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Poema de
Natal
Para isso fomos feitos:
Pra lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nosso mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre e esquecer
Uma estrela e se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos
feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
de repente nunca mais esperaremos...
Hoje à noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinícius de
Moraes
Natal
Nasce um deus. Outros
morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a
inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.
Fernando Pessoa
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