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ISSN 1678-8419         última atualização em: domingo, 09 de outubro de 2011 21:43:13                                               
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POESIAS

É Lourenço: ninguém sabe o dia de amanhã

   

Marcello Ricardo Almeida

publicado em 09/10/2011

 

Poema de Marcello Ricardo Almeida – criador da Poesia Pré-Silábica

http://quase-fabula.blogspot.com/

 

 

 

Zé Lourenço nasceu na calçada,

calado, enquanto sua mãe dormia.

Iguais a ele são outros josés:

viajam sem cama, sem casa, sem comida.

Descem atravessando ruas, avenidas.

Migrando, migrando, um carro matou

seu pai e sua mãe na grande cidade.

Zé Lourenço ficou só com a irmã menor.

Outro dia, convidado a morar com um senhor.

Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Todo dia ouvia o choro da irmã menor.

De manhã ia trabalhar. A irmã menor

trabalhava em casa do senhor. Vendia sabão,

Zé Lourenço, nas ruas, ruas de São Paulo.

Dormia tarde, muito tarde, na casa do senhor.

Dormia ouvindo o choro da irmã menor,

no quarto ao lado. Pensou ser saudade

dos pais assassinados no trânsito. Errou.

A irmãzinha era violentada à noite pelo senhor.

Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Toda noite a irmã violentada pelo senhor.

A monstruosidade Zé Lourenço testemunhou.

Zé Lourenço, pra não matar ou morrer, fugiu

pra longe da casa do senhor. Ganhou

as ruas, as grandes ruas da cidade grande,

e nunca mais ouviu falar na irmã ou no senhor.

Se ela morreu, não sabe; se ela se casou, como

dizer? Se ela fugiu que nem ele. Perdeu o contato.

E, só, caminhava nas ruas compridas de São Paulo.

Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Zé Lourenço comia lixo, comia o lixo

das lanchonetes. Quando não o encontrava

passava fome. Zé Lourenço conheceu outras

histórias, histórias trágicas iguais a sua:

outras crianças de rua. Crianças más-boas,

criança-esperança, criança para todo gosto.

Zé Lourenço viu outras crianças nascerem,

ali, na calçada, nascerem de outras crianças.

Zé Lourenço nunca mais quis transar. Depois,

ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Depois de sua primeira vez com uma menina

de rua, Zé Lourenço nunca mais quis transar.

Em sua cabeça só a voz, o choro da irmã,

da irmã menor que ficou com o senhor.

Zé bebia e não conseguia fazer-amor.

De sua cabeça nunca saiu o choro da irmã.

Zé foi preso até perder a conta. Tornou-se

Zé Lourenço, o pai-de-rua. Líder. Mui sonhou

em ser político. “Pra Brasília vou ou fico?”

Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Drogarem-se pra enganar a fome, drogarem-se

pra ter coragem e roubar. Depois, drogarem-se

pra não ter tempo. Pra afugentar se drogam

na conurbação fria de noites eternas de Sampa.

Zé Lourenço sabe cada história do submundo;

viu mortes, Zé Lourenço viu assassínios, corpos

no asfalto quente. Viu cenas externas de tevê,

viu os prédios crescerem sem adubo, em miríade,

viu passeatas de protesto, cães e PMs nas ruas.

Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Zé Lourenço viu extermínios, viu estupros, viu

abortos, viu o que suas vistas não queriam ver.

Zé Lourenço, agora, sabe que os meninos de rua

cheiram gás de isqueiro para conhecer o paraíso

antes de morrer. Mas isto não só com os paraíbas,

Zé Lourenço ouviu falar em pessoas preocupadas

com a situação de todos os josés-meninos-de-rua.

E se Jesus voltasse hoje? Deixá-Lo-ia na sua?

Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Aquele senhor pegou Zé Lourenço e a irmã

para matá-los semelhante ou de forma pior

do que as gigantescas rodas do carro comedor

de gente. Tem gente preocupada com crianças,

com essas crianças de rua. Zé e a irmã menor

na orfandade da cidade. Zé Lourenço ainda hoje

ouve gritos de crianças. Alegres gritos ecoam

diferentes dos gritos de dor na casa do senhor.

Gritos inocentes, gritos infantis de pavor.

Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Querem tirar Zé Lourenço das ruas. Todavia,

Zé Lourenço envelheceu. As vias e rodovias

e avenidas trataram de embranquecer cabelo

e barba. Zé Lourenço sonhava. Zé Lourenço

morrera cedo em tiroteio com a polícia, na rua.

Zé Lourenço conheceu horrores dos presídios,

e sempre conviveu com os terrores das ruas.

Os valores éticos Zé Lourenço desconhecia,

pois os presídios têm suas próprias regras.

Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

 

Não deixou a cabeça de Zé Lourenço jamais

o buraco do choro da irmãzinha sem paz,

sem pai. Misericórdia na casa do senhor!

Sempre lhe veio à lembrança, Zé Lourenço?

Aquele se mostrou preocupado por demais,

logo quando seus pais foram espremidos,

esmagados pelas rodas do ônibus veloz.

O senhor lhe escolheu: escolheu-o e a irmã.

Por estas e outras razões do cotidiano:

ninguém sabe o dia de amanhã.[1]

 

 

    

 

 

 


 

[1] Lido no tribunal do júri simulado por acadêmicos de Direito em defesa de crianças sem-teto. Poema publicado, originalmente, no livro de Teoria Poética, “Uma Teoria do Paradoxo” (67-70:1999), e republicado em inúmeros periódicos e mídias desde então.

 

Um poema de Marcello Ricardo Almeida
www:historiaeculturasurbanas.blogspot.com

 
  

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::sobre o autor::

 Quem é o poeta Marcello Ricardo Almeida? "É um bruxo bem-humorado com seu caldeirão fervente" o poeta alagoano Marcello Ricardo Almeida (1961-), autor de 120 peças teatrais em seu premiado método Teatro-Feijão-Com-Arroz  e de 50 livros, dos quais NÃO: Santanismo poético sintetizado, EA, Blumenau, SC, 1988. Silveira de Souza, da Academia Catarinense de Letras, comenta que o jeito de narrar do advogado e poeta Marcello Ricardo Almeida, que dá a fatos comuns do cotidiano uma atmosfera um tanto onírica, como se praticasse uma bruxólica mistura de gêneros. Parece ser a depressão a tônica que move os acontecimentos, uma depressão sempre satírica. O toque transformador de Marcello Ricardo Almeida: um cotidiano narrado em linguagem sui generis, na qual mistura o grotesco, o onírico, o real, o fantástico, o humor, o satírico e o trágico. Um estilo singular. Com seus neologismos, onomatopéias, expressões coloquiais, junçõ!
es de palavras e descrições inusitadas. Há um humor que perpassa todas as páginas. Numa linguagem contundente pelo sarcasmo, na qual sobressaem situações grotescas. As palavras conscientemente se deturpam. Na verdade, será perda de tempo especular-se a propósito de gênero literário quando se trata de Marcello Ricardo Almeida, um bruxo bem-humorado com seu caldeirão fervente. Criou, na ilha de Florianópolis, SC, em 2003, o Festival Nacional de Poesia. Contate-o no e-mail marcelloricardo@bol.com.br

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