ISSN 1678-8419  

Última atualização feita em:21-11-2005 13:26
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Terceira Idade

O Direito de Sorrir dos Idosos
Eduardo Hebling*

http://www.fop.unicamp.br/portal/news.php?codnoticia=948

 Ao nascer, temos duas certezas absolutas em nossas vidas: iremos envelhecer e morrer.
Esse fato gera um sentimento coletivo de repulsa ao envelhecimento e a morte.
A melhoria nas condições de vida, de saneamento básico e os avanços tecnológicos
na área da saúde permitiram o aumento da expectativa de vida das pessoas,
gerando o aumento do número de idosos na população mundial. Atualmente no Brasil,
temos em torno de 14 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, sendo o sétimo país
em número absoluto de idosos no mundo. Isto representa cerca de 9% de nossa população.
Estima-se que passaremos para a sexta posição mundial em 20 anos,
com mais de 33 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.

 A imagem que nossa sociedade associa ao idoso é aquela de uma pessoa com invalidez parcial,
sentada em uma cadeira de balanço ou banco de uma praça e apresentando um sorriso sem dentes.
Contudo, essa imagem do idoso inativo está mudando. Atualmente essas pessoas,
por viverem em melhores condições, são muito mais ativas, tanto socialmente como culturalmente.
É comum vermos em nossas cidades a organização de grupos de terceira idade, de bailes,
eventos, excursões e viagens exclusivas para essa faixa de idade. Esses fatos fazem com
que o idoso deixe de viver segregado da família e passe a interagir mais com as pessoas e a sociedade.
Isso faz com que, para essas pessoas, a importância de apresentar dentes, naturais ou artificiais,
se torne fundamental para convivência, ao sorrir e falar com outras pessoas e
ao mastigar em eventos sociais. Por vezes, os benefícios sociais de apresentar um sorriso
com dentes e em uma tonalidade de cor harmônica são muito mais desejados do
que os benefícios funcionais que um boa dentição, natural ou artificial (próteses),
possa proporcionar para essas pessoas.

 Entretanto, apesar do avanço tecnológico que a Odontologia alcançou, com a implantação
de uma filosofia de manutenção e prevenção das perdas dentárias, com a redução dos
índices de cárie e de perda dentária e com o aumento do acesso aos serviços públicos
de saúde bucal, ainda temos em nosso país um elevado número de idosos com
dificuldades de sorrir, por não apresentarem mais seus dentes.

Os dados do último levantamento nacional de saúde bucal mostram que o Brasil avançou muito,
em termos de prevenção em saúde coletiva, na faixa etária de até 12 anos, atingindo as
metas estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o ano de 2000.
Contudo, para as faixas etárias superiores os resultados ficaram bastante aquém do desejado.
A OMS estipulou que, em 2000, 50% da faixa etária de 65 a 74 anos deveriam apresentar 20
ou mais dentes na boca. O percentual alcançado no país foi de apenas 10,23%.
A meta a ser alcançada em 2025 para essa faixa etária é apresentar até 5% de pessoas
desdentadas. Esse fato gera maior preocupação pois, atualmente, nosso país conta com
cerca de 30 milhões de desdentados, em todas as faixas etárias. Mais de 80% da população adulta
não apresenta as gengivas sadias e 13% dos adolescentes nunca consultaram um dentista.

As razões para observarmos ainda esse grande número de idosos desdentados totais ou
parciais podem ser explicadas por motivos culturais e educacionais, quando antigamente
as pessoas ao menor sinal de dor em seus dentes procuravam serviços para extraí-los ao
invés de restaurá-los e mantê-los em suas bocas, e por motivos filosóficos dos próprios profissionais,
que não estimulavam os pacientes a manterem seus dentes, muitas vezes pela falta de
recursos tecnológicos. Felizmente, hoje o avanço tecnológico proporciona o tratamento
e a manutenção dos dentes, fazendo com que a filosofia do atendimento odontológico
seja bastante conservadora e vise a prevenção das doenças antes de sua ocorrência.

A implantação de métodos de prevenção de cárie na população brasileira, como a fluoretação
das águas de abastecimento público, ocorreu em meados da década de 70 do século passado,
quando muitos da população de adultos e idosos haviam perdido seus dentes. Essa população,
infelizmente, não teve acesso à filosofia de atendimento e aos métodos preventivos de perda dentária.

As pessoas idosos requerem cuidados especiais no atendimento odontológico por
apresentarem um número maior de alterações e doenças crônico-degenerativas,
inerentes do processo de envelhecimento humano, e pelo uso de vários fármacos para
o tratamento dessas. Esses fatos e a tendência mundial de crescimento dessa população,
que viverá mais tempo, com maiores possibilidades de menores perdas dentárias ou
de necessidades específicas de atendimento odontológico, levaram a criação no Brasil,
em 2002, de uma nova especialidade odontológica: a Odontogeriatria. O especialista em
Odontogeriatria terá que reunir uma série de conhecimentos de fisiologia, de patologia,
de farmacologia, de saúde coletiva e de reabilitação desses pacientes, atuando, de forma interativa,
com os demais profissionais de saúde que tratam o idoso, como geriatras, fisioterapêutas e outros.

No serviço público, além da inserção desse tipo de profissional, o outro desafio será
destinar recursos para cumprimento das disposições estabelecidas no Estatuto do Idoso,
que delega ao Poder Público a obrigatoriedade de execução de políticas de saúde destinada
aos idosos e ao direito desses de receber serviços especializados de saúde bucal,
incluindo o tratamento gratuito com próteses para o restabelecimento da dentição perdida.

O grande desafio agora será fazer cumprir essas diretrizes do estatuto e de qualificar
os profissionais cirurgiões dentistas para que possam fornecer o tratamento mais adequado
aos idosos para que esses possam voltar ou continuar a ter o direito de sorrir.

* EDUARDO HEBLING é professor Associado do Departamento de Odontologia Social
da Faculdade de Odontologia de Piracicaba/UNICAMP e coordenador do Curso de
Especialização em Odontogeriatria da UNICAMP.  


Texto publicado originalmente em:
http://www.fop.unicamp.br/portal/news.php?codnoticia=948
Fonte: Assessoria de Imprensa da Unicamp. Ronei Thezolin
 

::notícia:
Lazer e educação impedem prejuízo da cognição e memória em idosos

 

 

 

 


 

 

 



 

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