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Memória

Ano I - Nº10 - janeiro de 2001

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A ostra e a pérola fina (continuação)

Hamilton Barbosa

Outro aspecto que você deve aplicar quando lê sobre o Brasil e os problemas sociais enfrentados e vividos pelo país. Este século XX foi um século de migração interna. Desde a revolta dos malês, em 1835, na Bahia, quando africanos islamizados ou islâmicos escravizados começaram a ser vendidos entre os compatriotas deles, proprietários das regiões sul e sudeste. Acabara aquela história de comprar semi-clandestinamente escravizados, da África, e entregar no Brasil. O contrabando mundial, legal, desde então, deixou de ser de seres humanos para ser de produtos reais. O contrabando de gente ocorria dentro do Brasil, o que aliás foi bom porque inflacionou os preços do trabalho escravo fortalecendo as adesões de liberais às idéias abolicionistas que aqui foram bem sólidas dentro do status quo. Foi uma forma mais primitiva  de manifestações localizadas, de leis de mercado como ocorreu recentemente e ainda ocorre na África do Sul., forçando a supressão das legislações retrógradas, lentas e graduais, do apartheid. No fim, como dizia um cientista europeu antigo: na vida nada se cria, tudo se transforma.

 

Um comunicador brasileiro, já morto e um doa cadáveres mais suaves de se carregar, o Chacrinha, fez sucesso afirmando na TV na década de 70, que “na vida nada se cria, tudo se copia...”

 

É importante até, vocês recuperarem cópias dos programas dele porque, além de muitos divertidos, foram gravados na época em que a África do Sul começou manifestar, no governo, o interesse de estudar a democracia racial brasileira para aplicá-la como método de “perestróika” na África do Sul. Ele fala com graça e de forma divertida, do troca-troca da humanidade... E mostra quem vocês poderão ser.

 

Muito bem: depois de considerar este elevado índice de imigração européia para o Brasil você poderá entender por exemplo, e fazer as elucubrações sobre as naturezas metodológicas que determinam a ausência de uma história, dos trabalhadores brasileiros, pré imigração européia. Os nossos explorados só têm história de lutas depois da chegada dos italianos anarquistas, que se concentraram no sul do país e foram duramente reprimidos pelas polícias locais. Alguns historiadores, mais críticos do país, dizem que a partir de então, após a imigração, ocorreram as primeiras greves e que elas se tronaram casos de polícia. Talvez fosse interessante você consultar um cara brasileiro e branco, sério como intelectual, Francisco Foot, que com Victor Leonardi, escreveu um livro de teses universitárias, História da Indústria e do trabalho no Brasil. Ele fala de greves pré e durante a imigração, dirigidas por escravos ou com eles. Você vai descobri que existe uma espécie de “buraco negro”, que não só na história como na identidade nacional, principalmente dos explorados.

 

Quanto aos exploradores, junto com estas leituras e pesquisas talvez – o Congresso Nacional Africano tem gente extremamente competente e não tão influenciada pelo racismo para fazer isto – uma verificação na história da Europa, desde as descobertas, vai lhe permitir uma melhor caracterização da identidade deles, e as bases de sustentação dela, - neles.

 

Bem, mas se você quiser conhecer a identidade histórica dos trabalhadores brasileiros, do século passado para trás você terá, é obrigatória, um leitura da obra de Clóvis Moura, o maior historiador dos oprimidos brasileiros. O livro básico que ele escreveu foi Rebelião das Senzalas. (Mas existe também “As raízes do protesto negro”). É uma reportagem sobre o Brasil que você gostaria de conhecer e que muitos que exercem ou são cúmplices do poder, até na oposição brasileira, não querem que você conheça. É que eles, Que não são inocentes, sabem que as economias, e não só elas, estão se internacionalizando e com a globalização dos procedimentos humanos, inclusive os individuais, é conveniente que tenham uma única direção. O seu, por exemplo, é inadequado aqui. Justo, só lá. Mas também deve ler dele as Raízes do protesto Negro.

 

Muito bem: o próximo passo que você deve dar é o estudo das migrações internas, principalmente depois da Segunda Guerra. Na primeira fase, antes do golpe de 64 (seis dias antes de sua prisão) e a instauração do regime militar, que passará para a história do Brasil como o regime que mais deixou desaparecidos políticos no Brasil – o que não é verdade, é mentira! – as populações negras, que estavam concentradas mais ao norte do Brasil se movimentaram em direção ao sul. É a fase em que surgiram os grandes problemas sociais  quando brasileiros quando começaram as crises de violência urbana. Mas também é o período que houve maior dinamização das culturas nacionais – e que, quando é mais conveniente para quem manipula poderes, é chamado e definido como culturas negras. É de certa forma, quando o Brasil começou a ganhar projeção mundial. A capital do pais deixou de ser Buenos Aires no imaginário europeu para se tornar o Rio de Janeiro, como de fato era.  Mas com um inconveniente para nós Os meus compatriotas negros: O Rio de Janeiro se transformou na capital mundial da malandragem e da prostituição. É quando os norte americanos criaram o personagem de Zé Carioca – um brasileiro por excelência.  Mas o Brasil, e não os negros, ganharam, ainda que às nossas custas e um preço altíssimo, visibilidade no mundo

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