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Ano I - Nº12 - março de 2001

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Um olhar feminino no futuro

Jandira Feghali
 
A conquista de direitos foi marcante no século XX, dentro das alterações macroeconômicas e sociais, que caracterizaram a evolução da sociedade contemporânea. Ao fazermos uma retrospectiva, constatamos que no caso das mulheres, as mudanças superaram diversas etapas e mesmo resistências. Além do movimento feminino organizado, houve a necessidade do respaldo institucional, inscrevendo na Constituição e nas leis o texto de cada vitória.
No campo político, conquistamos, mais do que o direito ao voto, a possibilidade de sermos eleitas para cargos eletivos. O direito à liberdade, à vida e o combate à discriminação. Lutamos por um atendimento de saúde que garantisse que nossa opção pela maternidade fosse sustentada por uma assistência de qualidade e que pudéssemos acompanhar nossos filhos nos primeiros quatro meses de vida em tempo integral, sem prejuízo salarial e de emprego. A legislação também avançou no que se refere a equidade dos salários entre homens e mulheres, para não estender-me em mais citações.

No entanto, apesar das conquistas, entramos no século XXI com realidade e dados que nos remetem a séculos anteriores. Mulheres ainda morrem ao parir seus filhos, apanham dos companheiros como se propriedade fossem, recebem salários menores ao exercerem a mesma função que homens, empobrecem velozmente e acessam com muita dificuldade os espaços de poder.
Hoje se fala em um novo direito, o direito ao futuro. A promoção de ações que permitam que nossos filhos e netos possam usufruir do meio ambiente e da história do país. O direito ao futuro nos faz pensar no nefasto papel das elites e suas representações e também nos remete ao que deve jogar a sociedade como tal. Só a  legislação, infelizmente não basta. O último Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas aponta neste sentido. Segundo o documento, elas representam 70% do total dos que vivem em situação de miséria absoluta; são 2/3 dos analfabetos; a carga horária diária de trabalho é, aproximadamente, 13% superior a dos homens e o salário, em média, 25% menor.

Enquanto a sociedade não demonstrar seu respeito à parcela da população que hoje representa a maioria, nossos direitos continuarão ignorados. Os índices de violência familiar a que estamos submetidas provam o quão somos desrespeitadas. Segundo estudo da Dr.ª Valéria Pandjiarjiam, do Comitê Latino-Americano e do Caribe para Defesa dos Direitos da Mulher, mundialmente um em cada 5 dias de falta ao trabalho é decorrente de violência sofrida por mulheres em suas casas. A cada 5 anos, a mulher perde 1 ano de vida saudável se sofre violência doméstica. Na América Latina incide sobre 25% a 50% das mulheres. Os custos com este tipo de agressão são da ordem de 14,2%
do PIB.

No Brasil, a cada 4 minutos, uma mulher é agredida em seu próprio lar por uma pessoa com quem mantém relação de afeto. As estatísticas disponíveis e os registros nas delegacias especializadas de crimes contra a mulher demonstram que 70% dos incidentes acontecem dentro de casa e que o agressor é o próprio marido ou companheiro; mais de 40% das violências resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos.
Como se não bastasse, o governo brasileiro anuncia para este ano alterações profundas na legislação relativa ao trabalho, como exigem potências e organismos financeiros internacionais.
Como podemos contemplar o futuro quando direitos duramente conquistados ainda nos são negados?
Devemos, agora que se aproxima este primeiro Dia Internacional da Mulher do século XXI, abrir a discussão por nosso direito com um olhar feminino, inexistente nas políticas públicas brasileiras. O direito ao trabalho, como trabalhadora e não como escrava e a proteção da sua integridade física e psicológica devem estar no centro das nossas preocupações. Respaldadas pela Constituição Federal e pela Consolidação das Leis do Trabalho temos a obrigação de divulgar nossos direitos àquelas que sofrem toda sorte de discriminação sem saber que a legislação não o permite.
Realizar um debate para mudanças de relação no núcleo familiar e todos os fatores que nele interferem. Exigir definições verdadeiras e não de marketing dos diversos governos para que executem ações de combate à violência contra a mulher. Precisamos resistir e avançar. Lutar pelo século da igualdade. Nenhum direito a menos e garantir direitos a mais.


Jandira Feghali deputada federal PCdoB/RJ e coordenadora da Bancada Feminina no Congresso Nacional

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