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Memória |
Ano I - Nº9 - dezembro de 2000 |
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A ostra e a pérola fina Hamilton Cardoso Muito bem: o
próximo passo que você deve dar é o estudo das migrações internas,
principalmente depois da Segunda Grande Guerra. Na primeira fase, antes do
golpe de 64 (seis dias antes da sua prisão) e a instauração do regime
militar, que passará para a história como o regime que mais deixou
desaparecidos políticos no Brasil – o que não é verdade, é mentira!
– as populações negras, que estavam concentradas mais ao norte do Brasil
se movimentaram em direção ao sul. É a fase em que surgiram os grandes
problemas sociais brasileiros; quando começaram as crises de violência
urbanas. Mas é também o período que houve maior dinamização das
culturas nacionais – e que, quando é mais conveniente para quem manipula
poderes, é chamado e definido como culturas negras. È, de certa forma,
quando o Brasil começou a ganhar projeção mundial. A capital do país
deixou de ser Buenos Aires no imaginário europeu e começou a se tornar Rio
de Janeiro, como de fato era. Mas, com um inconveniente para nós, os meus
compatriotas negros: o Rio de Janeiro também se transformou na capital
mundial da malandragem e da prostituição. É quando os norte-americanos
criaram o personagem Zé Carioca – um brasileiro por excelência. Mas o
Brasil, e não os negros, ganharam, ainda que às nossas custas e um preço
altíssimo, visibilidade no mundo. O que os
negros, e todos os meu compatriotas neste país, ganhamos meu caro, foram as
bases das condições para que pudéssemos gerar circunstâncias novas. O
atual presidente da República do Brasil, - o seu anfitrião principal –
Fernando Collor de Mello, o único brasileiro com autoridade suficiente para
convidá-lo, o que teríamos feito bem antes, se pudéssemos – quer marcar
a passagem d ele pelo cargo dizendo que criou o Brasil Novo. Mas isto não
é verdade. Pelo menos não
toda a verdade, porque aquela movimentação intensa de negros, invisível
para os que liam sem estas dicas metodológicas de avaliação do país que
eu estou lhe passando e, acham que foi o atual presidente da República que,
com a violência característica do governo dele – violência mental comum
e tradicional nos países colonizados, inclusive no Brasil onde a tradução
da palavra sahib é senhor – inovou posturas e procedimentos individuais e
a economia do país. O que não é verdade, por exemplo, é que ele, antes
de outros, tinha preocupações com a preservação ambiental e ecológica.
Eu mesmo, em 83, durante um debate onde o Paulo Schilling, - um intelectual
de esquerda, que teve uma filha envolvida em problemas políticos no
Paraguai ou Uruguai, não me lembro, durante os regimes militares dos nossos
países, - e o Fernando Gabeira, um ex-guerrilheiro brasileiro que depois de
viver a experiência de um imigrante, estranho, num país europeu voltou ao
Brasil defendendo a natureza e a ecologia, eu tive que fazer a defesa de
Gabeira. O Schilling dizia que ele estava preocupado com as coisas menores e
que era realmente relevante era a mão de obra explorada. Disse que, mais
que as árvores derrubadas, os operários perdiam as mãos ou o dedo –
como o presidente do meu partido, o Lula, que perdeu um dos dele na produção.
Eu fui obrigado a dizer para o Paulo Schilling que a força de trabalho não
era alguma coisa material, mas se
expressava através de um elemento da natureza que é o indivíduo
identificado ou submetido à condição de operário. É algo, digamos,
espiritual. Ambos são parte da natureza e não há contradição, nem deve
ser privilegiada a defesa de um deles, - eu disse. E quase dez
anos depois o ministro do meio Ambiente de Collor, o Lutzemberger foi à
Europa dizer que a imigração de trabalhadores europeus para a América só
foi possível por que a mão de obra local foi depredada. Ele se referia aos
nativos, praticamente exterminados no Brasil, e não à escravidão que
atingiu todos os negros, matando aos nativos, povos originários conhecidos
como índios, e dilapidando as capacidades produtivas e criativa dos
importados da África. Mas de
qualquer modo ele foi à Europa, que a maioria dos brasileiros tem acesso ou
desfrutam de algum poder acreditam que pé o centro do mundo, e sempre será,
para dizer aos europeus – que são meio compatriotas deles – alguma
coisa que a minha mãe, que aprendeu com a avó, que aprendeu com seus
antepassados dela nos terreiros de macumba e me disse na cozinha de casa, e
a um vizinho meu que estava perto e riu. Ele riu porque a minha mãe é
considerada analfabeta, não tinha freqüentado escola, não sabia ler e nem
escrever, e por isto não era levada a sério em alguma coisa que dizia. Na verdade,
tudo o que o atual presidente do que ele chama de Brasil Novo faz, é velho.
Como a perestróika do apartheid na África do Sul. Ela, e você sabe disto,
meu caro, é antiga no Brasil. A diferença entre nós é que na África vocês
estão na terra dos seus
antepassados, são explorados e discriminados por brancos que podem e se
consideram de primeira categoria, têm tradição exploratória no sentido
que querem ocupar o território – e isto desde o início – ao contrário
dos daqui. Os nossos brancos, meu caro, vivem com o estômago no Brasil e o
espirito, a cabeça, na Europa. E os nosso, se é que temos algum problema
que possa ser considerado problema racial –(a maioria de nós, atualmente
gosta desse ser negro e não vê problema nisto) – é que eles querem
vincular as nossa cabeças também, à Europa. É uma violência mental, você
sabe disto, mas também é por isto, inclusive, que a sua visita é
extremamente útil, mais para nós do que para vocês. Temos uma alternativa
e podemos – faremos- optar. OPTaremos, com certeza, homem! Mas, como diz
o meu amigo professor José Álvaro Moisés, voltemos ao ponto: os nossos
ganhos com aquele processo migratório intenso no pós Grande Guerra, foram
fundamentalmente econômicos. O professor
Florestan Fernandes, por exemplo, considerado por muitos o mais genial dos
sociólogos brasileiros, o que lhe valeu milhares de votos e eleitores para
ser deputado federal, além do direito de ceder
o nome à universidade e ser pago para isto, - o que eu acho justo,
belo e invejável – começou a se notabilizar por ter estudado a integração
do negro na Sociedade de Classes e o Negro no mundo dos Brancos. Ele é
marxista e foi um dos primeiros homens da universidade, brancos, a fazerem
uma denúncia radical do racismo no Brasil. Entre outras
coisas ele constatou as dificuldades dos meus compatriotas negros para se
reintegrarem à produção, expulsos que foram durante o processo
abolicionista. Eu suspeito que na África do Sul agora, ao invés de importação
de mão de obra livre e branca, eles vão importar capitais, via brancos,
principalmente. Será uma
conversa de brancos e se não ocorrer uma cumplicidade entre os empresários
negros do exterior, brasileiros e norte-americanos inclusive, com a complacência
dos setores mais radicais dos chamados movimentos negros fora da África, e
de libertação nacional no país que vocês chamam de Azania, vocês serão
expulsos do modo de produção de capitais. O capital – financeiro ainda não
encontrou uma oposição à altura que, segundo os marxistas clássicos,
seria a revolução comunista mundial, impossível enquanto existir o
racismo, o etnocentrismo ou a xenofobia. O próprio Marx, quando começou a
estudar estas coisas e idéias que agora, - quando dizem que o socialismo
está morrendo – começam a virar cadáveres que serão enterrados pelo
muro de Berlim que caiu de podre, primeiro refletiu sobre a condição dele,
de judeu. Após a questão judaica começou ingressar numa reflexão mais
sofisticada, e moderna, do capital. Mas os judeus, que apesar de
discriminados financiavam excursões de nativos europeus para o resto do
mundo e organizavam o mercado financeiro mundial, tinham capital. Era mais fácil
pensar e combater. Em última análise, ele não tinha medo e poderia dizer
até que era um conflito de gerações. Bem: Os japoneses
podem vir a ser uma oposição, são ágeis, pelo menos renasceram de duas
explosões, as primeiras, nucleares. Não têm mais medo. E o que perder. De qualquer
modo nas décadas de 50, quando os africanos e caribenhos começaram a
chegar na Europa depredada pela guerra, - (que em última análise foi
“uma conversa de brancos”, como nós falamos aqui no Brasil, porque ela
não chegou à Índia ou à África do Sul, apesar de indianos e
sul-africanos, como os brasileiros que foram para a Europa terem morrido
durante ela) – os nordestinos vieram para o Sul e, com as necessidades de
desenvolvimento nacional e a industrialização, inclusive – o que o
professor Florestan Fernandes chamou de modernização conservadora, - até
os conflitos raciais começaram ganhar conteúdo econômico. E ficou patente
para a maioria dos negros a falta de identidade nacional dos brancos
brasileiros. Eles
precisaram por exemplo, de samba para se afirmar no cenário mundial e a
menina dos olhos dos intelectuais do Brasil, a bossa nova, não é mais que
uma mistura de samba com jazz. Tanto que o primeiro artista homem
brasileiro, que teve fama internacional, sem precisar, sem precisar mostrar
bananas (frutas) aos norte-americanos, que segundo uma pesquisa recente do
congresso norte-americano, publicada no Usa Today preferem bananas e não maçãs,
como suponhamos, era, na verdade, um músico de jazz. A primeira, mulher,
famosa nos EUA, Carmem Miranda as exibia na cabeça.
Eu não me lembro agora de nome dele, mas não existe outro, que seja
branco ou tratado como tal pelos brasileiros brancos, que tenha feito mais
sucesso que ele tocando piano naquele país. A maioria, depois dele, apesar
da miséria dos músicos do Brasil que não têm direito inclusive a
aposentadoria se começaram a trabalhar nesta área de trabalho por conta própria
e sem apadrinhamento de um branco, antes da década de 70, são negros.
O nome dele deve ser, lembro agora, mr. Mendes. Esta falta de
identidade nacional dos brancos brasileiros, foi a primeira chance de
organização, invisível inclusive, das lutas anti-racistas. É fantástico,
meu caro! Mas se você for verificar o perfil das culturas políticas
brasileiras, desde a criação de Brasília e a implantação das primeiras
indústrias multinacionais de grande porte, você vai ver que elas são
negros, apesar dos personagens brancos. A peça teatral mais importante de década
de 60 fala de Zumbí dos Palmares. Refere-se ao coração da identidade
nacional e ao primeiro desaparecido político inutilizado no Brasil. O nome
dele – eu imagino – no imaginário popular do Brasil colonial Ele não
dormia nunca, estava sempre acordado, com sono, combatendo. Era um
morto-vivo, um fantasma para a dominação estrangeira e as injustiças no
Brasil. A peça ARENA CONTA ZUMBÍ. Depois, toda a
estrutura musical nacional de período do regime militar, produzir as
grandes maiorias da população, se refere ao que foi definido como cultura
negra no Brasil. Chico Buarque, por exemplo, considerado o maior compositor
da oposição durante a luta pela democracia civil se inspirava e fazia
sambas. E quando elegeu um símbolo para a consciência nacional
anti-imperialista escolheu um mestiço, do tempo de Zumbí mas que não se
aliou ao negro líder e dirigente mas aos holandeses, Calabar. Este cara era
um mestiço, tradicionalmente conhecido como mulato. “Mixture”, na África
do Sul. |
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