Poema de Marcello
Ricardo Almeida – criador da Poesia Pré-Silábica
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Zé Lourenço nasceu na
calçada,
calado, enquanto sua
mãe dormia.
Iguais a ele são outros
josés:
viajam sem cama, sem
casa, sem comida.
Descem atravessando
ruas, avenidas.
Migrando, migrando, um
carro matou
seu pai e sua mãe na
grande cidade.
Zé Lourenço ficou só
com a irmã menor.
Outro dia, convidado a
morar com um senhor.
Ninguém sabe o dia de
amanhã.
Todo dia ouvia o choro
da irmã menor.
De manhã ia trabalhar.
A irmã menor
trabalhava em casa do
senhor. Vendia sabão,
Zé Lourenço, nas ruas,
ruas de São Paulo.
Dormia tarde, muito
tarde, na casa do senhor.
Dormia ouvindo o choro
da irmã menor,
no quarto ao lado.
Pensou ser saudade
dos pais assassinados
no trânsito. Errou.
A irmãzinha era
violentada à noite pelo senhor.
Ninguém sabe o dia de
amanhã.
Toda noite a irmã
violentada pelo senhor.
A monstruosidade Zé
Lourenço testemunhou.
Zé Lourenço, pra não
matar ou morrer, fugiu
pra longe da casa do
senhor. Ganhou
as ruas, as grandes
ruas da cidade grande,
e nunca mais ouviu
falar na irmã ou no senhor.
Se ela morreu, não
sabe; se ela se casou, como
dizer? Se ela fugiu que
nem ele. Perdeu o contato.
E, só, caminhava nas
ruas compridas de São Paulo.
Ninguém sabe o dia de
amanhã.
Zé Lourenço comia lixo,
comia o lixo
das lanchonetes. Quando
não o encontrava
passava fome. Zé
Lourenço conheceu outras
histórias, histórias
trágicas iguais a sua:
outras crianças de rua.
Crianças más-boas,
criança-esperança,
criança para todo gosto.
Zé Lourenço viu outras
crianças nascerem,
ali, na calçada,
nascerem de outras crianças.
Zé Lourenço nunca mais
quis transar. Depois,
ninguém sabe o dia de
amanhã.
Depois de sua primeira
vez com uma menina
de rua, Zé Lourenço
nunca mais quis transar.
Em sua cabeça só a voz,
o choro da irmã,
da irmã menor que ficou
com o senhor.
Zé bebia e não
conseguia fazer-amor.
De sua cabeça nunca
saiu o choro da irmã.
Zé foi preso até perder
a conta. Tornou-se
Zé Lourenço, o
pai-de-rua. Líder. Mui sonhou
em ser político. “Pra
Brasília vou ou fico?”
Ninguém sabe o dia de
amanhã.
Drogarem-se pra enganar
a fome, drogarem-se
pra ter coragem e
roubar. Depois, drogarem-se
pra não ter tempo. Pra
afugentar se drogam
na conurbação fria de
noites eternas de Sampa.
Zé Lourenço sabe cada
história do submundo;
viu mortes, Zé Lourenço
viu assassínios, corpos
no asfalto quente. Viu
cenas externas de tevê,
viu os prédios
crescerem sem adubo, em miríade,
viu passeatas de
protesto, cães e PMs nas ruas.
Ninguém sabe o dia de
amanhã.
Zé Lourenço viu
extermínios, viu estupros, viu
abortos, viu o que suas
vistas não queriam ver.
Zé Lourenço, agora,
sabe que os meninos de rua
cheiram gás de isqueiro
para conhecer o paraíso
antes de morrer. Mas
isto não só com os paraíbas,
Zé Lourenço ouviu falar
em pessoas preocupadas
com a situação de todos
os josés-meninos-de-rua.
E se Jesus voltasse
hoje? Deixá-Lo-ia na sua?
Ninguém sabe o dia de
amanhã.
Aquele senhor pegou Zé
Lourenço e a irmã
para matá-los
semelhante ou de forma pior
do que as gigantescas
rodas do carro comedor
de gente. Tem gente
preocupada com crianças,
com essas crianças de
rua. Zé e a irmã menor
na orfandade da cidade.
Zé Lourenço ainda hoje
ouve gritos de
crianças. Alegres gritos ecoam
diferentes dos gritos
de dor na casa do senhor.
Gritos inocentes,
gritos infantis de pavor.
Ninguém sabe o dia de
amanhã.
Querem tirar Zé
Lourenço das ruas. Todavia,
Zé Lourenço envelheceu.
As vias e rodovias
e avenidas trataram de
embranquecer cabelo
e barba. Zé Lourenço
sonhava. Zé Lourenço
morrera cedo em
tiroteio com a polícia, na rua.
Zé Lourenço conheceu
horrores dos presídios,
e sempre conviveu com
os terrores das ruas.
Os valores éticos Zé
Lourenço desconhecia,
pois os presídios têm
suas próprias regras.
Ninguém sabe o dia de
amanhã.
Não deixou a cabeça de
Zé Lourenço jamais
o buraco do choro da
irmãzinha sem paz,
sem pai. Misericórdia
na casa do senhor!
Sempre lhe veio à
lembrança, Zé Lourenço?
Aquele se mostrou
preocupado por demais,
logo quando seus pais
foram espremidos,
esmagados pelas rodas
do ônibus veloz.
O senhor lhe escolheu:
escolheu-o e a irmã.
Por estas e outras
razões do cotidiano:
ninguém sabe o dia de
amanhã.[1]
[1] Lido
no tribunal do júri simulado por acadêmicos de Direito em defesa de
crianças sem-teto. Poema publicado, originalmente, no livro de
Teoria Poética, “Uma Teoria do Paradoxo” (67-70:1999), e republicado
em inúmeros periódicos e mídias desde então.