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Em Questão |
Ano I - Nº12 - março de 2001 |
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Quem
ama não mata Iara Bernardi Precisou morrer uma
mulher por motivos "passionais", relacionada à grande mídia do
Brasil, para que o assunto das mulheres vítimas da violência sexista
viesse à tona nos noticiários de TV e nos grandes jornais do país. O caso
do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo seu ex-chefe e ex-namorado
Pimenta Neves não é um caso isolado. Todos os dias milhares de mulheres anônimas
do Brasil e do mundo, são mortas ou violentadas por homens que desejam
vingança por terem sido "abandonados" por suas amadas, ou
"trocados", por outros. A dor de uma separação involuntária é
vivida por quase todas as pessoas. Faz parte da vida e deve ser encarada
como algo a ser superado, no entanto, esta é uma questão que parece não
valer para alguns homens. Depois do assassinato
de Sandra Gomide, este tema está sendo discutido e vem sendo analisado como
algo que tem incomodado muito a sociedade e principalmente, as mulheres. O
jornal "Folha de S. Paulo" divulgou pesquisa que atesta que o
assassinato de mulheres bateu recorde na cidade de São Paulo no ano passado
e que o principal motivo destas mortes (19,4%) ocorrem por motivos
passionais. Outras tantas são ameaçadas, espancadas e violentadas moral e
fisicamente. O que leva um homem a julgar que tem o direito de matar em nome
de seu orgulho ferido e de que o poder masculino e a sua virilidade, estão
acima dos direitos de uma mulher ? No caso de Sandra
Gomide temos um fator que piora ainda mais a situação. O fato de que ela
era uma subordinada de seu agressor no ambiente de trabalho. Este crime nos
leva a muitos questionamentos e um deles é a prática do assédio sexual.
Quantos homens não usam de seu poder de hierarquia no trabalho para
assediar sexualmente suas funcionárias subordinadas? Enquanto Sandra era
sua namorada, era tratada como ótima profissional. Bastou o rompimento do
relacionamento para que ela fosse demitida e que se iniciasse uma verdadeira
campanha de difamação de seu nome pelo ex-namorado e ex-chefe que,
inclusive, fez contatos com vários órgãos de comunicação para que ela não
fosse admitida por nenhum deles. Nós, mulheres,
atentas ao direito de exercer a cidadania com autonomia, nos deparamos com
um dos mais absurdos atentados contra a liberdade: liberdade de ser, de ir,
de vir, de escolher, de viver e de ter a coragem de dizer não. É preciso
destruir as teses calcadas no machismo, que faz do homem um ser que não
pode ser contestado por uma mulher. Esta posição ainda permanece arraigada
em nossa sociedade, mesmo por aqueles que posam como homens culturalmente
esclarecidos, como é o caso do jornalista Pimenta Neves que, agora, leva
também o título de assassino. Este é um episódio
muito triste e mais triste ainda por termos a consciência de que não é um
caso raro e isolado! Ainda é muito grande a violência de homens contra
mulheres. Ainda são altos os índices de espancamentos e morte de mulheres
por seus maridos e companheiros. A literatura da psicologia jurídica está
recheada de casos em que o sujeito usa a paixão para esconder seu
temperamento agressivo, sua prepotência, o achar que é o dono do mundo ou
daquela mulher. O assassinato da jornalista Sandra Gomide, como de muitas
mulheres tem um motivo torpe: mata-se simplesmente para a mulher não viver
mais. É necessário, na
virada do terceiro milênio, a desmistificação do machismo e do crime de
"legítima defesa da honra", ressuscitado a tiros pelo jornalista
Pimenta. Não dá mais para aceitar que isto continue acontecendo e que
ainda haja algum tipo de conivência velada a este tipo de crime. Que em
momento algum a morte de uma mulher por motivos passionais seja aceita com
benevolência, como se o agressor tivesse motivos para ser desculpado pelo
que fez! Vamos dizer não à violência e à impunidade! Para que as
mulheres e os homens possam viver, juntos, numa sociedade justa, igualitária
e livre. Iara Bernardi é deputada federal (PT/SP), Vice-líder na Câmara dos Deputados e 2ª Vice-presidente Nacional do Partido. (05/09/00)
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