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Nossa Língua

Ano I - Nº12 - março de 2001

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FÓRMULAS DE MODÉSTIA E MAJESTADE

De Campo Grande (MS) escreve o leitor O. M. de Araújo para perguntar o que é ‘plural majestático’. 

Em duas palavras, é o emprego da 1ª pessoa do plural no lugar da 1ª pessoa do singular. Significa dizer "(Nós) queremos manifestar nossa satisfação" em vez de "(Eu) quero manifestar minha satisfação".

Os antigos reis de Portugal adotaram a fórmula "Nós, el-rei, fazemos saber..." procurando, num estilo de modéstia, diminuir a distância que os separava do povo. Até que no início do séc. XVI, com D. João III, aparece o absolutismo real e a conseqüente mudança da fórmula para a 1ª pessoa: "Eu, el-rei, faço saber que..."

Entretanto os altos prelados da Igreja continuavam a usar o pronome ‘nós’ como um tratamento de humildade e solidariedade com os fiéis. Só que, crescendo a Igreja em poder e bens temporais, aquele plural começou a dar a impressão não de modéstia mas de grandeza e majestade. Daí o nome ‘plural majestático’.

Sua outra denominação é ‘plural de modéstia’. Ainda o utilizam escritores, oradores e políticos, que dessa forma pretendem fundir-se em simpatia com seus leitores, ouvintes e correligionários, parecendo com eles compartilhar suas idéias e afastando qualquer noção de importância pessoal, vaidade e orgulho.

Mas veja bem que não é necessário que numa correspondência formal ou num discurso o indivíduo tenha que usar a 1ª pessoa do plural para ‘não ficar mal’. De modo algum! Desde que ele esteja falando em seu próprio nome e não no de uma coletividade ou da empresa como um todo, é natural que se expresse assim:

Venho transmitir-lhe meus cumprimentos...

Solicito a colaboração de todos...

Recebam os meus agradecimentos...

Tenho a certeza do seu empenho...

Minha intenção é dar o melhor de mim pela comunidade...

 

Quando, porém, prefere usar verbos e pronomes no plural, o discursante deve se lembrar que o adjetivo que se refere a si próprio permanece no singular. Por exemplo:

Sejamos claro e sucinto.

Nós nos sentimos orgulhoso com esta homenagem - afirmou o senador.

Não pretendemos ser vaidoso, acreditem.

Estamos imunizada contra os ataques solertes da oposição - bradou a deputada.

Você vê que o adjetivo flexiona no masculino ou feminino de acordo com a pessoa que fala. Claro que se ela se referir também à coletividade, à instituição junto, empregará todos os termos (verbos, pronomes e adjetivos) no plural, como nestes exemplos:

- Nós nos sentimos felizes com a lembrança do nosso nome...

Não seremos responsáveis pelas atitudes dos concorrentes.

Estamos cientes do ocorrido em nossas instalações.

Sejamos pacientes e peçamos a Deus pelo melhor para o Brasil.

  

MULTIUSO, MULTISSETORIAL

O prefixo ‘multi’ está arrolado entre aqueles que se ligam diretamente ao substantivo ou ao adjetivo, isto é, sem o uso de hífen e sem deixar espaço. Porém é preciso estar atento a um detalhe: para não desfigurar a pronúncia, dobra-se o ‘s’ ou o ‘r’ dos radicais iniciados com essas letras: multi + setorial = multissetorial; multi + secular = multissecular; multi + racial = multirracial. Outros exemplos:

Foi elogiado o multiatendimento dispensado aos participantes da Feira.

Eles prestam serviços a várias empresas simultaneamente utilizando o sistema de multiusuário.

Cem voluntários serão investigados por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores.

Multiempresas montaram uma ousada multiestrutura para atrair os turistas do Norte.

Escreva-nos. A sua participação é fundamental!

 

 

Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros "Português para Redação" e "Só Vírgula", diretora do Instituto Euclides da Cunha, www.linguabrasil.com.br