunstâncias novas. O atual presidente da República do Brasil, - o seu anfitrião principal – Fernando Collor de Mello, o único brasileiro com autoridade suficiente para convidá-lo, o que teríamos feito bem antes, se pudéssemos – quer marcar a passagem d ele pelo cargo dizendo que criou o Brasil Novo. Mas isto não é verdade.

Pelo menos não toda a verdade, porque aquela movimentação intensa de negros, invisível para os que liam sem estas dicas metodológicas de avaliação do país que eu estou lhe passando e, acham que foi o atual presidente da República que, com a violência característica do governo dele – violência mental comum e tradicional nos países colonizados, inclusive no Brasil onde a tradução da palavra sahib é senhor – inovou posturas e procedimentos individuais e a economia do país. O que não é verdade, por exemplo, é que ele, antes de outros, tinha preocupações com a preservação ambiental e ecológica. Eu mesmo, em 83, durante um debate onde o Paulo Schilling, - um intelectual de esquerda, que teve uma filha envolvida em problemas políticos no Paraguai ou Uruguai, não me lembro, durante os regimes militares dos nossos países, - e o Fernando Gabeira, um ex-guerrilheiro brasileiro que depois de viver a experiência de um imigrante, estranho, num país europeu voltou ao Brasil defendendo a natureza e a ecologia, eu tive que fazer a defesa de Gabeira. O Schilling dizia que ele estava preocupado com as coisas menores e que era realmente relevante era a mão de obra explorada. Disse que, mais que as árvores derrubadas, os operários perdiam as mãos ou o dedo – como o presidente do meu partido, o Lula, que perdeu um dos dele na produção. Eu fui obrigado a dizer para o Paulo Schilling que a força de trabalho não era alguma coisa material, mas  se expressava através de um elemento da natureza que é o indivíduo identificado ou submetido à condição de operário. É algo, digamos, espiritual. Ambos são parte da natureza e não há contradição, nem deve ser privilegiada a defesa de um deles, - eu disse.

 

E quase dez anos depois o ministro do meio Ambiente de Collor, o Lutzemberger foi à Europa dizer que a imigração de trabalhadores europeus para a América só foi possível por que a mão de obra local foi depredada. Ele se referia aos nativos, praticamente exterminados no Brasil, e não à escravidão que atingiu todos os negros, matando aos nativos, povos originários conhecidos como índios, e dilapidando as capacidades produtivas e criativa dos importados da África.  Mas de qualquer modo ele foi à Europa, que a maioria dos brasileiros tem acesso ou desfrutam de algum poder acreditam que pé o centro do mundo, e sempre será, para dizer aos europeus – que são meio compatriotas deles – alguma coisa que a minha mãe, que aprendeu com a avó, que aprendeu com seus antepassados dela nos terreiros de macumba e me disse na cozinha de casa, e a um vizinho meu que estava perto e riu. Ele riu porque a minha mãe é considerada analfabeta, não tinha freqüentado escola, não sabia ler e nem escrever, e por isto não era levada a sério em alguma coisa que dizia.

 

Na verdade, tudo o que o atual presidente do que ele chama de Brasil Novo faz, é velho. Como a perestróika do apartheid na África do Sul. Ela, e você sabe disto, meu caro, é antiga no Brasil. A diferença entre nós é que na África vocês estão na terra  dos seus antepassados, são explorados e discriminados por brancos que podem e se consideram de primeira categoria, têm tradição exploratória no sentido que querem ocupar o território – e isto desde o início – ao contrário dos daqui. Os nossos brancos, meu caro, vivem com o estômago no Brasil e o espirito, a cabeça, na Europa. E os nosso, se é que temos algum problema que possa ser considerado problema racial –(a maioria de nós, atualmente gosta desse ser negro e não vê problema nisto) – é que eles querem vincular as nossa cabeças também, à Europa. É uma violência mental, você sabe disto, mas também é por isto, inclusive, que a sua visita é extremamente útil, mais para nós do que para vocês. Temos uma alternativa e podemos – faremos- optar. OPTaremos, com certeza, homem!

 

Mas, como diz o meu amigo professor José Álvaro Moisés, voltemos ao ponto: os nossos ganhos com aquele processo migratório intenso no pós Grande Guerra, foram fundamentalmente econômicos.

 

O professor Florestan Fernandes, por exemplo, considerado por muitos o mais genial dos sociólogos brasileiros, o que lhe valeu milhares de votos e eleitores para ser deputado federal, além do direito de ceder  o nome à universidade e ser pago para isto, - o que eu acho justo, belo e invejável – começou a se notabilizar por ter estudado a integração do negro na Sociedade de Classes e o Negro no mundo dos Brancos. Ele é marxista e foi um dos primeiros homens da universidade, brancos, a fazerem uma denúncia radical do racismo no Brasil.

Entre outras coisas ele constatou as dificuldades dos meus compatriotas negros para se reintegrarem à produção, expulsos que foram durante o processo abolicionista. Eu suspeito que na África do Sul agora, ao invés de importação de mão de obra livre e branca, eles vão importar capitais, via brancos, principalmente.  Será uma conversa de brancos e se não ocorrer uma cumplicidade entre os empresários negros do exterior, brasileiros e norte-americanos inclusive, com a complacência dos setores mais radicais dos chamados movimentos negros fora da África, e de libertação nacional no país que vocês chamam de Azania, vocês serão expulsos do modo de produção de capitais. O capital – financeiro ainda não encontrou uma oposição à altura que, segundo os marxistas clássicos, seria a revolução comunista mundial, impossível enquanto existir o racismo, o etnocentrismo ou a xenofobia. O próprio Marx, quando começou a estudar estas coisas e idéias que agora, - quando dizem que o socialismo está morrendo – começam a virar cadáveres que serão enterrados pelo muro de Berlim que caiu de podre, primeiro refletiu sobre a condição dele, de judeu. Após a questão judaica começou ingressar numa reflexão mais sofisticada, e moderna, do capital. Mas os judeus, que apesar de discriminados financiavam excursões de nativos europeus para o resto do mundo e organizavam o mercado financeiro mundial, tinham capital. Era mais fácil pensar e combater. Em última análise, ele não tinha medo e poderia dizer até que era um conflito de gerações. Bem:

Os japoneses podem vir a ser uma oposição, são ágeis, pelo menos renasceram de duas explosões, as primeiras, nucleares. Não têm mais medo. E o que perder.

 

De qualquer modo nas décadas de 50, quando os africanos e caribenhos começaram a chegar na Europa depredada pela guerra, - (que em última análise foi “uma conversa de brancos”, como nós falamos aqui no Brasil, porque ela não chegou à Índia ou à África do Sul, apesar de indianos e sul-africanos, como os brasileiros que foram para a Europa terem morrido durante ela) – os nordestinos vieram para o Sul e, com as necessidades de desenvolvimento nacional e a industrialização, inclusive – o que o professor Florestan Fernandes chamou de modernização conservadora, - até os conflitos raciais começaram ganhar conteúdo econômico. E ficou patente para a maioria dos negros a falta de identidade nacional dos brancos brasileiros.

 

Eles precisaram por exemplo, de samba para se afirmar no cenário mundial e a menina dos olhos dos intelectuais do Brasil, a bossa nova, não é mais que uma mistura de samba com jazz. Tanto que o primeiro artista homem brasileiro, que teve fama internacional, sem precisar, sem precisar mostrar bananas (frutas) aos norte-americanos, que segundo uma pesquisa recente do congresso norte-americano, publicada no Usa Today preferem bananas e não maçãs, como suponhamos, era, na verdade, um músico de jazz. A primeira, mulher, famosa nos EUA, Carmem Miranda as exibia na cabeça.  Eu não me lembro agora de nome dele, mas não existe outro, que seja branco ou tratado como tal pelos brasileiros brancos, que tenha feito mais sucesso que ele tocando piano naquele país. A maioria, depois dele, apesar da miséria dos músicos do Brasil que não têm direito inclusive a aposentadoria se começaram a trabalhar nesta área de trabalho por conta própria e sem apadrinhamento de um branco, antes da década de 70, são negros.  O nome dele deve ser, lembro agora, mr. Mendes.

 

Esta falta de identidade nacional dos brancos brasileiros, foi a primeira chance de organização, invisível inclusive, das lutas anti-racistas.

 

É fantástico, meu caro! Mas se você for verificar o perfil das culturas políticas brasileiras, desde a criação de Brasília e a implantação das primeiras indústrias multinacionais de grande porte, você vai ver que elas são negros, apesar dos personagens brancos. A peça teatral mais importante de década de 60 fala de Zumbí dos Palmares. Refere-se ao coração da identidade nacional e ao primeiro desaparecido político inutilizado no Brasil. O nome dele – eu imagino – no imaginário popular do Brasil colonial Ele não dormia nunca, estava sempre acordado, com sono, combatendo. Era um morto-vivo, um fantasma para a dominação estrangeira e as injustiças no Brasil. A peça ARENA CONTA ZUMBÍ.

 

Depois, toda a estrutura musical nacional de período do regime militar, produzir as grandes maiorias da população, se refere ao que foi definido como cultura negra no Brasil. Chico Buarque, por exemplo, considerado o maior compositor da oposição durante a luta pela democracia civil se inspirava e fazia sambas. E quando elegeu um símbolo para a consciência nacional anti-imperialista escolheu um mestiço, do tempo de Zumbí mas que não se aliou ao negro líder e dirigente mas aos holandeses, Calabar. Este cara era um mestiço, tradicionalmente conhecido como mulato. “Mixture”, na África do Sul.

(continua na próxima edição) 

Mande a sua opinião

Veja A Ostra e a pérola fina anterior

Veja: Igrejas