logo_partes_pqno_w.jpg (11208 bytes)

Em Questão

Ano I - Nº12 - março de 2001

Principal
Editorial
Educação
Em Questão
Esportes
Cotidiano
Comportamento
Cultura
Memória
Nossa Língua
Poesia e Crônicas
Outras Edições
Saúde
Sócio Ambiental
Reflexão
Terceira Idade
Turismo
 
Participe
Tascas
Fórum
Cartas
Esotérico
Econotas
Humor
Pílulas
Fale conosco
 
Serviços
Agenda
Desaparecidos
Casa, Rua e Cia
Fotos
Links
Especiais
Gilberto Freyre
Eleições 2000
Assédio Moral
Links do mês
SOF
Cfemea

Quem ama não mata

Iara Bernardi

Precisou morrer uma mulher por motivos "passionais", relacionada à grande mídia do Brasil, para que o assunto das mulheres vítimas da violência sexista viesse à tona nos noticiários de TV e nos grandes jornais do país. O caso do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo seu ex-chefe e ex-namorado Pimenta Neves não é um caso isolado. Todos os dias milhares de mulheres anônimas do Brasil e do mundo, são mortas ou violentadas por homens que desejam vingança por terem sido "abandonados" por suas amadas, ou "trocados", por outros. A dor de uma separação involuntária é vivida por quase todas as pessoas. Faz parte da vida e deve ser encarada como algo a ser superado, no entanto, esta é uma questão que parece não valer para alguns homens.

Depois do assassinato de Sandra Gomide, este tema está sendo discutido e vem sendo analisado como algo que tem incomodado muito a sociedade e principalmente, as mulheres. O jornal "Folha de S. Paulo" divulgou pesquisa que atesta que o assassinato de mulheres bateu recorde na cidade de São Paulo no ano passado e que o principal motivo destas mortes (19,4%) ocorrem por motivos passionais. Outras tantas são ameaçadas, espancadas e violentadas moral e fisicamente. O que leva um homem a julgar que tem o direito de matar em nome de seu orgulho ferido e de que o poder masculino e a sua virilidade, estão acima dos direitos de uma mulher ?

No caso de Sandra Gomide temos um fator que piora ainda mais a situação. O fato de que ela era uma subordinada de seu agressor no ambiente de trabalho. Este crime nos leva a muitos questionamentos e um deles é a prática do assédio sexual. Quantos homens não usam de seu poder de hierarquia no trabalho para assediar sexualmente suas funcionárias subordinadas? Enquanto Sandra era sua namorada, era tratada como ótima profissional. Bastou o rompimento do relacionamento para que ela fosse demitida e que se iniciasse uma verdadeira campanha de difamação de seu nome pelo ex-namorado e ex-chefe que, inclusive, fez contatos com vários órgãos de comunicação para que ela não fosse admitida por nenhum deles.

Nós, mulheres, atentas ao direito de exercer a cidadania com autonomia, nos deparamos com um dos mais absurdos atentados contra a liberdade: liberdade de ser, de ir, de vir, de escolher, de viver e de ter a coragem de dizer não. É preciso destruir as teses calcadas no machismo, que faz do homem um ser que não pode ser contestado por uma mulher. Esta posição ainda permanece arraigada em nossa sociedade, mesmo por aqueles que posam como homens culturalmente esclarecidos, como é o caso do jornalista Pimenta Neves que, agora, leva também o título de assassino.

Este é um episódio muito triste e mais triste ainda por termos a consciência de que não é um caso raro e isolado! Ainda é muito grande a violência de homens contra mulheres. Ainda são altos os índices de espancamentos e morte de mulheres por seus maridos e companheiros. A literatura da psicologia jurídica está recheada de casos em que o sujeito usa a paixão para esconder seu temperamento agressivo, sua prepotência, o achar que é o dono do mundo ou daquela mulher. O assassinato da jornalista Sandra Gomide, como de muitas mulheres tem um motivo torpe: mata-se simplesmente para a mulher não viver mais.

É necessário, na virada do terceiro milênio, a desmistificação do machismo e do crime de "legítima defesa da honra", ressuscitado a tiros pelo jornalista Pimenta. Não dá mais para aceitar que isto continue acontecendo e que ainda haja algum tipo de conivência velada a este tipo de crime. Que em momento algum a morte de uma mulher por motivos passionais seja aceita com benevolência, como se o agressor tivesse motivos para ser desculpado pelo que fez! Vamos dizer não à violência e à impunidade! Para que as mulheres e os homens possam viver, juntos, numa sociedade justa, igualitária e livre. 

Iara Bernardi é deputada federal (PT/SP), Vice-líder na Câmara dos Deputados e 2ª Vice-presidente Nacional do Partido.  (05/09/00)

Escreva-nos. A sua participação é fundamental!