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Memória

Ano I - Nº11 - fevereiro de 2001

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A ostra e a pérola fina (continuação)

Hamilton Cardoso

Em 1980 eu estive na Inglaterra, e no dia 25 de maio participei, em Nottingthan, do Dia da Libertação da África. O ANC, a ZANU, o ZAPU, a Consciência negra e o Drake Koka, todos da África do Sul, além de ativistas da Nova Jóia de Granada, e da Aliança do povo trabalhador, da Guiana, ex-inglesa, ambos da América Centro Sul e negra, estavam lá. Decidimos três prioridades: libertar a Namíbia, a África do Sul e o Brasil. O Brasil: não é fantástico meu rei, presidente e estadista, símbolo mundial do que eu mais desejo!

 

Foi assim – e eu escrevi sobre os compatriotas – que comecei a pensar em todo mundo. E tudo começou a história, até da minha vontade, disposição e decisão de te escrever esta carta – no tráfico. Talvez o filme, por decisão dele, é claro, porque teremos ao menos poder para exercer alguma liberdade – com a sua chegada onde os laços reais e verdadeiros com a África – a que produz, se reconstrói, e se liberta, e não com a explorada, saqueada e submetida por alienígenas de outros mundos ou planetas, aquela estagnada – começam ser reatados.

 

E ao final ele terá que dizer algumas coisas: que às vésperas do quinto século de início da maior tragédia humana – quando o planeta foi dividido em dois, duas cores ou raças de acordo com a conveniência e os desequilíbrios mentais de quem tinha poder para definir alguma coisa nalgum momento, a humanidade começou renascer à partir da sua libertação do lodo da civilização humana, administrada pelos animais que o prenderam. Que você visitou o Brasil e as ostras daqui, que queriam te recepcionar, cantar, dançar e te beijar se possível, foram surpreendidas. Pelos donos do mundo e pelos representantes deles aqui, - os servos dos representantes – e pelos cúmplices e omissos que, como dizia o James Baldwin em Da próxima vez o Fogo, são os inocentes.

 

Os donos do mundo, conscientes do papel estratégico e do potencial, com os sentimentos justos da população do meu país, decidiram resgatar os racistas e animais do seu país. Os do meu omitiram em relação ao nosso esforço por participação, na organização e em relação aos meios e condições necessários para recepcionar um homem da sua estatura mundial, tudo, para nos privar do seu significado e do seu impacto nas nossas mentes. Os cúmplices e inocentes se calaram, por conveniência ou pelo significado do silêncio e e omissão deles. E como os jornalistas faziam há anos atrás durante o carnaval, por iniciativa de um dos nossos, - o Osvaldo Faustino, então repórter policial, como eu agora sou – nós, os negros ostras, desfilaremos num bloco que, da Azânia em construção e dos destroças da África do Sul, você poderá observar. O bloco vai se chamar :”ÔI o que restou de nós...” (Os repórteres, aos farrapos, desfilavam na avenida Tiradentes, - que tem este nome em homenagem ao brasileiro que entrou para a história como o mártir da independência, porque morreu enforcado após conspirar abertamente com os intelectuais do reino, no Brasil – depois de quatro árduas madrugadas de trabalho).

 

Uma cena que será essencial neste filme: é o atual presidente do Brasil desfilando no Palácio do planalto carregando sob as axilas perfumadas e brancas de talco, o livro O Império e os Novos Bárbaros, de um francês – que ganhou do ministro brasileiro das Relações Exteriores. Dias antes, inclusive da reunião dos chamados Donos do Mundo, os sete países mais ricos, defenderam para eles um papel de polícia do mundo; os EUA haviam decidido reintegrar a África do Sul no sistema econômico mundial e o Comitê Olímpico Internacional a reintegrara.

 

Naquele dia e tempo, o presidente do Brasil, com o livro nas axilas, e o governador do Rio de Janeiro, discutiam as relações internacionais do Brasil. O presidente brasileiro, que se preparava, ia para o México participar da Conferência das Ibéricas da América. O Brasil nunca participou de nações da África ou de populações de origem africana, majoritárias, no Caribe, das  América. Nem vai. Isto ficou claro quando lemos os nossos intelectuais, progressistas até, manifestaram o medo de uma africanização do Brasil. È o que queremos e eles não desejavam, inclusive porque já decidiram e estão a identificar a África com miséria. `Para eles a miséria é da África, e é esta a contribuição brasileira, que nós vamos reverter, com o processo de mundialização da economia e das culturas nacionais. A sua eleição e posse na presidência, ou do Sisulu, ou de Oliver Tambo, suponho, será decisiva, não só na África do Sul.

 

Outro exemplo, meu caro, e eu espero que o nosso cineasta – nas condições atuais do país e, principalmente os que desejam uma sociedade não racial e não discriminatória, ele será um videastas, - possa a sua avaliação do porque a sua recepção não ocorreu como queríamos, sem o que você merecia, e quem das expectativas que você e seus compatriotas do pais em que nasceu, viveu, foi criado, confinado e preso, alimentavam. Os fatos, quer ele queira ou não dizer a qualquer um – sempre por razões táticas e de sobrevivência – ele os conhece. E a nossa luta, a não ser que nunca tenha sido identificado como negro ou confundido (ou confinado) com um macaco – como ´´e o caso dos ativistas, hoje cadáveres, do mocambo da capital da República dos Palmares. Mas se ele não viveu estas preocupações. Mas até para ele, e nestas circunstâncias, adversas aos meus sonhos, a sua presença no Brasil será outra demonstração da grandiosidade da democracia racial e a unidade e dos brasileiros na condenação do apartheid e do racismo. O que eu acho que não existe. Se nós temos táticas, - suponho porque não sou racista – eles também têm. As deles, é claro.

 

A ostra e a pérola fina

Hamilton Bernardes Cardoso foi jornalista e trabalhou como repórter especializado de polícia no Diário Popular, ex-repórter do Povo na TVS, canal 4, TV Cultura, canal 2, jornal  Versus.  Nasceu em Catanduva, interior paulista, em 10 de julho de 1954.

Representou o Brasil em vários encontros de organizações e partidos políticos da África, Caribe, Europa e EUA, na Inglaterra onde proferiu uma série de palestras.

Foi fundador do Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial em 1978 – hoje MNU, consultor de Comunicações da OAB e do Instituto da Mulher Negra, Geledés e co-fundador da revista Lua Nova/Cedec.

Em 1981, no Brasil, criou a revista Ébano, e organizou, junto com o dançarino Ismael Ivo, a passeata anti-racista do silêncio no campus universitário da Universidade Federal da Bahia – UFBA, durante a SBPC de Salvador, onde foi proferir a palestra O NEGRO NOS MEIOS DE COMUNICAÇÕES.

Em 87 participou como co-autor, do livro Movimentos Sociais na Transição Democrática, editora Cortez, organizado por Emir Sader.

Organizou, em 1991, na serra da Barriga, em União dos Palmares, a Missa dos Quilombos.

Poeta, jornalista, escritor foi atropelado no dia 1º de maio de 1988, dia do trabalhador. Isto lhe marcou a vida. O acidente deixou seqüelas. Hamilton suicidou-se em novembro de 1999).

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