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“aguarde na fila sua vez, por favor” – enquanto a câmera on-board
registra e ameaça o fino fio de equilíbrio de quem sai de casa sem
maiores preocupações
não existem gerais ou revistas, desnecessárias às providências
satisfeitas por anteparos tecnológicos projetados. as luzes brilham o
som é alto e todos admiram filmagens: receitas impronunciáveis de um
espetáculo madrugada adentro
em qualquer tribo indígena o show seria suficiente e reservado,
dançando e gritando por vontade própria, não induzidos
dei-lhe a mão “é a nossa vez no desfile” e com coragem de homenzinho
empertigado enfrentei. o ambiente tenso no ar anunciando o porvir - um
nietzsche zombeteiro e debochado desafia o juízo. pensar “ele emprega
errado ferramentas certas” me acalma
o quadro do jardim da garagem é o seguinte: samambaias flores de maio
e as melissas carecem a atenção de regramentos. ainda que inverno uma
moça bronzeada exiba planejamentos clínicos de conspícua laje em Miami.
vicissitudes de uma beleza extraordinária é claro
uso relógio em meu braço esquerdo onde correntes com cadeados seriam
o adequado dada a adaptabilidade de todos ao cenário
o quente beijo de língua reage e redime “glória a deus nas alturas e
paz aos homens de boa vontade” ao acetinado toque do choque elétrico na
aguilhada da escorpioa beta asiática; mas ainda me permanece não
desvendado um culto secreto seu: o que fariam sensuais unhas azuis
metalizadas e cintilantes contrastando as suaves mãos alvas habituadas a
crochês como exercício de temperamento praticado pelas mulheres
orientais? não sei tratar-se ainda de enigma sabedoria ou de pura
atitude desafiadora. decifrar misteriosinhos da categoria desses é que
atormentam meu sono excitam imaginações
salvo engano descrevo francamente aos generais da resistência o que
se acomete:
“Ha..ve..rá de acon..tecer
Um di..a vo..cê vem de u..ma vez pra mim
Ha..ve..rá de a..pa..recer
a lu..a e es..tre..las enfei..tan..do o céu” ...
o compasso de mãos hábeis que cingem ritmos nada parecidos à
sonoridade de antigos instrumentos percussivos mesopotâmicos, e sim aos
de modernos sons dos contrabaixos eletrificados em difusão tão próxima
ao que se queira proclamar suficiente senão conveniente ao da simples
beleza singular imbuída na poesia de hyldon. e pronuncia-se deste modo a
imagem de jaco pastorious vitimizador de um mark sandman desbaratinados
ambos da vida e afetados pela loucura de um mercúrio que incide em
despejamento contingente ante uma lírica escorregante em escapadelas
garganta adentro e que, voilà, nesta altura, confunde um absorto maître
decantado em gentilezas e que não consegue sequer insinuar
agradavelmente aos casais assentados próximos à orquestra se a música
proposta no menu emana de fontes celestiais ou se de hades
incandescente, faltando-lhe credibilidade do rigor profissional
deixando-se contaminar pela eloquência de razões incompreendidas
emprego errado ferramentas certas. tentador cantar atrocidades
genuínas em ouvidos decantadores de prosas fáceis que não entendem
sutilezas de nosso idioma, enquanto nossos corpos dividem o império dos
sentidos, avante. veja bem, proveniente de nação que vislumbra união
fraternal a maneira peculiar de ratazanas qualquer manifestação amorosa
considerar-se-á insolência ou desonra inecessária. por orientação
descabida decido tratar bem a moça e está feito. casei os vinte reais
com o atendente que ordinariamente teimava o contrário comigo
”Fa..zer você sor..rir,
can..tar sem de..sen..ganos,
sem so..frer”
há dias tenho reparado faltar anteparos às plantas do jardim de
garagem. há dias também venho reparando não faço nada para amenizar o
sofrimento das pobrezinhas, vítimas de meu espetáculo de desterramento.
sou mengele no cio esperando pelos resultados de laboratório; o
montesquieu atiçado de critérios científicos aguardando por séculos
vindouros o que essa porra toda vai virar - e você não entende nada
disso, mudar o assunto já gata...
mas também reparo haver antipatia proveniente de exóticas flores
murchas em pronunciada casa de espetáculos: curadas ao sol de meio-dia
em suspensos jardins de higiênicas lajes em Miami recrudescem e
empertigam ares do recinto de sulfúreos gazes das sistemáticas
revanchistas ao senti-la tão viva altiva, orgulhosamente amada. sem
ideais condições, raras flores sobrevivem aos desafios de bom gosto
sozinhas: anteparos arranjos e vacilos por conta da casa
“Ha..ve..rá de a..pa..recer
as flo..res mais boni..tas
que o mun..do viu” ...
como todo gesto de contrariedade há um de resignação e de boa vontade
que o acompanha rosa-maria de destinos sofríveis outros assovia a
cantilena preferida ao meu ouvido interior “glória a deus nas
alturas...” ao passo que mimeticamente alcandorados em mezaninos
suspensos um insolente exército de atendentes em conluio sentem-se agora
atiçados pelo cheiro do fraco sangue escorrido de carcaças dos frangos
descongeladas a temperatura ambiente derivando disto um caldo viscoso
pia adentro sob encantamento do som das melodias entoadas pelos fios de
navalhas sendo afiadas, em uníssono
a observância dos ratos que zanzam
um lado a outro do ambiente em disparate cinge a ambiência dos cômodos
de um elegante desorientamento quase ensaiado, como fossem artérias
vertentes pulsando juntas a intrínseca parte de um todo – ajudando-me
equiparar minhas instâncias inferiores de origem, o que desvia os
rumores internos e integra-me ao séqüito obsequioso do mundo entretido
sabedor porquanto quais ventos insolventes a orientam permito-me o
especial gesto de confiança da cavalheirice e requisito o tubo de álcool
e a caixa de fósforos ao quadro gentilício entregando-os às mãos
especiais familiarizadas com a posse e manipulação dos artefatos de
pólvora cujos ânimos incendiários inclinam-se atavicamente a gênios
postergadores de antepassadas aldeãs que, encontrando-se abandonadas por
companheiros fugidios apeados pelo medo dinástico nutrido pelos mongóis
trocariam a doce brandura de tranqüilizadores sorrisos matriarcais pelo
aconselhável semblante assassino de ávidos dentes rechaçadores de
soberania, afrontadas que foram pela fome circunstancial soergueriam-se
em forças de coragens e confianças arreganhando grades e portas da
grande muralha aos invasores
e que noite inesquecível meu amor:
bailaríamos majestosamente por horas a fio a dança suave de apaixonados
imaculada de mixórdias proibidas ao compasso de um bar inteiro ardendo
em chamas sobre providência das pétalas de flores desgarradas ante
grosserias e eloqüentes insultos ajambrando-se a passagem em corpo de
solícito tapete espesso das melissas de maio das floras nativas e de
rosas-marias tantas outras assopradas pelos ventos como as das sementes
ousassem germinado nas planícies de sharon um dia ou as de ardilosas
combatentes de bombas atômicas clandestinas tais quais as estateladas
sobre a superfície de hiroshima, ambas explícitas puras primitivas
imbuídas em gestos de carícias e zelos asseguradores às delicadezas da
fina pele exposta da sola de nossos calcanhares durante a
bem-aventurada travessia rumo ao córrego dos
destinos incertos e não menos desafiadores à hegemonia de afrontados
deuses patronos dos parques de diversões onde nós, distraídos citadinos,
fizéramos jus aos aborrecimentos afrontados por anjos da sexta escala
hierárquica de nossos apetites apostos aos quais ousáramos elogiar com
grandiloqüentes epítetos designificativos de potestades únicas, típicas
aos financiadores de nomes em listas de convidados e de coisas do
gênero, em explícitas solenidades nas noites de terças a domingos da
orgânica metrópole
autoria: Fábio Camacho, poeta e escritor paulista, nascido em
1974
mais: http://www.overmundo.com.br/perfis/fabio-camacho
contato:
fabiocamacho1974@hotmail.com
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